
Se por vezes o mundo do espectáculo antecipa cenários, quase sempre reflecte aquele em que vivemos.
Na última cerimónia dos Oscares Chris Rock lançou uma piada a Jada Smith, conhecida por ser a mulher de Will Smith e por uma condição que causa perda de cabelo. Na cultura popular anglo-saxónica os apresentadores de espectáculos costumam dar alfinetadas às figuras presentes, inclusivamente presidentes fazem piadas ou levam com elas, considerando-se um sinal de inteligência a capacidade de encaixe. Aliás ao alvo da piada não resta alternativa senão rir-se com os outros, ninguém quer fazer figura de parvo demostrando melindre. Há uma relação de poder mutuamente aceite entre o detentor do microfone e a plateia, no entanto ela desfaz-se se as piadas forem desprovidas de graça, aí o apresentador pode ver-se nu e só perante a multidão. Convém ter noção do alcance da alfinetada, sendo pouco subtil ou atingindo um nervo demasiado sensível existe a hipótese de uma reacção igualmente pouco subtil. Mais que ninguém os presentes na sala conhecem este código, afinal pertencem àquela área corporativa e já estiveram no lugar do apresentador. Antes de apontar a Jada e consciente de que a próxima seria forte, Rock disse primeiro que a adorava, para depois atirar que GI Jane também esperava que o marido blá blá blá, uma intrincada teia de ligações da piada anterior ao papel para o qual Smith estava nomeado. Embora rindo toda a gente percebeu a falta de graça, até Chris Rock se viu obrigado a defendê-la comentando “esta foi boa”; quando é boa não precisa de confirmação. Típica decorrência do vazio de ideias a piada construiu-se ao contrário, foca-se no impacto à espera que tenha graça, e não na graça à espera que tenha impacto: GI Jane foi um filme em que a protagonista rapou o cabelo, estão a ver, duas carecas? Will Smith riu-se como todos se riem de tudo, depois notou que a mulher revirava os olhos de desagrado e dirigiu-se ao palco para dar uma bofetada em Rock. Este tentou manter a compostura enquanto Smith de volta ao lugar vociferava palavrões para Rock parar de falar da sua mulher.
Apresentei vários programas de entretenimento gravados e ao vivo nos canais generalistas portugueses. Pese o facto de o apresentador transmitir o seu cunho pessoal ele é somente a face visível de um corpo que fica na sombra, o local onde os restantes órgãos trabalham para o todo; a cara até possui um chip pensador mas não é realmente o cérebro do organismo. Alguns programas tinham um guião que lia num teleponto e quando eram gravados geralmente produziam-se dois seguidos para rentabilizar custos. Em Portugal trabalha-se em cima do joelho, por vezes os argumentistas ainda ultimavam os textos no momento em que eu fazia a pré leitura do guião, praticamente em simultâneo com os ensaios de câmaras, uma azáfama colectiva. Sentia-me um leitor de cassetes reproduzindo um texto que não pensei e às vezes me desconfortava porque inesperadamente a meio de um discurso, que aos olhos do público caracteriza a essência da pessoa que o profere, dava conta de nuances, frases ou ideias com as quais discordava totalmente e não me apercebera antes. Porém esforçava-me por assumir a persona, logo vai-se formando um conceito sobre um apresentador quando na verdade o cérebro está noutro lado, não ali na figura que se vê. Em suma, apresentar baseado num guião é ser actor e com o tempo compreendi que nestas condições isto não é para mim. Há duas maneiras de resolver o problema: ou o apresentador se rodeia de uma equipa de escritores com a qual se identifica, os casos de muitos talk-shows, de Ricardo Araújo Pereira, e nos bons velhos tempos de Herman José, ou escreve ele próprio. A última opção não é propriamente viável em grandes produções dado consumir bastante energia, e para manter o padrão cada área deverá estar entregue a quem se lhe dedica em pleno. Eis porque o humorista Jerry Seinfeld “matou” o seu show no pico da popularidade, recusando uma estratosférica proposta financeira para fazer mais uma temporada; há várias que o amigo e cúmplice Larry David deixara de escrever, Seinfeld passara a fazê-lo com outros, deixando de ter vida própria, absorvido 24 horas por dia em diversas funções. Abdicou de continuar o show de maior sucesso dos anos 90 voltando a fazer stand up em clubes, uma opção absurda na perspectiva do grande público.
Nunca fui alguém ao nível da capacidade e estatuto dos exemplos mencionados, trabalhava com o que havia. Contudo a minha inflexibilidade para papaguear certas coisas levou-me em determinadas alturas a interromper as gravações para afinar agulhas, tentando explicar de modo simpático aos guionistas que não era uma questão de ego (também para não ferir os deles) e sim de completo desajuste com a minha pessoa, escudando-me na desculpa “lembrem-se que não sou actor”, não sou capaz de transmitir credibilidade a tudo. Tinha liberdade para enfiar “buchas” e à medida que ganhei um certa influência nas estruturas onde trabalhei adquiri também a manha de passar ao lado de guiões demasiado desfocados de mim. Mesmo não sendo comediante sempre produzi o meu próprio material para espectáculos, entendo os problemas dos que se sentem mais humoristas que actores. Isto é, teria imenso gosto em dar a cara por textos de humor com os quais me identificasse, mas sendo medíocres ou assim-assim prefiro ficar-me pelos meus; assumir a deficiente qualidade alheia é duplamente penalizador, arrasta consigo uma enorme depressão. Como alegrar uma plateia se achamos triste o que vamos dizer? Recorrendo a malabarismos.
Os Oscares são uma cerimónia com um guião escrito por vários argumentistas. Durante a passada semana soube que a infame piada saiu da cabeça de um tal Kevin T. Porter, o próprio admitiu no Twitter “hey eu escrevi aquela piada parva. Nós sabemos que pisamos o risco mas o propósito da comédia é provocar e fazer as pessoas pensar; estou orgulhoso porque fizemos ambas as coisas”. De facto deu matéria para escrita, parabéns… Nem precisava de confirmar que Chris Rock não seria o autor da piada, viu-se o malabarismo antes de a lançar. Depois de pesquisar o Kevin Porter na net verifiquei ser mais conhecido por polémicas do que por algo engraçado; igualmente li declarações de humoristas e figuras ligadas ao espectáculo, uns dissertando sobre a liberdade de expressão, outros sobre a justeza de um cavalheiro defender a honra da sua dama. O que me parece importante neste episódio é ele reflectir o estado actual da sociedade: a exacerbação emocional em detrimento do espírito crítico, a profunda clivagem entre o idiota “politicamente correcto” e a idiota liberdade de proferir alarvidades. Onde estão os limites? Não sei, em todo o caso prefiro que ninguém os controle. Idealmente os limites deviriam da formação moral e intelectual do indivíduo; é pois pela falta de educação que não há distância das emoções, e o mundo está a ferro e fogo. Não estamos a falar de arte, filosofia, política, e sim de humor, certo? Pois bem, no meio de tudo isto “cadê” a graça? Não deveria ser ela a essência do humor? O humor tem o incrível poder de unir as pessoas, por isso tem dado lugar à provocação mas pode nem ser intencional já que a provocação frequentemente esconde mediocridade. Ser bom dá trabalho, ser mau é fácil, portanto haverá mais maus que bons; como todos têm palco, sem educação que nos permita distinguir o trigo do joio, relevar o importante e desdenhar o supérfluo, ficamos reféns das emoções conforme nos atinjam os sentimentos, as convicções, seja nas que nos ferem ou nas que ferem os outros. Não sou contra a provocação, há-a com imensa piada, por exemplo o programa sobre automóveis Top Gear que durante muito tempo considerei o produto de entretenimento mais engraçado da TV vivia quase exclusivamente de provocações. Nesta linha inúmeras comédias do passado seriam impensáveis hoje, as produções gastariam rios de dinheiro a defenderem-se de processos interpostos por pessoas ou sectores ofendidos.
Ricky Gervais é um brilhante humorista e chegou a apresentar anteriores cerimónias dos Oscares. Talvez seja demasiado incorrecto para o voltar a fazer. Porquê? Porque é perigoso: para lá de ser inteligente e livre, tem graça, características que ofendem quem é burro e escravo, a maioria. Nem o acho provocador ou o contrário, só me faz rir e pensar. Instado a responder à atitude de Smith afirmou “eu não teria feito uma piada sobre o cabelo da mulher dele, teria feito uma piada sobre o namorado dela”. Recorde-se que Will e Jada deram que falar depois de um tal de August Alsina ter referido estar num relacionamento com Jada, que mais tarde confirmou o sucedido. E foram várias as ocasiões em que o casal Smith assumiu viver numa relação aberta. Com tanta matéria-prima disponível o argumentista dos Oscares apenas foi capaz de “provocar, fazer as pessoas pensar” por causa do cabelo da mulher, e ainda tem orgulho nisso… A Academia que alardeia posições públicas “correctas” e receia ferir susceptibilidades acaba embrulhada numa amálgama de equívocos. Will Smith que está a par das normas de funcionamento do show biz deixou-se tomar pelo descontrolo emocional, expondo-se ao ridículo, e desde sábado ao “degredo”, demitindo-se da Academia. Tudo isto espelha o estado de mediocridade a que chegámos.
*Músico e embaixador do PLATAFORMA