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Deixem-me ao menos sonhar

Paulo Rego*

O Rota das Letras, com meios que não há, e a dimensão de cidade que encolhe, continua a iluminar. Importa apoiar tudo o que faz Macau ser maior. Governo, privada, parceiros da China e da Lusofonia. É esse o maior desafio. O Festival Literário não pode ter apenas o tamanho da persistência do Ricardo Pinto. É preciso muito mais… de todos aqueles que sabem e querem uma cidade possível, feita de todas as cores; e não a que ameaça vingar: preto no branco.

Vi o que pude; quero lavrar o elogio: aos cruzamentos, à diversidade, à diferença… O PLATAFORMA quer apoiar este farol – e outros. Numa cidade cada vez mais chinesa, obviamente. Mas estes eventos, outros que ainda resistem; e os que falta inventar, fazem parte de uma ideia maior em si mesma, que sirva os interesses que a podem firmar: na Grande Baía… e na Lusofonia. Reduzida à teimosia de poucos, a sorte vai acabar.

Cinco notas sentidas: 1) A memória de Henrique Senna Fernandes; mais que um escritor, um português que amou a costela chinesa; que sabia tudo dizer – e tudo queria ouvir. 2) A mensagem de autores chineses, que aqui dizem como é difícil às vezes dizer. 3) Isaac Pereira, reinventando Natália Correia, para com ela poder gritar: Haja quem incomode! Chute na pasmaceira. Apetece… 4) António Caeiro, que recusa a ditadura do pensamento ocidental, quando confunde a liberdade com o manifesto anti-China. Ide mas é aprender a sambar! 5) E uma voz de mulher negra, vestida de branco, e botas punk; a dar-nos um soco no estômago colonial, no racismo e na homofobia. É isso aí… estão a falar de nós, portugueses. É preciso ter fígado, que 2024 está na melhor forma. Os jantares do Festival são regados… não são para meninos sensíveis.

Ouvir o que nos dói dá-nos estômago para dizer o que lava a alma. Chama-se crescer; a arte vale por isso. Grande Luca Argel. Não gostei de tudo; prefiro um texto menos afetado, mais sofisticado e consequente. E daí? A qualidade está lá, a coragem, o manifesto, a energia da dor e o prazer de a cantar. O samba, de facto, é de guerrilha. Cabe em Macau: se não me deixam sambar, deixem-me ao menos sonhar.

Importa ainda esta nota: na primeira fila, representantes do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, e do Gabinete de Ligação. Estava lá a Patrícia Ribeiro, presidente do IPOR – mas é curto para a representação portuguesa. Não estava é lá ninguém do Governo de Macau. Aí… já não vale a pena sonhar. O Palácio não sabe sambar.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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