Suicídios: Procurar respostas em Macau - Plataforma Media

Suicídios: Procurar respostas em Macau

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As autoridades locais referiram que em 2021 registaram um total de 60 suicídios, menos 21 por cento comparativamente a 2020. O PLATAFORMA falou com Paul Pun, presidente da Caritas, e Larry So, comentador, sobre as principais causas, procurando também encontrar respostas para melhorar a condição mental destes indivíduos

Os Serviços de Saúde salientaram que em 2021 foram “registados um total de 60 suicídios em Macau, representando uma redução de 21.1 por cento em comparação com o
ano anterior”.

As autoridades locais revelam também que no quarto trimestre do ano passado registaram-se “22 suicídios, das quais 21 vítimas (95.5 por cento) eram residentes, sendo que não residentes contabilizaram 4,5 por cento”. A Caritas Macau possui um serviço de apoio a pessoas com este tipo de tendências, que inclui uma linha aberta telefónica, havendo também a possibilidade de obter aconselhamento psicológico.

Leia também: Caritas à procura de mais e melhor

“No ano passado, recebemos mais de 12 mil chamadas. Nos primeiros quatro meses deste ano, em termos proporcionais, temos tido um número semelhante ao do ano passado (cerca de quatro mil chamadas)”, explica Paul Pun, secretário-geral da instituição, ao PLATAFORMA.

O mesmo responsável esclarece que apesar de haver mais telefonemas, “isso não significa que existam mais suicídios”. O representante da instituição admite que os telefonemas crescentes revelam a boa publicidade em torno da linha de apoio, acrescentando que “mais pessoas a telefonar é um bom sinal, na minha opinião”. Pun sublinha que, normalmente, “quem usa a linha de apoio da Caritas são cidadãos entre os 40 e 50 anos de idade”.

Paul Pun
Paul Pun

No ano passado, recebemos mais de 12 mil chamadas. Nos primeiros quatro meses deste ano, em termos proporcionais, temos tido um número semelhante 

Paul Pun, secretário-geral da caritas macau

“As pessoas ao telefonarem estão, de certa maneira, a aliviar a sua pressão e a tentar resolver o problema, tentando evitar o suicídio”, salienta.

Já o comentador Larry So refere que a nível individual, cada caso de suicídio tem “razões pessoais, económicas, sociais, emocionais ou outras”. “Neste nível podemos verificar que há um certo tipo de doença mental”, explica.

No entanto, o mesmo revela também que do ponto de vista societal, “quando uma sociedade tiver um objetivo claro é criada uma certa solidariedade entre as pessoas”. “Por exemplo, quando começou a pandemia, as pessoas uniram-se em torno de um objetivo que era prevenir a propagação do vírus”, especifica.

O mesmo responsável sublinha este exemplo porque considera que a existência de um objetivo coletivo “ajuda a resolver vários problemas sociais, fortalecendo as normas sociais”. Larry So destaca ainda que mesmo quando há certas pessoas que divergem desta finalidade social, “como é o caso das pessoas que optam pelo suicídio ou até mesmo pela criminalidade”, os respetivos indicadores “acabam por descer”.

Isolamento forçado


Por sua vez, um académico local, que optou pelo anonimato, salienta ao PLATAFORMA que a queda de 21 por cento no número de suicídios “deve-se, talvez, ao facto da sociedade aceitar esta situação: da economia piorar e do desemprego aumentar”.

Já Paul Pun argumenta que os 21 por cento é devido “à prevenção normal da sociedade, do Governo e do sistema social em si, bem como esforços educativos, entre outros que promoveram a nossa linha aberta”. “Queremos também chegar aos mais novos através das redes sociais e maneiras mais modernas, de forma a evitar mais casos”, explica.

O académico versado em questões sociais revela que a população há três anos “podia ir a qualquer lado”, e que hoje em dia “isso já é mais difícil”.

Larry So
Larry So

Quando uma sociedade tiver um objetivo claro é criada uma certa solidariedade entre as pessoas

Larry So, comentador

“O facto de estarmos fechados, impede-nos de expressar emoções. Viajar não é só gastar dinheiro, mas expressar emoções de contentamento e alegria. O facto de não se poder viajar pode ser encarado como uma pressão adicional”, esclarece.

Já Larry So admite que, agora, a população já “está mais cansada e farta de estar fechada”. “Isto pode vir a deteriorar estas normas sociais e fazer aumentar os divergentes desta união social”, esclarece.

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Devido à situação económica, a sociedade tornou-se “mais solta” do ponto de vista dos objetivos comuns e das normas societais, algo que pode “causar um aumento destes casos que divergem”, sublinha o comentador.

Emprego ET. AL.


Apesar da falta de emprego, Paul Pun revela que isso “não quer necessariamente dizer que haja mais suicídios”.

“Não é só um fator. As pessoas que se suicidam podem ter algum tipo de doença, problemas mentais e depressão. Se tivermos uma sociedade mais acolhedora, o desemprego não será um dos principais fatores a levar ao suicídio”, explica.

O desemprego pode levar a que as pessoas se “sintam mais desesperadas”, refere Larry So. “Talvez um ou dois casos podem optar pelo suicídio, mas grande parte não. Não há um único fator isolado que altere a taxa de suicídio”, assegura.

Já o perito em matéria de questões sociais argumenta que a questão da saúde mental é “muito importante”. “Nos últimos dois anos, não temos visto grandes demonstrações ou petições, muito de vido à prevenção da Covid-19. Quando se podia andar livremente pelas ruas, os cidadãos ainda questionavam o Governo e libertavam algumas das suas frustrações. Agora não o fazem e isso leva a que se isolem mais”, especifica.

Por outro lado, sustenta que uma das razões para possíveis suicídios pode estar centrada na perda do emprego, visto que na sociedade chinesa a manutenção do posto de trabalho “é visto como algo muito importante”. “A nossa segurança social não é muito compreensiva neste sentido e se o pai da família perder o emprego, a família enfrentará situações complicadas. Algumas destas pessoas, suicidam-se por não terem previsões de sucesso no futuro”.

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Por sua vez, o responsável pela Caritas contrasta referindo que a rede de segurança social “é forte”, mas que este ano, e com o desemprego a aumentar, “isto poderá levar a um aumento de suicídios”. Nos primeiros meses deste ano, a instituição tem recebido “caso atrás de caso”. Contudo, Pun alerta que se “não tivermos um sistema de apoio social mais forte, as pessoas caem numa espiral solitária e de isolamento”.

Paul Pun sublinha que o facto de vários trabalhadores terem um turno de noite e de dia, as rendas estarem a um preço alto, e a compra de um apartamento ser uma decisão custosa para qualquer família justifica que parte dos residentes opte por se suicidar.

“Há situações ocasionais onde os cidadãos se suicidam devido ao jogo. No entanto, este não tem sido o caso, por que muitos têm problemas e doenças mentais. Mesmo as pessoas com mais de 65 anos. Em Macau, mesmo com um forte sistema de apoio para esta parte da população, há muitos que se suicidam”, esclarece o secretário-geral da Caritas.

Larry So sublinha que do ponto de vista individual, cada um “terá de procurar falar com alguém”. “As relações interpessoais é algo que traz sucesso e é útil para resolver este tipo de problemas e até prevenir. É preciso tempo para promover este tipo de relação”, concretiza.

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