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Macau tem o corpo longe do espírito

Paulo Rego*

Hou Jianguo, presidente da Academia Chinesa de Ciências e secretário do Grupo de Liderança do Partido; e Zhu Weidong, subdirector do Gabinete da Comissão Central de Assuntos Financeiros e Económicos, vieram a Macau promover o “Espírito das Duas Sessões”: sintetizaram “sucessos” do último Plano Quinquenal e os objetivos que se seguem. A lista do orgulho nacional – e partidário – é extensa; mas há três focos apontados a Macau: tecnologia, abertura e talentos. Não é novo, faz todo o sentido; mas a RAEM, de corpo e alma nacionalista, rejeita o espírito de uma cidade híbrida, ponte para o mundo, e um futuro que há muito tomou conta da China.

Ouvissem os recados de Pequim e a política de residência seria outra; bem como o perfil do investimento e o contributo para a Grande Baía. Abertura, abertura, abertura… Hou Jianguo e Zhu Weidong repetiram-no várias vezes, especificando graus crescentes de acesso ao mercado chinês e atração do investimento; com recados para Macau: cooperação com Guangdong na modernização tecnológica, atração de talentos de língua portuguesa…

Os poderes Executivo e Legislativo unem-se na birofobia, sem perceber que atrair investimento e know-how cria riqueza e emprego

Estão a falar para a parede, a não ser que o poder mais ordene. A cooperação com Guangdong enfrenta o nó-górdio de Hengqin, onde Cantão quer mandar – e cobrar impostos – obrigando Macau a investir; as elites locais querem lá os lobbies rentistas que tinham cá; o investimento estrangeiro quer regime fiscal e legislação igual à de Macau. Muitos elefantes na sala… se Pequim quer mesmo Hengqin, tem de dar poder real à RAEM; simultaneamente pondo fim à infantilidade local que diz sim a tudo, sem nada cumprir.

E há esse muro gigante, que só cai à machadada: os poderes Executivo e Legislativo unem-se na birofobia, sem perceber que atrair investimento e know-how cria riqueza e emprego. Não é contra os portugueses; é contra os mainlanders, melhor instruídos; com network, mundo, e abertura mental. Por pânico da concorrência, resiste-se a tudo, enquanto se puder. Se fosse preconceito étnico, deixavam ao menos ficar os alunos chineses que cá vêm estudar português – corridos assim que acabam o curso.

Nem tudo o que vem de Pequim é cor-de-rosa; e a falência da autonomia – em parte, por responsabilidade própria – merece ser reponderada; porque ela serve a China e a RAEM, aproximando-a do mundo. Mas de lá vem também o que faz sentido e é preciso; muito do que todo o mundo quer da China – e Macau finge querer. Não é com este espírito que se ilumina o caminho.

*Diretor Geral do PLATAFORMA

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