O Campeonato do Mundo de 2026 da FIFA já tem o seu conto de fadas inegável. A 15 de junho de 2026, a pequena nação insular de Cabo Verde defrontou de igual para igual os campeões europeus em título, a Espanha, no Atlanta Stadium, conseguindo um histórico nulo a zero na sua estreia no Grupo H.
No centro deste milagre futebolístico esteve um guarda-redes veterano de 40 anos, a jogar no palco mais grandioso da sua carreira, um homem conhecido por todo o mundo simplesmente como Vozinha.
Quando o árbitro assinalou o final do jogo, o veterano guardião foi imediatamente rodeado por colegas, antes de se desfazer em lágrimas no relvado. A Espanha dominou completamente a posse de bola, encurralando a seleção africana no seu próprio meio-campo durante a quase totalidade da partida.
Ainda assim, todas as vezes que a vanguarda ofensiva espanhola, recheada de estrelas, conseguiu furar a defesa cabo-verdiana, Vozinha esteve sempre resente para responder. Somou sete defesas incríveis ao longo dos 90 minutos, conquistando assim o título de Melhor Jogador em Campo.
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Para os adeptos mais distraídos que assistiam um pouco por todo o mundo, o nome impresso na camisola despertou uma curiosidade imediata. Nascido Josimar José Évora Dias a 3 de junho de 1986, na cidade costeira do Mindelo, na ilha de São Vicente, a alcunha “Vozinha” significa precisamente isso: uma alcunha de infância que lhe foi atribuída por ter sido criado pelos avós, enquanto o pai cumpria serviço militar e a mãe trabalhava sem descanso.
O seu percurso até ao torneio máximo do futebol tem sido a própria definição de uma peregrinação futebolística nómada. Vozinha começou a carreira sénior a nível local, no Batuque FC e no CS Mindelense, antes de embarcar numa longa viagem por África e pela Europa.
O seu trajeto passou pelo Progresso do Sambizanga, em Angola, pelo Zimbru Chișinău, na Moldávia, pelo Gil Vicente, em Portugal, pelo AEL Limassol, no Chipre, e pelo AS Trenčín, na Eslováquia. Atualmente, defende a baliza do G.D. Chaves, da II Liga Portuguesa.
Quando chegou a Angola, anos antes, havia já no plantel outro guarda-redes chamado Josimar. Recusando-se a usar “Josimar II” nas costas, insistiu em imprimir a sua alcunha de infância na camisola, consolidando assim a identidade que, anos mais tarde, daria a volta ao mundo.
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As cenas emotivas de Vozinha a chorar no relvado de Atlanta, após o jogo, tiveram eco muito além das paredes do estádio. Em declarações aos jornalistas após a partida, o veterano guarda-redes explicou que as lágrimas nasceram de uma mistura de profundo orgulho nacional e dor pessoal.
“Chorei porque cresci com os meus avós e, infelizmente, eles não estavam aqui; morreram uns anos antes, e fizeram tudo por mim e pela minha vida”, partilhou Vozinha numa entrevista emotiva após o jogo. “A minha mãe também não conseguiu estar aqui, por causa do visto. O dinheiro para o visto não conseguimos a tempo, e eu gostava que ela estivesse aqui”, declarou o guardião lusófono.
Apesar da ausência do seu círculo mais próximo nas bancadas, a terceira nação mais pequena de sempre a qualificar-se para um Mundial tem agora o mundo inteiro a apoiá-la. Poucas horas depois de ter conseguido o empate frente à Espanha, o número de seguidores de Vozinha no Instagram sofreu uma explosão viral sem precedentes, saltando de uns modestos 500 mil para mais de 6 milhões.
A comunidade futebolística internacional não demorou a reagir à exibição de Vozinha. O internacional francês Paul Pogba manifestou a sua admiração nas redes sociais, escrevendo aos seus milhões de seguidores: “O guarda-redes de Cabo Verde é mesmo qualquer coisa, waaaaw”.
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Com o seu primeiro ponto histórico em Mundiais já garantido, os “Tubarões Azuis” estão de repente cheios de fé no Grupo H. A exibição espetacular de Vozinha veio virar do avesso a dinâmica do grupo, a poucos dias dos jogos seguintes.
Cabo Verde vai procurar levar esta onda de momento emocional para os próximos jogos da fase de grupos. A seleção enfrenta a potência sul-americana Uruguai a 21 de junho, no Hard Rock Stadium, em Miami, antes de encerrar a primeira fase do seu percurso contra a Arábia Saudita a 26 de junho, no NRG Stadium, em Houston.
Avancem ou não para a fase a eliminar, o “vozinha” de 40 anos, natural de São Vicente, já escreveu o seu nome no folclore eterno do Mundial.