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Difamam o jornalismo para atacar o Governo

Paulo Rego*

Não sei se o advogado Jorge Meneses descobriu a BBC; ou se a BBC o descobriu. Também não sei se falaram com jornalistas portugueses antes de decretar o “fim da era dourada do jornalismo” em Macau. Connosco não falaram; e não conheço nenhum com quem tenham falado. Estupefacto, leio no site chinês da marca estatal britânica um arraso à Comunicação Social em Macau; construindo a narrativa de que está tudo controlado; e, não havendo Jimmy Lais – ou seja, agentes políticos do contra – o All About Macau é a última coca-cola neste deserto. Primeiro, não é verdade; depois, independência não é isso; é tratar o real como ele é; não é ser instrumento de um irreal desejado. Isso é política. Legítimo? Claro! Como é a informação alinhada. No PLATAFORMA praticamos o jornalismo que escolhemos; não cedemos a uns, nem a outros.

A peça da BBC embrulha os jornalistas de Macau no papel de libelinhas embevecidas com subsídios. É tão ridículo como achar que a BBC arrasa Macau porque não pode fazê-lo em Hong Kong. Há novos condicionalismos? Há. A imprensa chinesa é diferente? É; foi sempre essa a sua cultura editorial. Cantão é diferente do resto da China; Macau, ainda mais… Mas não é Hong Kong, muito menos o ocidente. Não há é o fim de nada; há novas versões do que sempre foi. Faz parte da minha noção de liberdade aceitar que sejam o que são. Gostaria o Governo que fossemos todos iguais? Claro! Como outros queriam que fossemos todos agentes do contra.

Se a decisão fosse matar a diversidade linguística e editorial, estava há muito enterrada – o mercado não a paga

Gostava de saber se a BBC e as suas fontes leem os nossos artigos – incluindo os de opinião – e que me apontassem o propalado fim do jornalismo. Sim, temos um subsídio à impressão de papel – marginal nas contas – e devíamos ter à expansão online, que não temos. Temos sobretudo publicidade institucional; essa sim, crucial. Aliás, política criada pela colónia portuguesa, que permitiu a proliferação da imprensa; e a RAEM mantem. Embora esteja perigosamente a reduzir o bolo das campanhas institucionais, se a decisão fosse matar a diversidade linguística e editorial, estava há muito enterrada – o mercado não a paga. Esse é o elefante na sala que quem nos acusa de subsidiodependência pretende esconder. Se calhar preferiam que fechássemos. Até ver, as autoridades não querem. É preciso reconhecer isso, porque essa é a realidade. Se ela se alterar, cá estaremos a reagir.

Menciono especificamente Meneses, porque me conhece bem, como a muitos outros jornalistas; e por estar a ser, em todo o lado, a carpideira do nosso enterro. Esclareça-me em que garagem está escondido o meu Porsche; se acha que me vendo por um prato de lentilhas; ou se não cabe na sua narrativa reconhecer o jornalismo que muitos de nós fazemos. Se tivéssemos um cagagésimo do que paga o Estado britânico à BBC seria mais fácil. Não temos; mas, nas circunstâncias que temos, fazemos jornalismo. É difícil acreditar? Só para quem não lê – e não quer ver. Toda a gente tem direito à opinião; connosco, podem todos falar, dar entrevistas; serem contraditados, como mandam as regras; e, já agora, explicar que missão é essa que ataca o jornalismo, com factos truncadas como o heroísmo do All About Macau, que não pede subsídio; quando na verdade é-lhe negado por critérios legais. Já agora, esquecem-se que o último governo português; esse sim, dava a uns e não a outros; tendo tentado acabar com a diversidade, num plano que fechava todos os jornais, exceto um, debaixo da Lusa. Quem resistiu a isso, resiste a muita coisa.

Há pressões? Claro que há! Sempre houve; aqui, e em todo o lado. Lidei com elas toda a vida; no Macau antigo, após a transição, e hoje; em Portugal, e em sítios piores. Quando não há pressão não há jornalismo; ou seja, ninguém precisa de pressionar. A independência está na gestão da pressão; não na sua ausência. Há hoje uma cultura política pouco transparente, cada vez menos comunicativa? Há; e cada vez menos gente a falar (ver páginas 8 e 9 do jornal). Mas quem luta contra isso, quem denuncia, quem pressiona as autoridades na defesa da liberdade de expressão e do acesso à informação são os jornalistas de Macau; não é o Jorge, nem a BBC. Se tivessem subsídios, e ainda assim o fizessem, como nós; tirava-lhes o chapéu. Assim, esqueçam… a carapuça não nos cabe.

Devo aos leitores uma declaração de interesse por mencionar especificamente o Meneses: gosto do Jorge, conheço-o de outros carnavais… e respeito a sua inteligência. Não respeito é esse dislate; e essa agenda que, em vez de defender o jornalismo que existe, constrói a narrativa de que já não existe. Aqui não há estúpidos; há jornalistas: 25 anos depois do anúncio da sua morte, claramente precipitado.

* Diretor Geral do PLATAFORMA

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