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“Houve uma desvirtuação do ‘boom’ económico”

O CEO da CESL Ásia, António Trindade, aponta vários obstáculos à diversificação económica de Macau. Um dos maiores é o alto custo energético, em parte responsável pela fuga do consumo para Norte. A empresa tem investido em Portugal, mas diz que aquilo que foi “idealizado” como plataforma sino-lusófona “não existe”. “Tem de haver transição”, nem que seja “por decreto”, afirma, sublinhando que Macau não pode estar dependente de concessões criadas “há 30 ou 40 anos atrás”

Guilherme Rego

– Dirige a CESL Ásia desde 1998, ou seja, há mais de 25 anos que tem contacto com o tecido empresarial local, tendo ainda alguma experiência com uma Administração Portuguesa. Como tem evoluído a economia do ponto de vista das oportunidades para empreendedores?

António Trindade – O empreendedorismo em Macau sempre foi e continua a ser relacionado com o Jogo. Tem pouca expressão económica fora disso. Portanto, estamos a falar de empreendedorismo de karaoke, casas de penhores, massagens, restaurantes, lojas de brindes, etc. Com o desenvolvimento das receitas do Jogo, simplesmente aumentou de escala. O potencial do empreendedorismo em Macau é brutal, se as pessoas o entenderem como um serviço à economia real, sofisticando com soluções mais arrojadas, com valor acrescentado, e que podem servir não só Macau, mas também a economia do Continente, nomeadamente na Grande Baía.

Por outro lado, penso que a plataforma de Macau precisa de uma plataforma associada, que potencie o acesso – através de Portugal ou do Brasil – à Europa, e países emergentes da América do Sul e África, não só de língua portuguesa. É aí que está a grande oportunidade e o grande desafio da diversificação económica local

– Em 2021, numa entrevista ao Ponto Final, disse que o grande projeto de futuro da CESL Ásia era “tentar encontrar soluções em Macau para Macau”. Tem encontrado essas soluções?

A.T. – Na nossa interpretação, nessa altura já começava a haver a perspetiva de que o Governo Central esperava de Macau uma verdadeira contribuição económica como plataforma. Em 2016/2017 investimos em tecnologias renováveis desenvolvidas na Europa e Portugal; em 2019 investimos na agricultura portuguesa. Esta é a plataforma que estamos a desenvolver e em 2021 estava a chamar a atenção para isso. Acontece que a plataforma está num processo híbrido. Não é aquela idealizada pelo Presidente Xi Jnping ou que muitas vezes se falou em Macau. Não existe uma plataforma económica. Existe talvez uma mais social… Ou seja, qual é a real economia que existe entre Portugal e a China? Sabemos que há investimento estrangeiro chinês em Portugal, mas vem através da Europa e dos Estados Unidos. Macau ainda não tem um plano para desenvolver estruturas económicas específicas para a plataforma. Também não conhece bem a economia da Grande Baía e onde é que pode acrescentar valor. A CESL Ásia está a tentar desenvolver essas soluções, através de aplicações tecnológicas, de inteligência artificial, entre outras, que produzem necessidades de mão de obra e aumentam a eficiência de exploração. No princípio da transferência de soberânia, Macau tinha um enorme défice de mão de obra qualificada. Agora não tem esse problema, mas essa mão de obra serve apenas o Turismo e o Jogo, não está enquadrada no desenvolvimento da plataforma.

Temos de olhar para Macau como aquilo que é, e não como uma fantasia

– Foi nesse sentido que resolveram criar uma identidade corporativa para a Macau – Professional Services (MPS)? Qual é o objetivo desta empresa?

A.T. – Precisamente. Mudou o contexto em Macau e há várias coisas interessantes. Quando começou o ‘boom’ do Cotai, ajudámos o nosso cliente a estruturar o projeto: como é que os consultores e os melhores do mundo vinham para cá trabalhar, como é que integravam aquilo que faziam naquele contexto. A ciência é universal, mas depois há aplicação da mesma, relacionada com contextos económicos, seguros, responsabilidades, questões culturais e administrativas, que são diferentes. É o exemplo de uma solução de Macau para Macau. E é o que somos há 500 anos – uma plataforma. Temos de olhar para Macau como aquilo que é, e não como uma fantasia. Não há indústrias na RAEM, mas estamos a produzir serviços. Temos o exemplo de Hong Kong e Singapura, que são bases de serviços para economias externas. Em Hong Kong estabeleceram uma infraestrutura económica onde os bancos locais estão ligados aos bancos de Inglaterra e do Ocidente. Em Macau, à exceção do Banco Nacional Ultramarino (BNU), isso não existe.

– Falamos muito na plataforma sino-lusófona e no papel de Macau na mesma. Em 2019 adquiriram a Monte Pasto, uma das maiores produtoras de bovino na Europa. Os vossos projetos em Portugal têm beneficiado da vossa posição em Macau?

A.T. – O que fizemos tem valor para a plataforma e, através do nosso exemplo, contribuímos para perspetivar aquilo que esta tem de ser. Para nós é importante transferir valor de uma economia e produzir mais-valias noutra. Esse potencial em Macau é enorme, sobretudo pelo que se vê em termos de internacionalização da economia chinesa nas economias emergentes. Hong Kong já está a desenvolver soluções para a plataforma sino-lusófona. Macau ainda está longe, mas também não se pode comparar as capacidades profissionais já estabelecidas. Em Macau não há plataforma, mas a CESL Ásia fez o melhor possível daquilo que existe, não tenho a menor dúvida. Temos capacidade para estar em Portugal, fazer e estruturar investimentos, acrescentar valor e produzir resultados em Macau. Podemos fazer o mesmo na China continental. Agora, estamos muito aquém, porque não há infraestrutura montada, no sentido de desenvolver uma relação económica e social. Ainda para mais com a confusão geopolítica e económica atual, mais sentido faz criar infraestruturas que desbloqueiem relações. Há mais investimento chinês a chegar a Portugal através de Angola do que por Macau, a título de exemplo.

– As feiras internacionais, como a MIECF, contribuem para a plataforma?

A.T. – Têm servido para mostrar o que temos feito. Tem algum impacto do ponto de vista da exposição. O Governo vai-se empenhado nessas feiras, mas deixou de ter o foco que devia ter. Antigamente via-se o que o Governo Central estava a fazer em termos de políticas ambientais, o que estava a desenvolver em termos tecnológicos, etc. Havia um maior encaixe com a realidade do Continente e da região, e era mais fácil associar-nos a essas tecnologias. Hoje, para que é que serve? A MIF, por exemplo, serve para fornecer os casinos e os milhões de visitantes que temos? Tudo bem, mas e fornecer para a Grande Baía? Temos de pensar naquilo que a Grande Baía precisa de nós. Porque as feiras são de Macau, não são de Cantão ou de Hong Kong, e, portanto, temos de ver como produzir valor. Os profissionais de Macau, e membros do Governo, têm décadas de relações com Portugal; estudaram e viveram lá. Mas qual é a relação que temos com a economia da Grande Baía? Por outro lado, também deve haver maior coordenação entre todas as cidades da Grande Baía. Não faz sentido haver promoção de investimento estrangeiro a título individual, devia haver um grande departamento comum de desenvolvimento que defina o que cada cidade deve fazer. Tem de haver eficiência.

– Diz que Macau tem um problema de eficiência energética. Em que sentido?

A.T. – O que digo é que não vai demorar muito tempo até que a eletricidade em Macau seja dez vezes mais cara que a de Zhuhai. Tem de ficar mais barata, porque estas coisas são fáceis de mudar, como aconteceu com as concessões de Jogo. Não faz sentido nenhum a gasolina chegar a Hong Kong e dobrar quando chega a Macau.

Macau ainda não tem um plano para desenvolver estruturas económicas específicas para a plataforma

– Isso está ligado ao fenómeno do Consumo a Norte?

A.T. – Sim, não só a energia, mas tudo aquilo que é muito mais caro em Macau do que no Continente. Hoje já não faz sentido. Ou seja, porque é que os táxis custam o dobro? Falamos na transição energética, na transição ambiental… então tem de haver transição. É a mesma questão que houve com o Jogo, que transitou para um novo modelo, com maior valor. As pessoas hoje felizmente podem ir a Zhuhai e lá gastam, mas continuamos a ter turistas a quererem visitar Macau, porque temos vantagens únicas. As desvantagens é que têm de desaparecer. Houve também um completo desfasamento no crescimento do custo imobiliário, com impacto nos locais, mas acho que não vai ser complicado de resolver. Por decreto, faz-se. Entretanto, o valor do imóvel tem desvalorizado, mas as rendas estão a subir de forma artificial. O mercado está demasiado concentrado e, portanto, não é regulado. Fala-se na questão dos comerciantes da zona Norte, que não têm turistas, mas aquela zona nunca serviu turistas, é residencial e tem de servir os locais. Agora não conseguem porque pagam rendas demasiado altas, e os produtos alimentares são mais caros aqui e não podem importar de Zhuhai. Houve uma desvirtuação do ‘boom’ económico, como o próprio Chefe do Executivo disse: o bem-estar da população em geral não seguiu a riqueza que se foi criando.

– Como olha para a diversificação económica de um ponto de vista holístico? Há insistências nos caminhos errados? É preciso retirar algumas pedras do caminho?

A.T. – O Governo tem de tomar uma decisão. Se quer ter uma economia de desenvolvimento, de plataforma, de serviços, tem de resolver os problemas descritos em cima. Isto vai além da logística e dos serviços financeiros, porque as próprias licenças para mão de obra são um constrangimento brutal. E esse nem é o pior desafio para atrair atividade económica, o pior é o custo de se fazer negócio – muito elevado para uma economia moderna. Estamos a pensar nas concessões como se fizeram há 30 ou 40 anos atrás.

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