Sam Hou Fai é uma proposta surpreendente. Por um lado, Pequim prova que ouve o protesto local; não faz de conta que está tudo bem nem cede ao patriotismo cego e à falência da autonomia como instrumento de poder eterno. Mas também não devolve as chaves do Palácio às famílias locais.
Assistiu-se nos últimos anos a uma inédita revolta das elites, que nos contatos com Pequim iam engrossando o protesto contra um eventual segundo mandato de Ho Iat Seng. Muitas dúvidas surgiram sobre a rede de proteção que o Chefe do Executivo ainda teria em Pequim; ou a capacidade negocial dos seus opositores. Por fim, a decisão salomónica: o poder político é retirado a quem enfrentou todos os protestos, mas é depositado num alto magistrado – não é devolvido aos lobbies económicos nem à nomenclatura.
Nas poucas pistas lançadas durante a conferência na qual confirmou a sua candidatura, Sam Hou Fai deixa claro os dois maiores erros do último mandato: o crescimento económico desigual que, depois do Covid, uniu grande parte da cidade contra a face da governação; e a aposta nas relações externas, potencial de crescimento que foi sendo descurado, senão mesmo abandonado. No caso de Macau, já se sabe, isso quer sempre dizer que falhou a prioridade há muito definida de relações com os Países de Língua Portuguesa.
Serão mesmo os dois eixos estratégicos pior tratados durante o mandato de Ho Iat Seng. A recuperação económica foi feita à porta fechada, em negociações corporativas com os casinos, menosprezando a verdadeira diversificação e o diálogo com a sociedade civil. Tudo isto sem medir, após a crise pandémica, as circunstâncias em que se encontravam, quer grandes investidores, quer as pequenas e médias empresas.
Sam Hou Fai, sendo uma surpresa, não é propriamente uma novidade. Aliás, é o grande sénior de uma elite de juristas – da qual fazem parte Wong Sio Chak e André Cheong – e que, nascidos no Continente, foram enviados para estudar em Portugal, com ambição de futuro político traçado. Sam Hou Fai representa também a chegada ao poder dessa consciência lusófona, que é suposto ter. Esperemos que tenha feito as catarses que outros não fizeram. Porque, por mais controversa que a tese da plataforma pareça, parece sobretudo cada vez mais incontornável para o futuro de Macau.
*Diretor-Geral do PLATAFORMA