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Eternos adolescentes (revisited)

João MeloJoão Melo

“Como temos visto em Westminster o instinto de rebanho é poderoso, e quando o rebanho se move, move-se” – Boris Johnson, 7 de Julho de 2022.

Parece que não consigo largar o tema sobre o qual escrevi na semana passada, o dos eternos adolescentes, pois esta semana tivemos mais um indecente exemplo. Boris Johnson nasceu em Nova York em 1964 e a primeira ambição que se lhe conhece foi ser “Rei do Mundo”. Eu que nasci na mesma altura só queria ser astronauta mas compreende-se, o berço condiciona escolhas que julgamos livres. Em 1983 torna-se dirigente de um clube só para homens na Universidade de Oxford chamado Bullingdon Club. Os seus membros incentivavam o sexismo, vandalismo, bullying, destruição de restaurantes e a humilhação ritual de gente pobre. Um dos recrutas do clube afirmou anos mais tarde que se divertiam a intimidar a populaça através do seu comportamento: “lembro-me de irmos a descer uma rua de Oxford aos cânticos de buller, buller, partindo garrafas só para acagaçar quem passava. O Boris era uma das maiores bestas do clube, estava disposto a tudo.” Tratavam certo tipo de pessoas com absoluto desdém e referiam-se a elas como plebs. Aos 23 anos casa com a filha de um milionário historiador de arte, e ajudado pelas ligações familiares consegue um estágio no jornal The Times, donde seria despedido no ano seguinte por inventar uma citação para a notícia de capa do jornal. Poderia continuar a referir vários e vergonhosos episódios tanto pessoais como públicos do primeiro ministro do Reino Unido antes de este ser “alguém” mas vou abreviar. Entrou para a política em 2001. Em 2006 protagoniza um documentário da BBC que o site IMDB explica assim: “Boris Johnson tenta descobrir como os antigos romanos conseguiram administrar um império unido e porque a União Europeia parece achar a mesma tarefa tão difícil”. Erudito, hein? 20 anos antes o seu propósito era divertir os companheiros, “betos” arruaceiros, agora descobrira o poder dos meios de comunicação e entretenimento para construir a persona necessária para singrar dentro do partido. Quantos actores da política nacional e internacional fizeram este tirocínio? Pff, assim de repente lembro-me de Reagan, Trump, Sócrates, Santana Lopes, dois Marcelos, Ventura, Zelensky… Constantemente abalado por escândalos e mentiras, o documentário ajudou a limpar a sua imagem de enfant terrible e a convencer os colegas de partido de que seria um candidato credível a qualquer coisa. Resultou, dois anos depois tornou-se Mayor de Londres. Vivi lá quando ele ocupava o cargo, sabia que era do partido conservador mas nunca entendi bem as suas posições; cultivava a reputação de um “moderno conservador” defendendo causas como o casamento gay, imigração e integração na União Europeia. Todos os dias era notícia, quase sempre pela positiva, mostrando a sua face cosmopolita, progressista, preocupada com todos os cidadãos de Londres. Claro que após anos de construção pelos média, vamos supor inocente, deste “boneco”, Boris o simpático conservador rebelde (uma das imagens que os britânicos têm de si próprios e por isso se identificavam com a figura) assumiu a agenda do Brexit. Não é de estranhar a mudança: quando a imagem “fixe” se consolida, um ambicioso oportunista pode ser qualquer coisa, os princípios variam conforme sopra o vento, ninguém se lembra do que comeu ao almoço, quanto mais o que disse um político. Nessa altura a generalidade dos média também se esqueceu, lembrando-se agora…

A lista de disparates do seu governo é extensa mas ainda antes dos recentes escândalos recordo com algum “carinho” a fanfarronice juvenil perante a pandemia, e logo que foi infectado a viragem de 180 graus que o pôs de rabinho entre as pernas, até agradeceu publicamente a um enfermeiro português, o género de plebe que décadas antes seria um potencial humilhado… Dado o historial compreenderão que não foi difícil prever que faria nova inversão de 180 graus mal voltasse a sentir vigor físico; eternos adolescentes não resistem nem aprendem. Nem eles nem nós. Por pior que o Boris fosse, o povo britânico recompensou-o pelo seu comportamento a cada passo do caminho, só caiu porque foi abandonado pelos pares, senão ainda lá estava, podre. Isto diz muito sobre a sociedade como um todo e aplica-se ao povo de qualquer país, e pelos vistos de qualquer época; lamento que assim seja mas o Boris e outros que tais até têm motivos para nos tratarem como tratam: comportamo-nos de facto como um rebanho.

Não é factual, apenas uma impressão: em 2019 escrevi num ensaio que só após a saída de Johnson talvez tivéssemos um vislumbre dos verdadeiros motivos do Brexit. Note-se que eu não fui a favor ou contra a saída do Reino Unido da UE, apenas percebi que da maneira como as narrativas se construíram e as circunstâncias se apresentaram as coisas encaminhavam-se para a única via possível, a saída; e porquê, se nada é inocente e o movimento parecia contrariar a tendência global de controlo centralizado? Isso é que será interessante descobrir em breve. Conhecendo a figura e os antecedentes do Brexit é óbvio que Boris Johnson foi usado para dar a cara pela causa ao mesmo tempo que a usou para projectar as suas ambições pessoais. Destaquei a frase ao início do texto porque embora ele tente atribuir a derrota da qualidade pensante (a sua) às mãos da quantidade não pensante, é paradigmática dos seus conhecimentos de pastorícia, o homem sabe bem do que fala, afinal foi à boleia do movimento do rebanho que ascendeu à posição em que se tornou quase “rei do mundo”. E como nada é absolutamente plano e a preto e branco mas em cores e camadas, a mesma frase contém igualmente a marca do seu desdém pelas massas, tanto do partido como da sociedade, a plebe, diria, bem como a marca da irresponsabilidade ao atribuir a sua queda a um pouco nobre efeito animal. A perversidade e o desplante de se achar vítima não são coisas novas, estiveram presentes, por exemplo, no banco dos réus em Nuremberga. Queixa-se de ser obrigado a deixar o cargo porque o instinto de rebanho é poderoso mas tem perfeita consciência que chegou lá precisamente pelo mesmo motivo, porque o instinto de rebanho é poderoso. Como se não bastasse tudo o que disse e fez durante o mandato sai ainda a manipular o discurso sobre a realidade, qual adolescente patético. Nas potências ocidentais os líderes têm noção de que são dispensáveis mas às vezes enchem-se de si mesmos e perdem-se; Boris está a passar do saber ao sentir na pele, contudo no hard feelings, a missão foi cumprida, obrigado e até sempre, vais ficar bem, agora virá outro para o próximo nível do jogo.

“Ah e tal como é que alguém como o Lula pôde ser presidente, como é que alguém como o Bolsonaro pode ser presidente, como é que alguém como o Trump pôde ser presidente, como é que alguém como o Sócrates pôde ser primeiro-ministro, como é que alguém como o Boris pôde ser primeiro-ministro, como é que alguém como o”… e não saímos disto. Mudam os tempos, mudam os partidos, e continuamos iguais ao que sempre fomos, um rebanho com síndrome de Estocolmo que permite que espertalhões de todo o tipo, com mais ou menos maneiras nos guiem não se sabe para onde.

Epílogo. Quando éramos miúdos eu e o meu irmão encontrámos uma caixa de fósforos no armazém do meu pai. Não estando ninguém presente começámos a riscá-los, queimando as pontinhas de uns jornais que tapavam um cavalete onde um armário fora pintado e a tinta secava. É o fascínio do fogo, pá! Infelizmente a coisa descontrolou-se e em vez de pensarmos numa solução para apagar as labaredas que já escureciam e estalavam a pintura ou tocarmos uma lira e cantarmos ao estilo Nero, desatámos a chorar impotentes perante o espectáculo. Às tantas tivemos uma ideia nada parva: se já não podíamos fazer nada para salvar o armário… porque não aproveitar para queimar o resto dos fósforos? Perdidos por cem, perdidos por mil. Recordo então que as lágrimas nos escorriam pelo rosto enquanto tentávamos justificar o perverso prazer de continuar a riscar fósforos e a atirá-los para o fogo: “só mais um” – dizíamos chorando. É este o espírito que o primeiro-ministro da Grã Bretanha, um homem de 58 anos, exibe: depois de apresentar a demissão continua em funções até ser encontrado um substituto, e pretende aproveitar as magníficas instalações do governo de Sua Majestade para fazer a festa de arromba do seu enésimo casamento. Que s’a lixe, já que está tudo a arder o melhor é aproveitar para queimar os últimos fósforos; perdido por cem, perdido por mil, n’é?

*Músico e embaixador do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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