Para celebrar o seu 50.º aniversário, organizaram uma série de atividades sob o tema “Meio Século de Palco, Ecos do Património”, que decorrem até 2 de fevereiro no Teatro Dom Pedro V. O programa inclui uma exposição retrospetiva das criações teatrais do grupo, 15 espetáculos selecionados e um festival de teatro, e debates, com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento do teatro em Macau.
Em entrevista ao PLATAFORMA, o diretor-executivo do grupo, Lou Iao Wa, explica que a comemoração deste aniversário tem como foco principal a “transmissão” e, beneficiando do apoio governamental, é possível realizar uma temporada prolongada no emblemático Teatro Dom Pedro V, incluido no Centro Histórico de Macau e inscrito no Património Mundial da UNESCO. Para além dos espetáculos, o grupo incluiu exposições e mesas-redondas, mostrando o percurso e o contributo das várias gerações do Hiu Kok, ao mesmo tempo que procura refletir, em conjunto, sobre o futuro do panorama artístico local. “Passaram-se 50 anos, e depois? Quais as políticas atuais e como podemos interagir para promover melhor o setor? É esta reflexão que queremos fazer após meio século de história”.
A programação inclui o ciclo “Long Run”, com “The Gin Game”, reposições dos clássicos “Dissecação” e “À Espera do Espírito”, bem como a produção anual “Cada Dia é um Bom Dia”. Para o diretor-artístico, Hui Koc Kun, a programação do cinquentenário baseia-se na ideia de “clássico” como eixo central; o ciclo “Long Run” expressa a esperança de que Macau possa vir a ter temporadas teatrais de longa duração e a produção anual revela o espírito de criação original do grupo. De acordo com o mesmo responsável, a maior característica do grupo é a “procura constante de inovação”: “Para além de acompanhar as políticas culturais do Governo, o Hiu Kok é um grupo que procura constantemente inovar – não só na arte, mas também na procura de desenvolvimento e de novas oportunidades em Macau”, diz ao PLATAFORMA.
“À primeira vista, talvez não sejamos muito vanguardistas,” comenta com um sorriso, “mas ao fim de 50 anos há um certo sentimento de veterania. No entanto, refletimos constantemente sobre o que Macau realmente necessita. O lema ‘Cultivar, Unir, Desenvolver o Teatro’ é, para nós, especialmente significativo”, conclui.
Eco de Cinquenta Anos

Ao longo de meio século, o Hiu Kok testemunhou a evolução do teatro local. Cheng Kei Sang, um dos membros fundadores, recorda que, nos anos 1970, a atividade teatral em Macau era pouco dinâmica, mas um grupo de jovens, movido pela paixão pela arte dramática, decidiu criar um grupo de teatro. Com poucos recursos e sem apoios financeiros, angariaram fundos, ensaiaram em auditórios escolares emprestados e deslocaram-se a Hong Kong para aprender, apostando no intercâmbio, chegando mesmo a receber alguns prémios.
O grupo manteve colaborações frequentes com companhias de teatro portuguesas e grupos de teatro macaenses de língua portuguesa. Nos anos 80, um grupo artístico português convidou membros do Hiu Kok a estudar em Portugal durante um mês; nos anos 90, apoiaram as atuações do grupo de teatro em patuá no Teatro Dom Pedro V. O Hiu Kok também atuou na região do Delta do Rio das Pérolas e promoveu intercâmbios com o meio teatral de expressão chinesa, incentivando estudantes universitários locais a criarem os seus próprios grupos de teatro.
Mais recentemente, o Hiu Kok tem apostado em intercâmbios e atuações fora de Macau. Em 2024, a peça original “Hide and Seek” recebeu o apoio do Fundo Nacional de Artes da China; em 2025, o texto foi distinguido com o Prémio de Literatura Dramática “Cao Yu”, tornando-se o primeiro texto original de Macau a alcançar este reconhecimento máximo no teatro chinês.
Identidade cultural própria

Desde que o Teatro Dom Pedro V foi integrado no circuito do património mundial da UNESCO, raramente é cedido para temporadas prolongadas a grupos artísticos, e Cheng Kei Sang considera esta experiência uma iniciativa pioneira que poderá abrir novos caminhos para os teatros locais. “Onde há palco, há espaço para os heróis mostrarem o seu valor”, diz.
Lou Iao Wa espera que as políticas governamentais para a cultura e o turismo possam, no futuro, permitir que outros espaços – não apenas o Teatro Dom Pedro V – sejam disponibilizados como residência para grupos de teatro, criando condições para o crescimento destas companhias e garantindo a sustentabilidade da cultura local. Lou salienta, ainda, que as artes e a cultura contribuem para a diversificação das indústrias de Macau e o desenvolvimento de uma identidade cultural própria. Acredita que, ao permitir a residência criativa em espaços fixos, não só revitaliza o património, como fomenta a inovação. “Esperamos que esta experiência no Dom Pedro V sirva de inspiração – que outros grupos também possam ter oportunidade de residir em espaços próprios. Se conseguirmos alargar esta possibilidade aos futuros espaços culturais, estaremos a consolidar as bases de Macau para o futuro”.

Regresso às origens
O Teatro Dom Pedro V foi um dos palcos mais emblemáticos para o grupo Hiu Kok. Nos anos 80, a tradicional competição interna “Vermelho & Branco” – adaptada da tradição “pop” japonesa de competição entre equipas em jogos televisivos -, realizada a cada Dia de Ano Novo, tinha o teatro como cenário principal. As peças clássicas, agora revisitadas para o cinquentenário, como “Dissecação” e “À Espera do Espírito”, também tiveram a sua estreia no Dom Pedro V. Neste regresso ao palco original, foi montada uma exposição retrospetiva das criações teatrais do grupo ao longo destes cinquenta anos, exibindo fotografias, manuscritos, figurinos e vídeos dos vários anos de trabalho do grupo. Paralelamente, o grupo organiza mesas-redondas, convidando reconhecidos profissionais do teatro, curadores e académicos, tanto locais como internacionais, para partilhar ideias e discutir temas como o desenvolvimento das companhias locais, a inteligência artificial nas artes performativas e os intercâmbios teatrais na Grande Baía. Além disso, outros espetáculos clássicos, como “A Vila da Fama Vã” e “Macaenses no Prédio”, serão apresentados sob a forma de sessões de exibição em várias cidades da Grande Baía, aumentando ainda mais o reconhecimento do teatro local junto do público do Interior da China.