
Há muito tempo contaram-me uma história, não sei se verdadeira mas não interessa, história é História e nela vale realçar os curiosos fios que se cruzam para compor o tecido espaço-temporal, ligando-se a outros tecidos (ou realidades) aparentemente distintos. Nas três dimensões em que laboramos, as que constituem a matéria, estes fios mostram a importância de conhecer o passado para se entender o presente e projectar o futuro
Um dos principais factores para manter operacional o império Romano eram as vias de comunicação; as que o império deixou nas ilhas Britânicas foram usadas até à revolução industrial e serviram de padrão para as linhas do caminho de ferro. Nas colónias as obras replicavam as bitolas da metrópole: pés, polegadas, galões, jardas, bojardas e toda a espécie de saliências morfológicas de algum rei. Nos Estados Unidos as linhas de comboio tiveram como base as medidas das linhas inglesas. Quando os Space Shuttles foram concebidos, a sua dimensão e local de construção implicaram que fossem transportados para o sítio da montagem em peças de tamanho apropriado para os comboios de mercadorias. Ou seja, a fabricação de Space Shuttles tinha uma logística determinada pelo tamanho das linhas de caminho de ferro que tinham as medidas inglesas, que tinham vindo de Inglaterra, que tinham sido construídas com base nas medidas das estradas romanas, que eram construídas com essas medidas por forma a caberem nelas uma carroça com dois cavalos emparelhados. Em conclusão, o tamanho de dois cus de cavalos lado a lado condicionou a 20 séculos de distância a montagem do veículo tecnologicamente mais avançado que a humanidade já construíra, destinado a viajar até à órbita terrestre…
A realidade é-nos apresentada de forma dramática, sempre visando as emoções que variam conforme o momento. A memória baseia-se muito mais nas impressões sensoriais do que em outra coisa; assim não nos lembramos o que jantámos anteontem mas sempre que escutamos “aquela” canção somos assaltados por vívidas memórias do verão de 2000 e tal porque estávamos apaixonados e essa era a música do momento. Na verdade a nossa memória é extremamente falível de tão manipulável e manipulada. Por isso soa quase a magia a maneira como nos esquecemos de assuntos que pareciam importantes, rapidamente substituídos por outros ainda mais. E porque não fazemos a ligação com o passado damos connosco perdidos no presente como baratas tontas, discutindo uns com os outros qual a direcção a seguir no futuro. Não sabendo de onde viemos desconhecemos para onde vamos, permanecemos presos no labirinto, o que convém a quem por nós sabe para onde nos levará. Tornámo-nos robots que operam conforme nos ligam ou desligam os botões emocionais, somos a versão orgânica do sintético micro-chip. Depois julgamos que as escolhas que fizemos foram nossas… Podemos nunca chegar a saber como nos controlaram e condicionaram as percepções porém a forma mais segura de não perder completamente o fio à meada é mantê-lo na mão, tendo sempre presente o passado, puxando a ponta até desatar o nó. Vejamos um exemplo prático.
Uma coisa que actualmente preocupa os portugueses é o preço dos combustíveis; não será necessário fazer uma viagem à revolução industrial, verifiquemos apenas o que aconteceu ao gasóleo nas últimas duas décadas. Em Abril de 2020 o preço do barril de petróleo (o mais baixo dos últimos 20 anos) custava sensivelmente o mesmo que em Dezembro de 2001. Em 2020 o preço médio do gasóleo foi de 1,28€ por litro; em 2001 foi de 0,68€ (136 escudos) quase metade do preço para o consumidor quando o preço do barril era igual.
Em Junho de 2022 o preço do barril de petróleo estava caro e custava exactamente o mesmo que em Abril de 2011, mas enquanto em 2022 o gasóleo custou 2,08€, em 2011 custava 1,44€.
O preço mais elevado do barril (até hoje, calma que será batido um dia) atingiu-se em Julho de 2008, US$ 132,83; há 4 dias o barril para entregar em Setembro foi vendido a US$ 97,2. Em 2008 o preço médio do gasóleo situou-se em 1,26€. Portanto o preço do gasóleo para o consumidor foi o mesmo quando o barril atingiu o máximo histórico de sempre em 2008 (1,26€), e o mínimo dos últimos 20 anos em 2020 (1,28€). Vamos descontar o valor do ISP, a taxa de câmbio do dólar (a única divisa com que se pode comprá-lo), a inflação, o IVA, etc. O que nos dizem estes números?
Em primeiro lugar que a realidade é mais complexa do que as simplificações que gostamos de fazer para alimentar razões e convicções, despejar a nossa frustração em algo ou alguém. Em segundo lugar talvez a realidade seja uma fabricação, isto é: quem usou o produto há 20 anos está de facto a pagar duas a três vezes mais, contudo somadas todas as parcelas continua a faltar algo, e essa porção invisível (nada nem ninguém surge a dar a cara por ela) converte-se no imposto mais saboroso para quem o cobra, o MDQF, o medo de que falte, criador de vários cancros como a especulação e a inflação, plantando no cérebro a noção de que há mais procura que oferta. As coisas valem em função da importância que lhes atribuímos porque o único valor inato que possuímos é o da vida. Pensem no valor do dinheiro: o que é para nós o dinheiro? Por mais que a ciência prove que o dinheiro é uma ficção, uma doutrina que sobrevive à custa da nossa crença no sistema, a diferença entre tê-lo ou não no bolso resulta na nossa subsistência. O que é o dinheiro para uma minoria verdadeiramente endinheirada? São teclas no computador, enter ou delete. Aquilo que para a esmagadora maioria é absolutamente essencial para a sobrevivência e conforto, para outros é um jogo, duas realidades distintas convivendo no mesmo espaço-tempo. E se conseguíssemos extirpar a herança cultural de um jovem que vai agora adquirir o seu primeiro veículo, não acham que para ele o actual preço do gasóleo será “o” preço do gasóleo? Até pode ter ouvido falar de um reino fantástico onde, reza a lenda, o gasóleo custava 0,68€ por litro mas nunca o sentiu na pele. A água é actualmente a factura menos onerosa de todos os serviços, mas se o fornecimento se interromper depressa perceberemos que era o bem mais precioso de todos. Numa situação à la Mad Max poderia perfeitamente atingir o preço da platina, os velhos reclamariam porque já a tiveram quase de graça, e os novos achariam justo porque no seu tempo sempre foi escassa. Por isto tudo se fala do grande reset, um apagão completo do passado que permitirá à humanidade viver em maior consciência social, consciência ambient… Ahahah, nada disso, o grande reset resultará no controlo total e absoluto da humanidade.
Recentemente na bienal do livro de S.Paulo, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que a melhor saída para a pobreza, a mais duradoura, a mais transformadora, é a cultura. Pois exceptuando a vida, o valor de tudo o resto era-nos inculcado pela cultura, e agora os valores vêm das interacções sociais alimentadas pela informação. Quem dominar a informação, quem gerar e gerir o impacto emocional que cativa a nossa atenção, ligando e desligando os botões da história e do contexto para obter determinada reação, no fundo quem cria a nossa realidade, domina o mundo. Não há aqui nada de transcendente, é simples física: quanto maior a massa de um objecto (aceitam-se todos os significados de “massa”) mais gravidade exerce (aceitam-se todos os significados de “gravidade”), e mais distorce o tecido espaço-temporal (aceitam-se todos os significados de “distorce”) arrastando para a sua órbita todos os objectos com menos massa que o rodeiam. É uma situação inevitável? Pode ser mas no mínimo enquanto somos capturados pela força da gravidade sabemos porque o somos e temos a chance de avisar os outros. Um dos piores pesadelos de muitos, meu é certamente, seria prenderem-me sem culpa formada ou sem que eu entendesse a acusação; conhecendo as leis… pelo menos as da física, dá para perceber.
*os homens que sabiam de menos foram aspirados para o buraco negro e nunca apreenderam o porquê. Paz às suas almas.
*Músico e embaixador do PLATAFORMA