No grande tabuleiro geopolítico do século XXI, a disputa entre os Estados Unidos e a China molda aquilo que será a nova ordem mundial. Mas o Velho Continente está longe de ser um mero espectador, tendo nas suas mãos o poder de inclinar a balança para um dos lados. O verdadeiro trunfo europeu reside na sua habilidade em manter a relevância através do equilíbrio entre as duas superpotências, forçando-as a considerá-la um ator incontornável.
No editorial da semana passada, escrevi sobre o impacto de uma ordem mundial dominada por uma única superpotência e os riscos que esse cenário representa para a estabilidade global; que um mundo unipolar, seja sob a liderança dos Estados Unidos ou da China, força o outro a ir ao extremo. Mesmo num cenário em que um dos blocos saia relativamente incólume, acaba-se com a margem de manobra dos vencidos e dos próprios aliados, sem força para contrariar a superpotência. Neste contexto, a Europa não pode permitir a sua relegação a um papel secundário de desequilibrador, sob pena de se tornar irrelevante nas decisões que afetam diretamente o seu futuro – como recentemente sentiu na Ucrânia.
Por natureza e história, o Velho Continente valoriza a diplomacia multilateral e a estabilidade. Durante décadas, consolidou-se como um bastião do direito internacional, da cooperação económica e da integração política. No entanto, a ascensão da China e a resposta cada vez mais protecionista e nacionalista dos Estados Unidos criam um dilema estratégico: alinhar-se plenamente com Washington, reforçando os laços transatlânticos, ou estreitar relações com Pequim, explorando as oportunidades de uma parceria com a segunda maior economia do mundo.
Nenhuma destas opções é isenta de custos. Uma aliança incondicional com os Estados Unidos traduz-se num afastamento do mercado chinês, afetando a competitividade europeia. Por outro lado, uma aproximação excessiva a Pequim fragiliza os laços históricos e de segurança que tem com Washington, colocando em risco a coesão dentro da própria União Europeia. Assim, a melhor estratégia para a Europa passa por transformar a sua posição geopolítica numa ferramenta de negociação, garantindo que ambos os lados a reconhecem como aquilo que é – um parceiro indispensável, independentemente das suas opções.
A Europa tem uma janela de oportunidade para reafirmar-se como um pilar essencial neste equilíbrio de poderes. Mas tem de se tornar numa força que não se dobra perante a polarização; utiliza-a em seu benefício. O sucesso desta estratégia definirá não apenas a relevância europeia, mas também o próprio curso do século XXI.
“Os Estados Unidos podem ferir o PIB chinês entre 15% a 51%, mas só com apoio dos aliados”, diz-nos o antigo ministro português para a Economia, António Costa da Silva, numa entrevista que podem ver nas páginas 5 a 7 desta edição. Mas sem a Europa, “só ferem a China entre 5% a 7% do PIB”. No sentido inverso, “a China consegue ferir 4% a 5% do PIB norte-americano – ela por ela”. O grande desafio, não só para o futuro europeu, como também do mundo, passa pela capacidade de não escolher um dos lados, mas sim os dois.
*Diretor-Executivo do PLATAFORMA