Início » Boa sorte ao amigo dos negócios

Boa sorte ao amigo dos negócios

Paulo Rego*

Sam Hou Fai tem um foco muito claro: alterar a estrutura da receita. Leva tempo, são muitas – e profundas – as alterações de que fala; desde o quadro legal aos incentivos fiscais, passando pela aposta offshore para atrair capital, massa crítica e negócios; quer simplificar licenças e registos, reformar a Administração… avisa que mais de 100 diplomas vão ter de mudar – nem a lei dos talentos escapa à revisão. Procura um regime fácil e ágil; um ambiente amigo dos negócios. O jogo dá muito: 80 por cento da receita; mas não chega. O Chefe do Executivo quer é tudo aquilo que haja para além do jogo.

Não é moral política, debate ideológico, nem briefing estratégico. A realidade é simples de ver: acabou a ilusão do Estado superavitário. O risco de um défice orçamental, já este ano, é mais que real. E pior será se a guerra comercial ditar mesmo impacto negativo nos casinos – previsível. O problema é estrutural; nem sequer é a incerteza dos mercados – é a certeza dos números. Mesmo que a receita do jogo atinja 240 mil milhões de patacas – previsão para 2025 – entram nos cofres do Estado 96 mil milhões; fora do jogo, os 20 por cento da ordem pouco passam dos 18 mil milhões. Feitas as contas, nem dá 115 mil milhões de patacas – despesa fixa. E ainda vem aí reforço orçamental: “Não podemos fazer tudo ao mesmo tempo, mas algumas temos de começar já”. A mensagem de Sam Hou Fai é clara: “Há muito para decidir, mas o rumo é este” (ver páginas 9 a 11).

O diagnóstico é transparente: sonhou-se tempo demais com a miríade do crescimento infinito, quando se jogava sete vezes mais que em Las Vegas. O terremoto chegou com a pandemia, mas nem isso abanou esta sociedade rentista. A economia política tem uma regra simples: se a boa governação é não gastar mais do que há; ou se encontram receitas extrajogo, ou acaba o paraíso fiscal para as empresas; e, pior, atacam-se os rendimentos do trabalho. Sam Hou Fai não fala nisso; não é esse o beco que anuncia. Deixa é claro que assim não se aguenta, não pode distribuir o que não tem; precisa é de criar receita. Há a reserva financeira; quiçá, emissão de dívida… não assume uma coisa, nem outra; mas, no curto prazo, não tem outra almofada.

Este ano, e no próximo, além dos apoios sociais que assumiu, centrados na terceira idade, na natalidade, e nas classes mais fragilizadas; quer iniciar investimentos. Logo, o reforço do orçamento deixado por Ho Iat Seng é inevitável, para cumprir mínimos olímpicos e lançar pelo menos estudos e planos para novos projetos, como a anunciada nova zona de cultura, lazer e turismo; um parque tecnológico, a expansão em curso do aeroporto, o terminal de carga na margem oeste do Rio das Pérolas, laboratórios de investigação médica, etc. A privada é chamada a investir, com isenções fiscais e crédito bonificado, mas o Estado lidera o processo. Logo, os 121 mil milhões de patacas inscritos por Ho Iat Seng são curtos; e a receita expectável já nem isso cobria.

Sam Hou Fai não se assusta, foge ao negativismo; fala em ambição e inovação. Certamente assusta uma geração habituada às sobras do jogo, à especulação imobiliária, aos negócios com o Estado… e isso aí, acabou. O novo ciclo está aqui; tem diagnóstico e visão. Macau não queria mudar; mas vai ter de ser. E tem de abrir: Hengqin, Lusofonia, mas também Espanha e resto da Europa; Sudeste Asiático… para onde for; onde houver mercado, capital e know-how.

Há muitas perguntas no ar, decisões por verificar; certamente, muito debate e críticas pelo caminho. Mais importante ainda: resultados pelos quais Sam Hou Fai vai ter de responder.

Certo é que releio este texto, que resume o que o CE diz; e nele reconheço dezenas de coisas que aqui escrevi, vezes sem conta, a pensar que falava para as paredes. Vai precisar de força, coragem… e tempo. Mas merece, até ver, esse cheque em branco. Fui sempre tão crítico da falta de tudo isto… que me cabe agora assumir: sou amigo deste plano. Boa sorte – também precisa.

* Diretor-Geral do PLATAFORMA

Tags:

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website