Há dias refletia sobre rótulos geracionais: X (1965/1980); Y (millennials, 1981/ 1996); Z (1996/2010). Sendo “Z” a última letra do alfabeto inglês, o que virá a seguir? A taxa de natalidade cai em grande parte do mundo, mas não é como se a humanidade não se reproduzisse depois da Geração Z.
Se recorrêssemos ao zodíaco chinês para as rotular: Geração Dragão; Tigre; Coelho; Galo… Alguém gostaria de ser da “Geração Serpente”? Na cultura chinesa, é associada à crueldade em expressões como “coração de cobra”, ou “sangue frio de cobra”. No ocidente; por ser furtiva e venenosa, evoca o engano e o perigo – em histórias como o Jardim do Éden; ou Jörmungandr, “grande monstro” da mitologia nórdica. No Texas tive a minha quota-parte de encontros com cascavéis; felizmente, sem ataque – nem morte – em qualquer dos lados. O Rattlesnake Roundup, evento anual organizado em Sweetwater, celebra a cascavel-diamante-ocidental. No início – 1958 – servia para controlo da população de cascavéis; hoje atrai milhares de visitantes com demonstrações de manuseamento, caça, e poços repletos de serpentes que se contorcerem – lembrando a lendária luta de Laocoonte.
O simbolismo da serpente transcende o medo e a crueldade; em todas as culturas representa também misticismo, conhecimento oculto e energia espiritual. No yoga kundalini, a “serpente enrolada” significa, em sânscrito, energia em repouso, adormecida. Quando desperta, potencia boas experiências. No Japão, a cobra branca é sagrada; venerada como protetora. Na China, a serpente liga-se ao dragão, símbolo de poder; e o Ano da Serpente é visto como “Ano do Dragão Júnior”.
O duplo simbolismo – criação e destruição; vida e morte – faz da serpente uma ponte entre forças opostas
O duplo simbolismo – criação e destruição; vida e morte – faz da serpente uma ponte entre forças opostas. No Rattlesnake Roundup aprendi que o veneno da cascavel é também antídoto contra mordidas de cobra; e usado para tratar a hipertensão, doenças vasculares e renais. A associação à medicina remonta há mais de 2.400 anos. O Bastão de Asclépio – deus grego – entrelaçado por uma serpente, é ainda hoje símbolo de medicina e cura. O Antigo Testamento relata como Moisés transformou um poste numa serpente de bronze que curava quem a amava; imagem que a Associação Americana de Medicina incorpora no seu logotipo. Essa ligação da serpente pode este ano encorajar a inovação científica e os cuidados médicos.
Vendo a minha mãe envelhecer – 96 anos – consciencializei-me dos aspetos sociais da assistência médica; e a saúde depende muito do que se come, bebe e inala. A Organização Mundial de Saúde explica, fatores sociais como a estabilidade económica, educação, ambiente, relações… têm geralmente maior impacto que as intervenções médicas; porque influenciam o acesso aos alimentos, ambiente, e cuidados de saúde qualificados. Desafios, esses, que exigem políticas equitativas, intervenção comunitária e responsabilização. Precisamos por isso de nos proteger da “cobra da relva” – que prioriza o lucro em detrimento da responsabilidade; e foge à prestação de contas.
Com a quebra da natalidade, enfrentamos o desafio do envelhecimento e da redução da força de trabalho, pondo em risco os sistemas de segurança social. Mas a serpente é em muitas culturas associada à fertilidade e à vida; como nos mitos africanos, nos rituais das tribos norte-americanas, e na tradição hindu. As novas gerações podem redescubrie a bênção de ter filhos – em vez de os ver como fardo; uma “cobra no sapato”. Imitemos no novo ano a capacidade que a cobra tem de mudar de pele; abraçar a transformação e a renovação. Em todas as culturas há símbolos que nos inspiram a dar novos passos e a assumir grandes empreendimentos. Terapêutico. Fertilidade. Renovação. Afinal, talvez não seja tão má ideia a “Geração Serpente”. Feliz ano transformador!