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Investir no plano já e em força

Paulo Rego*

Conta-se em Hong Kong uma anedota que menoriza os chineses que fugiram da guerra civil para Macau; sobrevalorizando quem percebeu que mais valia nadar 60 milhas para o outro lado do Delta. O humor arrogante da cidade grande goza assim com a aldeia aburguesada pelo Jogo; nunca de facto competitiva nos campos do empreendedorismo e da diversificação económica. Setenta e cinco anos depois; Hong Kong apresenta Linhas de Ação Governativa pujantes e ambiciosas; apresentadas como pílula contra a angústia e a depressão. No fundo, reage a sucessivas crises económicas e políticas, com renovada energia. Por cá; a linha de ação dominante é a da narrativa – na gaveta.

É urgente executar o plano que for possível. Sempre a discuti-lo e a pensar no que deixa para trás ou não contém. Não há consenso em Hong Kong – e ainda bem. Mas há força e convicção. Por muito que falte discutir e refletir; é óbvio que nesta altura faz sentido um forte investimento público, e linhas condutoras claras que atraiam o capital privado. A vida continua para lá da crise.

Dizem os seus opositores que o plano é demasiado chinês, virado a continente, excessivamente centralizado… e centrado no lobby da construção. Pode ser tudo verdade; mas é preciso arrancar com o que se pode; forçando no caminho o outro lado do destino: livre comércio, circulação de pessoas e capitais… direitos e liberdades que elevem a autonomia. Não são esses os sinais que vêm do Norte. Certo, mas no fundo também fazem parte do plano chinês. Certo é que, sem apoio de Pequim, o futuro não arranca; mas também não se chega lá sem sedução e crédito a ocidente.

Macau tem de adotar o mesmo raciocínio. Não faz sentido arrastar pelas ruas da amargura um plano, por ser chinês e virado para dentro; quando ninguém tem outro; em Macau nem em lado algum. Se o único desígnio que Macau tem é aquele que lhe é imposto, se nem sequer esse cumpre não vai certamente ganhar nenhum debate sobre a ponte para ocidente. Em breve Pequim perceberá que o investimento e o ‘know-how’ estrangeiro precisam de condições que as regiões autónomas podem e devem oferecer. Se não o fizerem nem sequer se percebe para que serve o Segundo Sistema.

Macau não tem dimensão para um distrito como Hong Kong vai erguer; virado a Shenzhen; mas tem espaço reservado em Hengqin, novas indústrias definidas; e projetos urbanísticos anunciados: duas faces do rio; parque científico e tecnológico; bairro de cultura e lazer… anunciados com pompa circunstância, nem no papel estão; não há concursos nem planos concretos. Falta capital, capacidade política, sentido de urgência, e cultura de execução. Sam Hou Fai teve pouco tempo, muitos constrangimentos e nenhuma margem financeira. Mas tem mesmo de dar a volta ao texto. Ou recorre à Reserva Financeira, ou contrai dívida pública; ou seduz as empresas – chinesas e estrangeiras. Se não ataca de frente a angústia e a depressão, corre o risco de morrer na praia, com o plano na mão. Não por ele ser mau, mas porque nem aquele que a China quer é capaz de pôr em marcha. Será que não está lá a cidade híbrida, internacionalista; o que é feito das liberdades económicas – e outras – que, de facto, erguem pontes para o mundo? Até lá estão no plano, embora hoje pareçam escondidas. Mas se nenhum plano arranca, qual é a discussão que sobre ele se quer ter?

Não há infraestruturas sem lobbies da construção; e é no mínimo ingénuo acantonar a discussão em becos ideológicos e ilusões políticas. É até conservador, no sentido em que se agarra à saudade colonial e ao dólar VIP. A Grande Baía é um alicerce óbvio para a diversificação económica; ainda por cima com apoio e aval central. Traz problemas e contradições? Claro que sim. Mas a China precisa que as regiões autónomas ganhem asas para o mundo. E essa é a janela da discussão. Não é a boicotar a parte continental do plano, que nos abre mercados que o mundo inteiro quer; que se ganha a parte ocidental do plano, que parte da China até quer – mas não quer dizer.

No curto prazo, é pôr os olhos em Hong Kong e importar esse culto do fazer. Não há volta a dar: se não há outro plano, este tem de arrancar – já e em força. O resto vem a seguir.

*Diretor Geral do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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