O peso do jogo no PIB de Macau é hoje 38,3 por cento, contra 51 por cento em 2019. Porém, os números não podem ser dados como uma vitória da diversificação económica. As receitas do jogo desceram consideravelmente com a queda do setor VIP e o mercado de massas, apesar de estar a crescer, dificilmente terá dimensão para colmatar essa perda.
A indústria do turismo (jogo) assumiu a condução do desenvolvimento diversificado de Macau. As concessionárias, por obrigação contratual, estão encarregues de fazer um pouco de tudo. Por um lado, enfraquecem o papel que o Governo deve assumir – e perdem capacidade para o gerir no futuro; por outro, aglomeram atividades que seriam oportunidades para remodelar o tecido empresarial de Macau – com muitas dificuldades de fazer face a estes grandes concorrentes, ou de competir com as regiões vizinhas cada vez mais acessíveis.
Daí a necessidade de rever algumas das soluções já apresentadas. As concessionárias devem estar focadas nas suas atividades e apenas financiar aquelas que o Governo entender. A estrutura e modelo da diversificação, ou mesmo da revitalização urbana, tem de estar a cargo da Administração Pública, pois abdicar dessa responsabilidade significa delegar ‘know-how’ crucial para reverter a crise económica das pequenas e médias empresas.
O modelo 1+4 condena Macau a alicerçar-se em demasia à indústria do turismo. Podemos estar a criar um futuro muito igual ao passado
Seria ótimo sangue fresco, capaz de novas ideias, mas continuamos a ter muitas dificuldades em atrair talentos, quase por auto-sabotagem. Os programas de atração de são bons; poucos dizem o contrário. Foram identificadas as necessidades e criaram-se os modelos nos quais os talentos devem vir para Macau. Mas esbatem num princípio muito simples: ninguém quer vir com contratos de um ano. E para quem defende que é preciso proteger a população local, aconselho a ouvirem Billy Chan, que no último debate da MBtv, na Fundação Rui Cunha, confessou que o departamento de pesquisa médica da MUST tem tido dificuldades na contratação. Neste caso, quem é que está a ganhar? Por outro lado, poucos são suficientemente qualificados para cumprirem os requisitos altamente exigentes dos programas. Há muito que se pode fazer entre o 8 e o 80, e não é necessário que o salto seja maior que o tamanho da perna. Basta que funcione para haver um salto exponencial na estratégia de diversificação.
Sam Hou Fai prometeu estudos para chegar a soluções científicas. Também já avançou com ideias concretas, e parece menos conservador na utilização do erário público. Muito bem. Independentemente do que se encontrar, é preciso assumir a realidade: nem as mais brilhantes ideias contrariam fenómenos impossíveis de reverter. Proprietários não conseguem arrendar lojas, nem mesmo às grandes empresas de retalho, com tradição na cidade. A queda no negócio não permite arriscar num novo investimento. Se estes não conseguem, imagine-se aqueles com menor capacidade. Não há confiança no mercado, e há mais do que razões para isso.
Precisamos de novas indústrias, que estejam menos ligadas ao consumo turístico. Essa é a verdadeira diversificação. Nas indústrias da diversificação, o modelo 1+4 condena Macau a alicerçar-se em demasia à indústria do turismo. Podemos estar a criar um futuro muito igual ao passado – que hoje dá provas de não nos servir.
*Diretor-Executivo do PLATAFORMA