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Revitalização com maior viabilidade

A transferência da coordenação dos planos de revitalização das seis zonas históricas para a Associação dos Moradores (Kai Fong) no mês passado, criou um novo modelo de cooperação entre o Governo, as concessionárias e as organizações civis. Zeng Zhonglu, professor da área do Jogo e Turismo na Universidade Politécnica de Macau, considera que esta abordagem corrige a “forte dependência nas concessionárias” e facilita a concretização dos projetos, ao reforçar a ligação às comunidades.

Viviana Chan

Esta mudança traduz-se num papel mais ativo do Governo no desenvolvimento das zonas históricas e “corrige a lógica anterior de forte dependência nas concessionárias”, explica o professor do Centro de Ensino e Investigação em Jogo e Turismo da Universidade Politécnica de Macau. A liderança dos Kai Fong permite uma “melhor correspondência com as necessidades das comunidades, maior eficiência administrativa e uma gestão mais eficaz de questões relacionadas com direitos de propriedade e conservação patrimonial”, defende.

No passado, a implementação dos projetos envolvia situações complexas, como a reparação e manutenção de património cultural e a definição da titularidade dos edifícios. “Estes são assuntos que exigem uma capacidade administrativa robusta para serem resolvidos e que não correspondem necessariamente às competências das empresas de Jogo”, afirma ao PLATAFORMA, acrescentando que o Governo ajustou a sua abordagem, passando a assumir uma parcela mais significativa das responsabilidades.

Este novo modelo, ancorado no Centro de Desenvolvimento das Zonas Históricas, “reduz a carga de coordenação transversal imposta às concessionárias, permitindo-lhes concentrar esforços na melhoria da competitividade dos seus próprios ativos e produtos ligados ao Jogo”, considera Zeng. Após um período de aprendizagem e ajustamentos ao longo dos últimos dois anos, a atribuição da liderança às associações locais é uma opção mais realista, dado que estas “têm um conhecimento mais profundo dos comerciantes e da dinâmica comunitária, o que facilita decisões mais adequadas e uma execução com menor resistência”.

Monitorização multidimensional

De um modo geral, apoio este modelo, por se tratar de uma abordagem inovadora, cuja estrutura apresenta algumas otimizações face às anteriores”, diz o subdiretor da Faculdade de Gestão Hoteleira e Turismo da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, José Wong.

A utilização de organizações civis como plataforma de coordenação entre empresas e Governo “pode reduzir diretamente os custos de coordenação da Administração”, além de contribuir para a integração orgânica e aplicação mais coerente dos elementos não ligados ao Jogo dentro das zonas intervencionadas, explica Wong ao PLATAFORMA.

O plano de desenvolvimento tem um horizonte de sete anos e, se for possível assegurar investimentos e uma programação dinâmica de atividades, tal “torna o projeto mais atrativo para os investidores e reforça a confiança para um envolvimento sustentado”. No entanto, Wong alerta que um “ciclo prolongado implica maiores exigências de gestão”, defendendo a criação de “indicadores-chave de desempenho (KPI) como base de avaliação”.

O académico sublinha ainda que as seis zonas apresentam características distintas: algumas envolvem “ruas históricas” e memória coletiva, enquanto outras dispõem de maior margem de transformação. Nestes casos, considera essencial encontrar um equilíbrio entre preservação e mudança, “mantendo um diálogo contínuo com residentes, comerciantes e restantes partes interessadas e tomando os indicadores-chave como referência, para assegurar uma revitalização sustentável”.

Três modelos de revitalização

O presidente da direção da União Geral das Associações dos Moradores de Macau, Chan Ka Leong, em declarações ao jornal Ou Mun, explicou que já foram elaborados conceitos iniciais para as seis grandes zonas, que serão revitalizadas segundo três modelos distintos, com vista a destacar as suas especificidades histórico-culturais e a desenvolver projetos de IP (Propriedade Intelectual) próprios.

De acordo com o plano apresentado, o primeiro modelo, assente na experiência cultural, toma como referência a zona da Barra e aposta na vivência da cultura marítima e das crenças tradicionais. O segundo modelo centra-se na transformação de antigos complexos industriais, como os estaleiros navais de Lai Chi Vun e a antiga fábrica de fogo-de-artifício Iec Long, onde serão incorporados elementos industriais para a criação de áreas destinadas a famílias. O terceiro modelo aposta na integração de bairros históricos, onde se incluem a Rua da Felicidade, a Rua de Cinco de Outubro e o Cais do Porto Interior, através de pequenas intervenções urbanas e da melhoria da sinalização, com o objetivo de unificar zonas dispersas num único circuito comercial e aliviar a pressão turística sobre o Largo do Senado.

O Centro irá trabalhar com associações e com o setor comercial e industrial na captação contínua de investimento. Não se trata apenas de realizar eventos isolados, mas de criar uma identidade de marca para as seis zonas, transformando-as em áreas comerciais completas, com restauração, comércio e oferta cultural”, explicou Chan. A reabilitação da paisagem urbana dos bairros antigos, aliada à regeneração funcional, contribuirá para “reforçar o emprego local e garantir que os benefícios da revitalização sejam partilhados” pelos diferentes ‘stakeholders’, explicou.

Sobre o planeamento em curso, Zeng Zhonglu alerta para a excessiva fragmentação das seis zonas, que limita o tempo de permanência dos visitantes. Na sua análise, a revitalização deve assentar numa lógica de integração regional: “Para gerar um impacto mais expressivo ou sustentável, é necessário integrar várias zonas, pelo menos as que se encontram próximas entre si.” Apenas quando as zonas conseguirem, de forma articulada, ocupar “mais de meio dia do percurso dos visitantes será possível dinamizar verdadeiramente a economia local”, conclui.

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