Início » “Onde há palco, há espaço”

“Onde há palco, há espaço”

Em 1975, o Grupo de Teatro Hiu Kok foi fundado sob o lema “Cultivar, Unir, Desenvolver o Teatro”. Meio século mais tarde, a companhia tornou-se uma das principais entidades artísticas locais, tendo formado sucessivas gerações de profissionais empenhados na arte dramática. O grupo pretende aproveitar esta ocasião para desenvolver o espaço artístico e cultural local, sublinhando que “onde há palco, há espaço para os heróis mostrarem o seu valor”.

Para celebrar o seu 50.º aniversário, organizaram uma série de atividades sob o tema “Meio Século de Palco, Ecos do Património”, que decorrem até 2 de fevereiro no Teatro Dom Pedro V. O programa inclui uma exposição retrospetiva das criações teatrais do grupo, 15 espetáculos selecionados e um festival de teatro, e debates, com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento do teatro em Macau.

Em entrevista ao PLATAFORMA, o diretor-executivo do grupo, Lou Iao Wa, explica que a comemoração deste aniversário tem como foco principal a “transmissão” e, beneficiando do apoio governamental, é possível realizar uma temporada prolongada no emblemático Teatro Dom Pedro V, incluido no Centro Histórico de Macau e inscrito no Património Mundial da UNESCO. Para além dos espetáculos, o grupo incluiu exposições e mesas-redondas, mostrando o percurso e o contributo das várias gerações do Hiu Kok, ao mesmo tempo que procura refletir, em conjunto, sobre o futuro do panorama artístico local. “Passaram-se 50 anos, e depois? Quais as políticas atuais e como podemos interagir para promover melhor o setor? É esta reflexão que queremos fazer após meio século de história”.

A programação inclui o ciclo “Long Run”, com “The Gin Game”, reposições dos clássicos “Dissecação” e “À Espera do Espírito”, bem como a produção anual “Cada Dia é um Bom Dia”. Para o diretor-artístico, Hui Koc Kun, a programação do cinquentenário baseia-se na ideia de “clássico” como eixo central; o ciclo “Long Run” expressa a esperança de que Macau possa vir a ter temporadas teatrais de longa duração e a produção anual revela o espírito de criação original do grupo. De acordo com o mesmo responsável, a maior característica do grupo é a “procura constante de inovação”: “Para além de acompanhar as políticas culturais do Governo, o Hiu Kok é um grupo que procura constantemente inovar – não só na arte, mas também na procura de desenvolvimento e de novas oportunidades em Macau”, diz ao PLATAFORMA.

À primeira vista, talvez não sejamos muito vanguardistas,” comenta com um sorriso, “mas ao fim de 50 anos há um certo sentimento de veterania. No entanto, refletimos constantemente sobre o que Macau realmente necessita. O lema ‘Cultivar, Unir, Desenvolver o Teatro’ é, para nós, especialmente significativo”, conclui.

Eco de Cinquenta Anos

Ao longo de meio século, o Hiu Kok testemunhou a evolução do teatro local. Cheng Kei Sang, um dos membros fundadores, recorda que, nos anos 1970, a atividade teatral em Macau era pouco dinâmica, mas um grupo de jovens, movido pela paixão pela arte dramática, decidiu criar um grupo de teatro. Com poucos recursos e sem apoios financeiros, angariaram fundos, ensaiaram em auditórios escolares emprestados e deslocaram-se a Hong Kong para aprender, apostando no intercâmbio, chegando mesmo a receber alguns prémios.

O grupo manteve colaborações frequentes com companhias de teatro portuguesas e grupos de teatro macaenses de língua portuguesa. Nos anos 80, um grupo artístico português convidou membros do Hiu Kok a estudar em Portugal durante um mês; nos anos 90, apoiaram as atuações do grupo de teatro em patuá no Teatro Dom Pedro V. O Hiu Kok também atuou na região do Delta do Rio das Pérolas e promoveu intercâmbios com o meio teatral de expressão chinesa, incentivando estudantes universitários locais a criarem os seus próprios grupos de teatro.

Mais recentemente, o Hiu Kok tem apostado em intercâmbios e atuações fora de Macau. Em 2024, a peça original “Hide and Seek” recebeu o apoio do Fundo Nacional de Artes da China; em 2025, o texto foi distinguido com o Prémio de Literatura Dramática “Cao Yu”, tornando-se o primeiro texto original de Macau a alcançar este reconhecimento máximo no teatro chinês.

Identidade cultural própria

Desde que o Teatro Dom Pedro V foi integrado no circuito do património mundial da UNESCO, raramente é cedido para temporadas prolongadas a grupos artísticos, e Cheng Kei Sang considera esta experiência uma iniciativa pioneira que poderá abrir novos caminhos para os teatros locais. “Onde há palco, há espaço para os heróis mostrarem o seu valor”, diz.

Lou Iao Wa espera que as políticas governamentais para a cultura e o turismo possam, no futuro, permitir que outros espaços – não apenas o Teatro Dom Pedro V – sejam disponibilizados como residência para grupos de teatro, criando condições para o crescimento destas companhias e garantindo a sustentabilidade da cultura local. Lou salienta, ainda, que as artes e a cultura contribuem para a diversificação das indústrias de Macau e o desenvolvimento de uma identidade cultural própria. Acredita que, ao permitir a residência criativa em espaços fixos, não só revitaliza o património, como fomenta a inovação. “Esperamos que esta experiência no Dom Pedro V sirva de inspiração – que outros grupos também possam ter oportunidade de residir em espaços próprios. Se conseguirmos alargar esta possibilidade aos futuros espaços culturais, estaremos a consolidar as bases de Macau para o futuro”.

Regresso às origens

O Teatro Dom Pedro V foi um dos palcos mais emblemáticos para o grupo Hiu Kok. Nos anos 80, a tradicional competição interna “Vermelho & Branco” – adaptada da tradição “pop” japonesa de competição entre equipas em jogos televisivos -, realizada a cada Dia de Ano Novo, tinha o teatro como cenário principal. As peças clássicas, agora revisitadas para o cinquentenário, como “Dissecação” e “À Espera do Espírito”, também tiveram a sua estreia no Dom Pedro V. Neste regresso ao palco original, foi montada uma exposição retrospetiva das criações teatrais do grupo ao longo destes cinquenta anos, exibindo fotografias, manuscritos, figurinos e vídeos dos vários anos de trabalho do grupo. Paralelamente, o grupo organiza mesas-redondas, convidando reconhecidos profissionais do teatro, curadores e académicos, tanto locais como internacionais, para partilhar ideias e discutir temas como o desenvolvimento das companhias locais, a inteligência artificial nas artes performativas e os intercâmbios teatrais na Grande Baía. Além disso, outros espetáculos clássicos, como “A Vila da Fama Vã” e “Macaenses no Prédio”, serão apresentados sob a forma de sessões de exibição em várias cidades da Grande Baía, aumentando ainda mais o reconhecimento do teatro local junto do público do Interior da China.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!