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“Estímulos orçamentais” como “na pandemia”

Com os mercados em queda acentuada, e a escalada das tensões comerciais entre os EUA e a China, novas incertezas sobre a economia global voltam a confrontar Macau com a sua vulnerabilidade estrutural. A dias das Linhas de Acção Governativa, Henry Lei, professor de Economia, na Universidade de Macau, admite que “o Governo tem opções de política económica bastante limitadas”. Por isso, defende, a resposta tem de passar por “estímulos orçamentais semelhantes aos adotados durante a pandemia”, combinados com a aposta na diversificação económica

Fernando M. Ferreira

– Face às recentes quedas acentuadas nos mercados, que implicações prevê, nos próximos meses, para a estabilidade financeira e a confiança dos investidores em Macau?

Henry Lei – Dado que o setor bancário de Macau não apresenta uma exposição elevada a empréstimos relacionados com o comércio sino-americano, atividades de reexportação, operações de financiamento ao comércio, financiamento de ativos financeiros ou negociações com margem, a recente queda acentuada dos mercados bolsistas pode não ter um impacto direto muito significativo, nomeadamente sobre a estabilidade financeira de Macau. No entanto, é certo que afetará negativamente a confiança dos investidores individuais.

– Como deverá o Governo, nas próximas Linhas de Acção Governativa, responder ao aumento das incertezas económicas globais, particularmente ao risco de uma recessão mundial?

H.L. – Sendo uma economia pequena e aberta, dependente da exportação de serviços turísticos e do jogo, tendo a China como mercado central, e sujeita às incertezas económicas globais e ao risco de recessão enfrentado pela China, o Governo de Macau tem opções de política económica bastante limitadas. Assim, deverá recorrer a estímulos orçamentais semelhantes aos adotados durante a pandemia, como o aumento da despesa pública para iniciar novos projetos de infraestruturas, a introdução de esquemas de subsídios aos juros, a atribuição de subsídios ao consumo ou cheques às famílias; com o objetivo de estabilizar a procura interna, face à forte redução da procura externa resultante da atual turbulência económica.

A diversificação económica é uma das soluções para ajudar Macau a enfrentar a fragilidade económica
provocada pelas incertezas globais

– Na sua perspetiva, até que ponto está a economia de Macau exposta a choques externos como o aumento das tarifas norte-americanas?

H.L. – Uma vez que grande parte dos impactos diretos da guerra comercial será absorvida pelos principais parceiros comerciais dos EUA, como a China, Macau será afetado sobretudo de forma indireta. As incertezas económicas na China tendem a reduzir os rendimentos das famílias e, consequentemente, a confiança e o consumo, o que pode levar a uma menor procura turística e a uma diminuição do gasto dos visitantes, afetando negativamente os setores do turismo e do jogo em Macau. As medidas orçamentais para mitigar esses riscos são semelhantes às adotadas durante o período da COVID-19, experiência que a RAEM infelizmente já conhece.

– Deverá o Governo de Macau rever as suas previsões orçamentais perante os recentes desenvolvimentos internacionais?

H.L. – Acredito que ainda é prematuro rever as previsões de receita fiscal que o Governo da RAEM poderá arrecadar em 2025, considerando a elevada incerteza quanto ao desenvolvimento e à extensão da guerra comercial. No entanto, vários altos responsáveis do Governo da RAEM já expressaram preocupação com a queda nas receitas do jogo e o risco de desaceleração económica.

Os recursos orçamentais devem continuar a ser utilizados para promover ou acelerar o desenvolvimento das quatro novas indústrias

– Que papel podem desempenhar as políticas monetária e orçamental na proteção de Macau face a uma possível recessão económica internacional?

H.L. – Dado o regime cambial fixo e a ausência de independência para alterar as taxas de juro locais, a única via disponível são as medidas de política orçamental. Enquanto economia aberta e fortemente dependente da procura externa, será difícil para Macau escapar aos choques externos.

– De que forma poderá o Governo utilizar as suas reservas financeiras para apoiar setores-chave da economia local em caso de recessão global?

H.L. – Tendo em conta que Macau ainda está em processo de diversificação da sua estrutura produtiva, com a implementação da estratégia “1+4”, os recursos orçamentais devem continuar a ser utilizados para promover ou acelerar o desenvolvimento das quatro novas indústrias: serviços financeiros modernos, grande saúde, inovação e tecnologias, e setores ligados a exposições, cultura e desporto. Paralelamente, deverá ser desenvolvido um plano-mestre para identificar áreas específicas em que Macau se pode posicionar dentro dessas novas indústrias, dado que carece de recursos para uma participação plena em todas.

Assim, o Governo da RAEM poderá assumir um papel mais proativo através de investimento direto, assegurando participação pública em projetos com potencial comprovado e risco controlável.

Além disso, espera-se que os setores do turismo e as PME sejam os mais afetados pelas incertezas e recessão globais. O Governo poderá lançar campanhas promocionais e organizar eventos para atrair turistas da China e do resto do mundo, bem como utilizar as reservas financeiras para conceder subsídios às famílias, de forma a estimular ou estabilizar a procura interna e mitigar os impactos negativos esperados.

Vários altos responsáveis do Governo da RAEM já expressaram preocupação com a queda nas receitas do jogo e o risco de desaceleração económica

– Até que ponto deverá Macau diversificar a sua economia perante a possibilidade de uma volatilidade internacional prolongada; e que setores devem ser prioritários?

H.L. – Considerando que Macau já está a investir nas indústrias “1+4”, e que existem bases estabelecidas nesses setores, por uma questão de coerência e eficiência, é apropriado que o Governo da RAEM mantenha a sua estratégia de promoção das “1+4”, com especial foco na inovação, nas tecnologias, e na Grande Saúde. Estes setores têm potencial para criar motores de crescimento, com procura global inelástica, o que pode reforçar o desempenho económico de Macau.

Contudo, a curto prazo, será difícil reduzir significativamente a dependência em relação ao setor do turismo e do jogo, que continua a ser a principal fonte de receita fiscal da RAEM.

– Que indicadores económicos deve o Governo monitorizar para se preparar para eventuais efeitos de contágio de uma desaceleração económica global?

H.L. – Indicadores locais como a receita bruta do jogo (GGR), número de visitantes, despesa média per capita dos turistas, inflação, desemprego e volume de crédito malparado podem refletir de forma indireta os efeitos da guerra comercial. É igualmente essencial acompanhar os mais recentes desenvolvimentos da guerra comercial, incluindo as novas tarifas que o governo Trump pretende aplicar sobre produtos chineses, bem como as retaliações da China.

– Como poderá Macau equilibrar a sua dependência das receitas do turismo e do jogo com a necessidade de uma maior resiliência económica num contexto internacional mais imprevisível?

H.L. – Na minha opinião, a diversificação económica é uma das soluções para ajudar Macau a enfrentar a fragilidade económica provocada pelas incertezas globais. O desenvolvimento de uma nova indústria com elevada competitividade internacional e procura global inelástica – como a inovação e tecnologias – pode reduzir a dependência de Macau das receitas do turismo e do jogo, permitindo ao território gerar e assegurar rendimentos mesmo em contextos adversos, compensando perdas no setor turístico.

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