Fui surpreendido com um artigo neste jornal que começa e acaba com o meu nome, contendo várias investidas pessoais, sobre um artigo da BBC de que fui fonte. Não escrevi… Um jornalista deveria conseguir distinguir entre autor e fonte, mensagem e mensageiro.
O artigo da BBC não merece reparo. É dos melhores que li sobre repressão da liberdade de imprensa em Macau. O retrato da sua deterioração vem da voz de jornalistas locais, cuja vida foi lacerada por espirros ditatoriais das autoridades da terra. Causa dor ver os danos colaterais naqueles que se dedicam a uma profissão crucial: o jornalismo. E maior dor, a decadência de uma sociedade que já não é livre.
O artigo de Paulo Rego é uma embrulhada de erros. Um é achar que a liberdade de imprensa é sobre jornalistas. Também é, como a justiça também é sobre advogados. Mas, hoje, é fundamentalmente sobre a sociedade e o poder político: o efeito naquela do exercício ilegítimo do poder. A liberdade de imprensa, sem a qual uma sociedade nem é livre, nem transparente, não tem umbigo, nem dono: é de todos nós, dos que escrevem e dos que lêem.
A minha crítica é ao poder, não ao jornalismo. E os jornalistas não devem tomar-se de dores: a exposição pública é elemento constituinte da sua profissão. Quem se poderia ofender, e não deveria, seriam as autoridades. Ninguém difamou jornalistas. O artigo da BBC enaltece-os. Surpreende, por isso, ver apregoar “fomos difamados” como se tivessem um dedo na conspurcação social que é a censura.
A tendência egocêntrica de algum jornalismo – como de outras profissões – de, vitimizando-se, virarem para si um debate sobre liberdade é erro que os diminui. Como quando se diz “há racismo”: o debate vira e passa a incidir, não sobre o racismo e suas vítimas, mas sobre os “difamados” que decidem ter sido chamados racistas.
Perguntar se a BBC me descobriu é poeira desinteressante. Ter uma agenda (e não agir por convicção) é outro, grosseiramente falso, lugar comum. Aliás, lamentável. A conversa do Porsche e do prato de lentilhas é indigentemente angustiante. É falso que não reconheça a perseverança de muitos jornalistas. Quando, em 2021, a TDM foi censurada, frisei em artigo no “Público”, quer a grandeza dos que saíram, quer a dos que ficaram. É admirável a luta dos que não cedem, saindo, e dos que resistem, ficando. E magoa ver jornalistas de peito algemado por não terem sequer condições para resistir a censura endémica.
A pessoalização dos debates gera searas de más ideias, empobrecendo-as. É triste. E era desnecessário. Já a jornalista da BBC, Abel U, que não conheço, elevou o jornalismo.
A censura tornou-se estruturante em Macau. É narrado por jornalistas, organizações internacionais, associações de jornalistas, comentadores, população. Vi e ouvi inúmeras histórias de censura. Macau é hoje culturalmente pobre, onde até a vivacidade nas redes sociais se perdeu por justificado receio. Só falam livremente os que defendem o “sistema”. Como me disse alguém insuspeito, “Sei que sabe que estamos por cá sob permanente coacção. Daí que seja um bálsamo ler o que se não pode sequer quase só pensar”.
Rego desvirtua a censura ao caracterizá-la como “pressão” que existe em todo o lado, nivelando o mundo por baixo. Errado. Esta censura, diferentemente da mera “pressão”, é imposta por quem exerce poder político, não democrático, dá ordens com a lei de segurança nacional e um cassetete a tiracolo, tem tiques ditatoriais e responde, não perante o povo, mas um regime totalitário.
É um erro detectado desde o fundo da História: não perceber quando diferenças quantitativas passam a qualitativas. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A censura da China, do Portugal de Salazar e, uns degraus acima, de Macau, não é a “pressão” existente no Canadá ou Noruega. São animais diferentes. Esta desfiguração dos conceitos, confundindo um carro com um tanque de guerra só por ambos terem volante, tem um efeito: ajuda a legitimar a censura.
Paulo, o artigo da BBC não é sobre ti. É sobre censura.
NOTA DA DIREÇÃO
Jorge; no teu mundo da censura, os artigos que todas as semanas escrevemos seriam proibidos; e o que tu aqui escreves jamais seria publicado. No jornalismo que enfrenta pressões, convidamos-te a reagir e lidamos com isso; o que não faz o jornalismo que endeusas. O artigo da BBC não se foca na censura, mas nos jornalistas pressionados. O título define uma condição geral, e a reportagem foca-se em quem saiu – ou nunca entrou nas redações. É legítimo ser fonte; impor uma leitura única dos factos é que não. É contigo, porque tu até achas que há mérito em quem parte, mas também em quem resiste. Mas essa realidade não contas à BBC, como aliás não o fazes nos vários artigos que constroem essa perceção do jornalismo sob controlo – quase todos suportados pela tua intervenção.