O impacto da Inteligência Artificial (IA) na educação esteve em debate no Instituto Português do Oriente (IPOR), numa sessão integrada na programação do Festival Literário e Cultural para Pais e Filhos – “Letras & Companhia”, organizado pelo IPOR e pelo Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong. A conversa centrou-se nos desafios que a introdução acelerada da IA levanta para escolas, famílias e educadores, com destaque para a necessidade de literacia crítica e adaptação consciente ao uso destas tecnologias.
“Preparar as novas gerações para viver com esta ferramenta exige pensamento crítico, responsabilidade e espaço para experimentar”, defende a diretora do IPOR, Patrícia Quaresma, que vê na educação o ponto de partida para um uso consciente e construtivo da IA.
Min Yang, investigadora do Instituto Universitário das Nações Unidas em Macau, sublinha que a “IA nasce dentro do seu contexto social e cultural, e é necessário compreender esse contexto para se perceber por que razão a IA funciona de determinada forma”. Alerta ainda para as barreiras linguísticas presentes em muitas ferramentas — dominadas pelo inglês — e para a importância de desenvolver uma “alfabetização digital crítica” que envolva alunos, professores e famílias.
A IA pode ser uma plataforma de cocriação e aprendizagem conjunta. Não se trata de substituir o professor, mas de reinventar a relação com o saber
Min Yang, investigadora do Instituto Universitário das Nações Unidas em Macau
Ainda assim, a investigadora recusa um discurso alarmista. Para Yang, a IA pode representar uma oportunidade para transformar positivamente os processos educativos, desde que usada com intenção pedagógica clara. “A IA pode ser uma plataforma de cocriação e aprendizagem conjunta. Não se trata de substituir o professor, mas de reinventar a relação com o saber e fomentar o pensamento crítico desde cedo.”
Nuno Gomes, psicólogo e professor universitário, chama a atenção para os riscos da dependência tecnológica, especialmente na aprendizagem de línguas. “Se tudo for traduzido automaticamente, deixamos de passar pelo esforço mental necessário, não passamos pelas conexões sinápticas, não trabalhamos a elasticidade mental e se calhar ficamos mais apáticos, e isso tem impacto direto no desenvolvimento cognitivo. Ainda assim, rejeita uma abordagem restritiva: “Os jovens vão usar a IA de qualquer forma. Cabe-nos aprender com eles e mostrar-lhes como tirar o melhor partido das ferramentas.”
Sobre os receios em torno da IA, Gomes considera que a resposta deve ser semelhante à de outras revoluções tecnológicas. “É aceitarmos, educarmo-nos e adaptarmo-nos. Tal como nos anos 70, 80 e 90 se perguntava se deveríamos ter medo da internet, com a IA o processo será muito mais complexo, mas o processo de adaptação humana será semelhante.”
O festival, que termina a 6 de maio, prevê oficinas, conferências, exposições e propostas artísticas centradas na educação, na infância e no papel da tecnologia na construção de novas formas de ensinar e aprender, envolvendo toda a comunidade educativa de Macau.