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Ter razão nem sempre é estar certo

Paulo Rego*

A 20 de Junho, escrevi que Sam Hou Fai iria a Lisboa provavelmente só para o ano. Por questões de agenda… e incómodos por resolver. O Chefe do Executivo insistiu no curto prazo e anunciou-a para Setembro; mas é agora óbvio que não é este ano. A “dificuldade de agenda” não esclarece se há mesmo melindre político; ou se simplesmente essa operação não faz sequer sentido antes de se saber o que primeiro-ministro português cá vem ouvir – e dizer. Sam Hou Fai teve ambição; e aí tem razão: não faz sentido ir a Portugal cortar fitas; por isso elencou objetivos importantes, como o de atrair investimento em ciência e tecnologia. Talvez não tenha é percebido bem os bloqueios criados pela crescente agenda nacionalista e securitária, que corporiza pessoal e institucionalmente. Certo é que a parceria tecnológica traz vantagem económica e relacional com Macau/China; mas também tensão a ocidente.

Sam Hou Fai defende Macau; e tem razão estratégica – obviamente desenhada em Pequim – mas expõe-se ao anúncio público de objetivos sensíveis para Lisboa – que tem certamente moeda de troca… a começar pela Comissão Mista, que Macau adia desde o Covid, quiçá porque sente incómodos no horizonte: por um lado, Portugal está mais interessado no investimento chinês do que em trazer capital e ‘know-how’ científico e tecnológico; por outro; enfrenta a pressão Atlântica contra reaproximações a Pequim. Não deixa de ser curioso que Sam Hou Fai tenha percebido que teria de adiar a sua visita a Lisboa quando estava em Pequim, a comemorar os 80 anos da vitória contra o Japão. Cerimónia, essa, que Xi Jinping usou para mostrar ao mundo a força do bloco que defende uma nova ordem mundial, ao lado de Putin e Kim Jong-un. Estando em causa, precisamente, uma ida de Montenegro ao Japão (ver página 9) sinaliza a Tóquio – e ao ocidente – que vem à China mas não alinha nessa parada.

O eixo científico e tecnológico é o que melhor estrutura a diversificação e o crescimento económico. A China sabe-o bem; razão pela qual trocou o modelo de produção massiva a baixo custo pela inovação e valor acrescentado. A cortina da divergência ideológica esconde a realidade que mais assusta o ocidente: a velocidade e a dimensão do ‘upgrade’ tecnológico chinês ilumina a sua ambição de liderar uma nova ordem mundial. A “guerra tecnológica” deve ser vista à luz desse combate; como os direitos humanos sempre foram farol apontado à subida dos custos de produção nos tigres asiáticos.

Sam Hou Fai quer parceria lusitana numa das questões mais fraturantes da diplomacia económica contemporânea: a supremacia tecnológica. A amizade China/Portugal tem em Macau uma rampa de relançamento consistente; contudo, a diplomacia portuguesa terá de contornar a ortodoxia política ocidental; hoje focada na crítica a Pequim – e a sua aliança com a Rússia. Xi Jinping acusa o ocidente de desenterrar a lógica da guerra fria; e aí também tem razão. O que é certo é que o muro existe; e é difícil derrubá-lo.

No campo bilateral, a perda de relevância da comunidade portuguesa em Macau – e dos valores que lhe são caros – também retrai Lisboa; que hoje vê o Chefe do Executivo mais como enviado de Pequim do que líder da região autónoma. Pior ainda será em Madrid, ou Bruxelas, onde nem sequer há comoção histórica. Esse debate é feito em surdina, mas é hoje óbvio em Lisboa o incómodo com o nacionalismo securitário em Macau. Pequim conhece bem o melindre; como sabe que a agenda tecnológica é fraturante.

Se um dia Sam Hou Fai conseguir alinhar Lisboa nisso, incluindo investimento na Grande Baía, será uma excelente notícia. Primeiro, porque Macau precisa muito disso; depois, porque significaria que Portugal teria negociado a moeda que quer em troca; finalmente, porque a China teria percebido qual é o ambiente sociopolítico que permite a Macau, de facto, ser atrativo para o investimento, ‘know-how’, e massa crítica portuguesa. Nesse contexto, Luís Montenegro também não pode cá vir cortar fitas; tem mesmo é de medir se tem razão – e está certo – em abraçar novo impulso estratégico com Pequim. A janela de oportunidade existe e beneficia ambos os lados; mas os problemas estão a meter o pé na porta.

*Diretor Geral do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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