A decisão do Governo de deixar de divulgar os dados relativos aos suicídios e às tentativas de suicídio inscreve-se numa categoria preocupante de silêncios institucionais que fragilizam a confiança pública e empobrecem o debate social.
Durante uma década, estes dados foram tornados públicos de forma regular, quer pelos Serviços de Saúde, quer pela tutela da Segurança. Havia séries estatísticas, discriminação por género, faixa etária e outros dados. Havia, sobretudo, a assunção implícita de que o suicídio não é apenas um drama individual, mas um fenómeno social que exige conhecimento, prevenção e políticas públicas informadas. Esse compromisso desapareceu sem explicação.
A justificação tácita parece residir numa narrativa oficial que privilegia a ideia de uma “Macau feliz”, harmoniosa e estável, onde certos números são incómodos porque desafiam a imagem construída. Mas governar não é gerir perceções, nem esconder realidades difíceis. Governar é enfrentar os problemas – sobretudo os que não cabem nos slogans.
O suicídio não é apenas um drama individual, mas um fenómeno social que exige conhecimento, prevenção e políticas públicas informadas
A retirada dos dados ocorre depois de 2024 ter registado o número mais elevado de suicídios de sempre em Macau. Noventa mortes não são um detalhe estatístico; são um sinal de alarme. E os dados conhecidos de 2025, ainda que incompletos, mostram que o problema persiste. Optar pelo silêncio neste contexto não reduz o fenómeno – apenas se tenta escondê-lo.
Sem dados, não há diagnóstico. Sem diagnóstico, não há prevenção eficaz. E sem prevenção, o custo humano acumula-se, fora do radar oficial. Ao abdicar da divulgação, o Governo não protege a sociedade; protege-se a si próprio do “incómodo” que os números geram.
É legítimo discutir a forma como estes dados são apresentados, o enquadramento responsável da informação e o risco de efeitos de contágio. Mas transformar o suicídio num tema tabu, num “segredo que não se pode dizer”, é regressar a uma lógica pré-moderna de governação, onde o desconforto se resolve com omissão.
*Editor-chefe do PLATAFORMA