“Macau desempenha este papel há 500 anos e tem-no desempenhado na perfeição”, explica ao PLATAFORMA, e esse papel de ponte, afirma, não se restringe a Portugal, mas estende-se naturalmente a todo o mundo lusófono. A criação do Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, em 2003, reforçou essa identidade e deu-lhe visibilidade formal. Mas também elevou as expectativas sobre resultados quantificáveis, em particular no plano comercial. “Somos hoje muito mais exigentes quando olhamos para o papel de plataforma desempenhado por Macau. Nunca vamos saber quais seriam os resultados comerciais se o Fórum não tivesse sido criado. Mas foi sempre uma vantagem para Macau, porque impulsionou a atuação de várias instituições da sociedade civil e reforçou a identidade da cidade”.
Legado relacional e simbólico
Apesar de receios de erosão do legado português, Carmen Mendes considera que “a língua continua a ser acarinhada em Macau”, com número crescente de falantes chineses. “Há tradutores de excelência. Há cada vez mais interesse em aprender português porque traz oportunidades profissionais”, diz. Também a preservação do património tem sido exemplar, destacando os 20 anos da inscrição do centro histórico de Macau como Património Mundial da UNESCO. A própria participação da investigadora, em dezembro passado, em conferências da Universidade de Macau – com o apoio logístico da Universidade de São José – centrou-se precisamente na relação entre o estatuto do património e o reforço da ponte sino-lusófona. Para a investigadora, que há seis anos dirige o CCCM, Macau conserva uma singularidade histórica que continua a abrir portas, tanto no contexto europeu como no interior da China. “Quando eu estou em reuniões, mesmo académicas, e se fala de Macau, percecionam-nos [portugueses] logo de maneira especial. E isso abre portas, é inegável”.
Macau conserva uma vantagem comparativa que nenhum outro país europeu possui: o legado relacional e simbólico construído ao longo de séculos entre Portugal e a China. A seu ver, esse legado continua vivo, não só na perceção chinesa, mas também no interesse por produtos e referências culturais portuguesas.
“Nas lojas dos museus em Macau, os produtos que mais vendem são os portugueses ou de inspiração portuguesa. Há interesse do lado chinês. Quando chegamos à China e levamos o nome de Macau, a porta está aberta e há sorrisos, porque não estamos associados ao aspeto negativo do colonialismo”, explica ao PLATAFORMA.
Cooperação académica

O CCCM, explica Carmen Mendes, tem desenvolvido uma estratégia consistente para estreitar as ligações académicas com Macau. A ligação mais antiga existe com a Universidade de Macau, com quem foi criado um programa de coedições que já publicou 15 livros nas áreas da cultura, história, estudos contemporâneos e direito. “Temos mais volumes no prelo que sairão em breve”.
O Centro atribui ainda, em parceria com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 10 bolsas de doutoramento por ano. “Temos neste momento 50 bolseiros, incluindo pessoas de Macau. Trabalham em áreas relevantes, como o papel de Macau na política externa chinesa e na ligação da China aos países de língua portuguesa”.
Há também cooperação com diversas instituições, como a Universidade de São José, a Universidade Politécnica de Macau, o Instituto de Estudos Europeus e a Fundação Macau. Um dos projetos em destaque é o catálogo do Museu de Macau, em dois volumes, que conta com o apoio da Universidade de Macau, IPOR, Embaixada de Portugal em Pequim, assim como de mecenas com a SJM, o BNU e Neto Valente.
Aproximação Lisboa-Macau
“Era importante que as pessoas de Macau, quando vão a Lisboa, passassem pelo Centro Científico e Cultural de Macau, fizessem palestras, trouxessem Macau para Lisboa”, explica.
Para isso criou as “conversas sábias”, encontros informais às quintas-feiras que visam manter viva a presença de Macau no espaço público português. As conferências de primavera, organizadas todos os anos pelo CCCM, reúnem cerca de 180 investigadores portugueses sobre a Ásia e no que se refere á academia, “era importante que os investigadores de Macau participassem mais nas nossas conferências científicas (…) Há muita gente em Macau que podia participar e não participa”.
“Seria essencial que as instituições com capacidade financeira facilitassem a vinda de investigadores de Macau a Lisboa e permitissem também que estudantes de Macau passassem períodos em Portugal”. O CCCM, garante, tem total disponibilidade para acolher estagiários, voluntários e projetos conjuntos.
Por fim, a diretora destaca que Macau continua a ser visto por Pequim como um espaço de abertura e modernização, relevante em iniciativas como a Grande Baía ou Uma Faixa, Uma Rota. Com dimensão territorial mínima, mas “importância simbólica enorme”, Macau sabe historicamente posicionar-se: “Sabe ser plataforma melhor do que ninguém”.