Carlos Siu Lam, professor associado do Centro Pedagógico e Científico nas Áreas do Jogo e Turismo da Universidade Politécnica de Macau, explica que “com o aumento do número de casos relacionados com trocas ilícitas de dinheiro – tais como serviços de crédito não autorizados, remessas transfronteiriças e conflitos entre grupos de clientes dos casinos – é claro que tais atos não são muito diferentes daqueles das operações junket do passado”. Daí a “necessidade premente de suprimir estas atividades”, concluiu Lam, esta semana, em declarações à Asia Gaming Brief.
O tema não é novo, mas tem novos contornos; e o debate sobe de tom. Até porque parece agora óbvio que o feroz ataque aos junkets, com destaque para a detenção de Alvin Chau, líder da Suncity, mais não fez do que tapar o problema com a peneira. O câmbio ilegal e a lavagem de dinheiro continuam a prosperar, aproveitando facilidades nas remessas transfronteiriças e lacunas na Lei, explicava em julho ao PLATAFORMA Martin Purbrick, consultor de segurança em Hong Kong. A pandemia e a “prosperidade comum”, no Continente, levam ainda mais chineses a movimentarem divisas para o estrangeiro, através de redes clandestinas que, anteriormente geridas por junkets, são agora exploradas por “organizações criminosas, cada vez mais sofisticadas, e internacionalizadas”.
Os comentários de Purbrick foram recolhidos na sequência de operações policiais, em larga escala, quer em Macau quer no Continente. Depois de mais de uma centena de suspeitos detidos em janeiro; em junho último, o diretor adjunto do Gabinete de Segurança Pública de Zhuhai anunciou que a polícia da cidade vizinha lançara operações especiais, culminando na detenção de vários suspeitos. Niu Yanjun sublinhou que, entre os detidos, estavam cabecilhas de dois grupos que se dedicavam à troca ilegal de dinheiro junto às Portas do Cerco. Na mesma conferência, o investigador assumiu que a escala deste tipo de grupos criminais “cresceu rapidamente nos últimos anos”.
Afinal, qual é o verdadeiro impacto das alterações legais e do combate policial? Zeng Zhonglu, o professor do Centro Pedagógico e Científico nas Áreas do Jogo e do Turismo da Universidade Politécnica de Macau, disse recentemente ao nosso jornal que o combate às finanças paralelas serve o desenvolvimento “mais saudável da indústria do jogo”. No entanto, prevê que o impacto destas medidas, na receita total do jogo em Macau, seja “apenas marginal”.
O tema é curioso. Com epicentro no Poder Central, que dá instruções muito claras para o combate ao tráfico e à lavagem de capitais, legisladores e agentes da autoridade unem esforços para acabar com uma atividade que parece estar a assustar o Estado. Mas todos sabem que, pela natureza das coisas, sem que esse dinheiro circule, às escondidas, não há jogo como o conhecemos. Se ninguém pode transferir, ou circular, com os milhões que vem jogar, a conclusão não pode ser outra: sempre houve esquemas, e vai continuar a haver; enquanto o Jogo não acabar. Hipótese que, em Pequim, de vez em quando retorna, vista como tentação possível. Até ao dia em que quem manda se lembrar que Macau só sabe mesmo jogar… e tudo volta a mudar, para que fique tudo na mesma.
*Diretor-Geral do PLATAFORMA