50 anos de relações diplomáticas criaram dois ‘players’ globais

China e Brasil celebram 50 anos de relações diplomáticas. Nesse meio século, o “multilateralismo” e “pragmatismo” no desenvolvimento mútuo permitiram aos dois países passarem a ‘players’ globais, segundo investigadores contactados pelo PLATAFORMA. Olhando mais para o Brasil, evidencia-se a necessidade de olhar para o “superávit comercial significativo com a China”, em prol de “uma relação mais equilibrada”. Fórum Macau é visto como “porta de entrada fundamental” no mercado chinês, mas também de aproximação com a Lusofonia

por Gonçalo Lopes
Nelson Moura

Cumprem-se 50 anos desde o estabelecimento de relações diplomáticas entre a República Popular da China e o Brasil. Uma relação que se tem pautado pela “construção de um multilateralismo efetivo e centrado no Sul Global”, afirma Victoria Almeida-Tang, especialista em Estudos Brasileiros e Sino-Brasileiros na Universidade de Estudos Internacionais de Xangai.

Alexandre Coelho, professor de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, destaca que “os dois países passaram de economias em desenvolvimento para ‘players’ globais de destaque”, muito devido ao fortalecimento do comércio e dos investimentos mútuos. “A China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil, impulsionando o crescimento económico brasileiro por meio da demanda por mercadorias. Em contrapartida, o Brasil oferece um mercado significativo para produtos manufaturados chineses”, explica.

Por outro lado, Coelho destaca a crescente cooperação tecnológica e científica: “Brasil e China têm colaborado em projetos de pesquisa e desenvolvimento em áreas como agricultura, tecnologia espacial e energia renovável, promovendo a transferência de conhecimento e tecnologia. O CBERS [programa de cooperação tecnológica para a produção de uma série de satélites de observação da Terra] é um ótimo exemplo disso.”

Lula virou a página

Com a eleição de Lula, as relações Brasil-China entraram numa nova era. Almeida-Tang destaca a importância da visita presidencial brasileira a Pequim, em abril de 2023, e a assinatura de uma declaração conjunta ampla e histórica. “A comitiva de tamanho histórico mostra a importância que o Presidente Lula dá à parceria com a China.” Durante o mandato de Jair Bolsonaro, as relações com a China passaram por momentos de crise. Agora, retomaram-se as agendas políticas comuns e uma abordagem de maior respeito e amizade. Em março de 2023, Brasil e China anunciaram um acordo para exportar e importar sem a utilização do dólar americano. “A primeira transação comercial bilateral sem o uso do dólar foi realizada em outubro de 2023”, assinala Almeida-Tang. Esse passo, segundo a académica, permitiu reduzir custos e abrir novos mercados.

Outro aspeto destacado por Coelho foi a atuação conjunta do Brasil e China em fóruns multilaterais, como o BRICS e o G20. “Os dois países têm defendido os interesses dos países em desenvolvimento e promovido uma ordem internacional mais justa e equitativa”, afirma.

Almeida-Tang destaca a importância da diplomacia brasileira e chinesa na própria formação dos BRICS, enfatizando o discurso do Presidente Lula durante a posse de Dilma Rousseff na presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). “A criação dos BRICS e do NDB são mecanismos fundamentais para o desenvolvimento internacional, com ênfase no Sul Global”, sublinha.

Com a recente ampliação dos BRICS para incluir Argentina, Arábia Saudita, Egipto, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irão, a organização procura ser mais proativa. “Existem obstáculos, mas também oportunidades”, observa Almeida-Tang, que destaca a desdolarização como um ponto de interesse para o Brasil e a Rússia.

“Brasil e China são aliados que compartilham visões políticas e económicas muito mais semelhantes
do que aquelas compartilhadas pelo Brasil e EUA”

Victoria Almeida-Tang, especialista em Estudos Brasileiros e Sino-Brasileiros na Universidade de Estudos Internacionais de Xangai

A académica lembra que o Presidente Lula “questionou abertamente o uso do dólar no comércio internacional”, contudo, a presença da Rússia nos BRICS, no contexto da guerra da Ucrânia, representa um desafio significativo, particularmente na percepção de Wall Street. “O retorno do NDB ao mercado de capitais aconteceu 16 meses depois do início da guerra, com uma cláusula garantindo que o banco não investiria recursos captados na Rússia.”

A China é também o maior parceiro comercial do Brasil, representando mais de 20 por cento das importações brasileiras e cerca de um terço das exportações. “As relações económicas e comerciais sino-brasileiras representam a área mais desenvolvida das nossas relações bilaterais”, afirma Almeida-Tang. A investigadora vê como positivos os recentes investimentos chineses no setor da eletromobilidade no Brasil, destacando empresas como a BYD.

A empresa de veículos elétricos anunciou recentemente o aumento do seu investimento no Brasil, passando de 3 mil milhões de reais para 5.5 mil milhões de reais. “O Brasil, com seu modal rodoviário maioritário, pode beneficiar enormemente do desenvolvimento da eletromobilidade.”

Ao analisar a relação económica bilateral, Coelho aponta que, apesar de a China ser o maior parceiro comercial do Brasil, há espaço para maior diversificação das exportações brasileiras e investimentos em infraestrutura. “Atualmente, a pauta exportadora brasileira é concentrada em mercadorias. Há oportunidades de aumentar a exportação de produtos de maior valor agregado, como carnes processadas e produtos manufaturados”, diz, referindo-se à necessidade de resolver disparidades nas trocas comerciais. “O Brasil tem um superávit comercial significativo com a China. É importante buscar uma relação mais equilibrada, incentivando a exportação de produtos brasileiros de maior valor agregado.”

Fórum Macau e Língua Portuguesa

O Brasil ainda não tem um delegado permanente no Fórum de Macau, mas Almeida-Tang vê a participação brasileira como crucial. “O Brasil deve-se atentar mais às políticas relacionadas com o universo da língua portuguesa como uma maneira de fortalecer as suas relações com a China, tendo Macau como porta de entrada fundamental”.

“O Brasil tem um superávit comercial significativo com a China. É importante buscar uma relação mais equilibrada, incentivando a exportação de produtos brasileiros de maior valor agregado”
Alexandre Coelho, professor de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo

Sobre o Fórum Macau, Coelho explica que a participação do Brasil tem sido pragmática, procurando aproveitar as oportunidades de cooperação e investimento. “O Governo de Lula retomou uma postura mais engajada no Fórum, fortalecendo os laços com a China e outros países lusófonos, especialmente em áreas como infraestrutura, agronegócio e energias renováveis.”

Coelho enfatizou o enorme potencial da relação Brasil-China, mas destacou a necessidade de superar desafios e explorar uma parceria cada vez mais diversificada e equilibrada, em benefício mútuo dos dois países.

“Brasil e China são aliados que compartilham visões políticas e económicas muito mais semelhantes do que aquelas compartilhadas pelo Brasil e EUA”, afirma Almeida-Tang. A académica destaca o “pragmatismo brasileiro” na relação com a China e com os Estados Unidos, enfatizando a parceria estratégica com a China.

Embora a China seja vista como uma competidora direta do Brasil em África, Almeida-Tang acredita que as presenças dos dois países podem coexistir. “A presença chinesa em África é representativa de uma cooperação de ganhos mútuos”, diz, sublinhando que o Brasil tem um papel diferente e pode resgatar laços históricos comuns com os Países de Língua Portuguesa no continente africano.

Em jeito de conclusão, Almeida-Tang vê um futuro promissor para as relações sino-brasileiras, que diz serem baseadas em “cooperação mútua, respeito e um compromisso com o desenvolvimento sustentável e multilateralismo”.

Pode também interessar

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!