Caritas à procura de mais e melhor

Caritas à procura de mais e melhor

A Caritas foi obrigada a fechar a clínica social na cidade por falta de médicos. Paul Pun explica que se trata de uma situação temporária até encontrar novos profissionais. Ao PLATAFORMA, o secretário-geral diz que o espaço vai ser transferido para as ilhas, terá mais recursos e pelo menos o dobro dos médicos. O objetivo é garantir que a saúde chega a todos, mesmo aos que não a podem pagar.

Está ainda por decidir onde exatamente, mas é certo que será maior, terá mais equipamentos e cerca de seis médicos. A clínica da Caritas vai deixar a zona da San Ma Lou para melhorar as condições e corresponder às necessidades. A atual, apesar de central, é pequena, sofria com os cheiros dos espaços contíguos e a humidade. “Não ajudámos muita gente porque a capacidade de resposta fica aquém. Os não-residentes acabam por preferir pagar, mas ir a um sítio que lhes oferece todo o tipo de serviços do que vir aqui. A nossa clínica é muito básica. Não temos equipamentos para ecografias, por exemplo, apoio psicológico, e portanto nunca foi uma primeira opção. Preferem sacrificar-se e pagar, do que correrem riscos”, explica o secretário-geral da Caritas.

A clínica solidária abriu em outubro de 2018, com consultas de 100 patacas e direcionada aos não-residentes. No consultório, os dois médicos em funções apenas podiam resolver pequenas maleitas como febres e tensão alta, exemplifica Paul Pun, que acrescenta que acabou por se insistir sobretudo na prevenção.

Conhecedor da realidade dos mais carenciados – a Caritas Macau recebeu mais de 1.500 pedidos de apoio sobre problemas psicológicos de trabalhadores não-residentes estrangeiros desde setembro – percebeu que era preciso mais.

Os equipamentos já estão assegurados, faltam os médicos e o local, escolhido a dedo para compatibilizar necessidades e renda acessível. “A distância não será um problema. Uma pessoa com poucos meios vai onde tiver de ir, mesmo que seja longe, quando precisa e sabe que não vai pagar. Preferimos ter melhores condições e corresponder, do que estar no centro e estarmos limitados”, justifica.

Outras limitações ditaram o encerramento, ainda que temporário, da clínica atual, suspensa a 8 de março por falta de médicos. As regras para a licença obrigam a que haja pelo menos dois, e um acabou por abandonar o emprego por ter encontrado outro quando a clínica foi obrigada a fechar cerca de três meses no início da pandemia. “Agora só temos um e assim não podemos operar. Estávamos a pagar a renda, mas fechados”, refere o responsável.

Sobre o impacto que o encerramento pode ter, sobretudo no caso dos não-residentes – obrigados a pagar taxas mesmo no serviço público de saúde, Paul Pun afirma não estar muito preocupado por saber que há outras clínicas e médicos que os ajudam pro-bono. “Há muitos médicos generosos, mas não o dizem. Também sei que no hospital continuam a tratá-los, mesmo sabendo que não podem pagar logo”, diz.

Apesar de reconhecer a solidariedade, ressalva que não é solução. Exemplo disso é um dos casos que tem em mãos e que precisa de tratamento renal. Pediu ajuda à Caritas por ser incapaz de suportar os custos e a instituição conseguiu fundos, por meio da doação de um privado, para oito tratamentos. “Mas, e depois?”, lança.

A este, acrescenta o testemunho de outro não-residente que lhe pediu apoio por ser incapaz de comportar as despesas médicas de uma ida ao hospital. “Não tinha dinheiro para pagar as taxas e está em dívida. Pediu dinheiro aos amigos para pagar a conta, que vai subindo, tendo em conta os juros. Inicialmente, a dívida eram dez mil patacas, agora são 12 mil. Isto para nós não é muito, mas para eles sim. Esta pessoa está desempregada, está a pagar das poupanças”, realça.

Os migrantes, como têm bluecard, pagam os serviços médicos ao preço normal, mas se não lhes renovarem o contrato e estiverem dependentes da extensão do visto de turista, o valor a pagar pelos tratamentos médicos duplica.

Matar a fome

Além da saúde, a Caritas também tem sido fundamental no apoio à subsistência dos não-residentes. Sempre foi, mas no último ano a precariedade do grupo mais vulnerável da sociedade agravou-se. A pandemia e consequente situação económica deixou muitos desempregados, sem perspetivas e presos na região devido à falta de voos e restrições nas fronteiras. Só na terceira ronda de apoios do Governo, anunciada este mês e em resposta ao contexto difícil de retoma económica, os não-residentes foram incluídos. “Há cada vez mais a precisar de apoio porque são cada vez mais os que estão numa situação precária. A maioria não tem emprego e está a usar as parcas poupanças que tem para sobreviver ou a pedir empréstimos aos colegas de casa e amigos. E o problema é que está a demorar demasiado tempo até que consigam partir. Estão muitos meses desempregados”, alerta.

Desde o início do surto que a instituição está a distribuir comida e cheques pelos trabalhadores migrantes no território. O programa “Partilha de Alimentos” – “Food Sharing”, em inglês – foi criado a pensar nos não-residentes que perderam o emprego, que estão a sentir sérios problemas para pagar a renda, e que estão a esgotar ou já gastaram todas as pequenas poupanças.

Lançado em setembro do ano passado, inclui a recolha e distribuição de alimentos e outros produtos, como de higiene, aos que mais precisam. “Este programa é só para não-residentes. Temos o Banco Alimentar que já é direcionado para os locais. Além disso, os residentes têm vários apoios do Governo. Não passam pelas mesmas dificuldades”, frisa Pun. “Para se ter uma ideia, com as ajudas do Governo, um residente numa situação idêntica fica com um montante diário para comida de pelo menos 40 patacas, as nossas ajudas aos migrantes nem chegam a equivaler a 20”.

Funcionários da Caritas e voluntários procuram angariar todas as ajudas. Além das doações – de bens e monetárias -, também contam com a cooperação de dois supermercados que oferecem os alimentos quase no final do prazo, padarias que disponibilizam o pão que sobrou e outras entidades, como escolas, que organizam iniciativas de angariação. “Normalmente não dizemos quantas pessoas ajudamos, mas o drama é público por isso posso fazê-lo. Ajudamos cerca de duas mil regularmente”, esclarece.

O número está longe do total que necessita de apoio. Paul Pun realça que há pelo menos cinco mil em carência. “Só vietnamitas já são cerca de dois mil. Mesmo os não-residentes que têm emprego, pedem-nos auxílio”, sublinha.

O secretário-geral da Caritas reconhece que o apoio tem aumentado, depois dos três meses iniciais complicados. “As pessoas não percebiam porque estávamos a ajudar os não-residentes quando havia locais com necessidades também. Depois mudou. Acho que ficaram mais sensíveis à situação deles, por estarem aqui presos, sem voos”, afirma.

Toda gente está a sofrer. A diferença é que os locais têm ajuda do Governo e de várias entidades. Temos de pensar naqueles que estão completamente desprotegidos e sozinhos. Não são muitos os residentes com carências, por isso não são uma preocupação, por enquanto”, assinala.

Quanto à resposta a um problema sem fim à vista, o secretário-geral da Caritas deixa o apelo. “A forma mais direta de ajudar é apoiar quem se tem por perto e sabemos que precisa. Isto é o mais básico e eficaz. Depois, o Governo devia criar um sistema de segurança social que protegesse os não-residentes desempregados, excecionalmente tendo em conta o contexto igualmente excecional que a pandemia acabou por provocar”, defende.

Até ao final de dezembro de 2020, havia 177.663 trabalhadores não-residentes titulares de autorização de permanência na qualidade de trabalhador, menos 18.875 relativamente ao final de dezembro de 2019. A maioria é do Continente, seguindo-se as comunidades de filipinos e de vietnamitas.

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