Os trabalhos estão a ser desenvolvidos desde o início de junho por investigadores do Centro de Investigação em Paleobiologia e Paleoecologia (Ci2Paleo) da Sociedade de História Natural (SHN). A descoberta começou em junho de 2025, quando Luís Domingos, membro da equipa, encontrou parte de um fémur exposto numa arriba durante trabalhos de prospeção paleontológica.
O osso estava em risco de queda devido à erosão costeira, levando os investigadores a avançar com uma intervenção para recuperar o vestígio. A análise inicial do fémur revelou características pouco comuns, despertando a atenção da equipa liderada por Bruno Camilo, diretor do Ci2Paleo da SHN.
Durante uma nova intervenção realizada no verão de 2025, os investigadores encontraram mais restos do animal, incluindo cerca de 45 osteodermes — placas ósseas que permitiram identificar o fóssil como pertencente ao grupo dos anquilossauros.
Estes dinossauros eram conhecidos pela presença de placas ósseas e estruturas defensivas no corpo, como espigões laterais. De acordo com Bruno Camilo, são animais raros no registo fóssil e os exemplares conhecidos na Europa são geralmente mais recentes.
O investigador explica que o fóssil encontrado em Torres Vedras pertence a uma camada geológica do Kimmeridgiano, uma fase do Jurássico Superior mais antiga do que aquela onde foram identificados outros anquilossauros conhecidos. Caso a identificação seja confirmada, este poderá ser o exemplar mais antigo deste grupo alguma vez encontrado na Europa continental.
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A conservação do fóssil é considerada excecional pela equipa. Os investigadores estimam que o animal esteja cerca de 85% completo, podendo essa percentagem chegar aos 95% caso se confirme a presença dos membros anteriores, ainda protegidos por placas ósseas e espigões.
O esqueleto encontra-se numa posição pouco habitual, de barriga para baixo, e mantém várias partes articuladas, desde zonas do crânio até à extremidade da cauda. O conjunto tem cerca de 2,5 metros de comprimento e deverá ser retirado da arriba num único bloco para preservar a integridade dos vestígios.
Os investigadores admitem que se possa tratar de um exemplar juvenil ou subadulto, uma vez que os anquilossauros do Jurássico eram animais de menor dimensão quando comparados com representantes posteriores do grupo.
A campanha de escavações envolve 22 investigadores da Sociedade de História Natural e estudantes de vários países, incluindo Portugal, Croácia, Itália, Estónia, Rússia, Países Baixos, Bélgica e Alemanha. Os trabalhos de campo vão decorrer até ao final de setembro.
A descoberta reforça a importância paleontológica da região de Torres Vedras, uma área onde já foram identificados diversos vestígios de dinossauros e que continua a revelar novos dados sobre os ecossistemas existentes em Portugal há milhões de anos.