Conto de natal - Giuseppe e Donaldito - Plataforma Media

Conto de natal – Giuseppe e Donaldito

Era uma vez um ventríloquo chamado Giuseppe que actuava em circos, festas de aniversário e natais dos hospitais, alegrando a pequenada ao lado do seu parceiro boneco, o pato Donaldito, copiado do original mas com ligeiras alterações para não pagar direitos à Disney.

Tantos anos Giuseppe utilizou a mão para manipular o boneco que desenvolveu uma extensa rede de vasos sanguíneos, dotando Donaldito de vida. Embora Giuseppe fosse mais ou menos conhecido no meio dos agentes das festas de verão, era Donaldito pela sua respingada irreverência que se salientava como cabeça de cartaz, e ia progressivamente contestando os textos que Giuseppe escrevia para os espectáculos do duo. Verdade seja dita, as punch lines estavam reservadas para o pato mas este insurgia-se contra a qualidade das mesmas até que começou ele a escrevê-las. A sua influência no seio da parelha crescia e Giuseppe tornou-se desinteressado, desleixado, chegando em alguns espectáculos a ser o pato a fazer de ventríloquo do humano. Frequentemente Donaldito arrastava Giuseppe de barba por fazer e evidentes sinais de embriaguez para cima do palco, realizando o show praticamente sozinho. Virou hábito escutarem-se rixas dentro do camarim acompanhadas de silvos de cadeiras a voar, vidros partidos e grasnados horríveis. Uma vez Donaldito apareceu de óculos escuros e há quem afirme que seria para ocultar um olho negro. Um palhaço que se cruzou em espectáculos com o duo garantiu a uma revista que Giuseppe encharcado em licor Beirão lhe confidenciou que “um dia o gajo vai aparecer cozinhado”, a seguir riu-se malevolamente com a ideia, soltando alto e bom som para quem o quis ouvir “olha que bonito: Donaldito frito”. Talvez Giuseppe nunca tenha levado o intento avante porque teria de fritar também a sua mão, dedos incluídos. Nessa altura o ambiente parecia a cozinha do Chef Ramsey, de cortar à faca, e após as discussões se centrarem sistematicamente nos mesmos argumentos, o humano alegando que o pato só era alguém por sua causa, e este questionando a utilidade de um apêndice tão inútil como o Giuseppe, a insatisfação entre os parceiros redundou num divórcio. 

Andaram em advogados todavia a coisa nunca correu bem porque as duas partes litigantes encontravam-se sempre presentes nas consultas que deveriam ser privadas, cada um a par da estratégia do outro. Com a metade do dinheiro que ganhava nos espectáculos, o pato, o mais poupado pois nem sequer comia, juntou uma pequena fortuna. Munido do apoio jurídico da Associação para a Defesa dos Animais e a troco de uma pequena maquia mais as suas acções do BPP conseguiu convencer Giuseppe a marcar uma operação para a mútua separação. Consistia numa intervenção delicada, similar à separação de gémeos siameses, requerendo imensos cuidados dada a imensidão de veias, artérias e músculos partilhados pelos dois. Correu bem, graças a Deus. Donaldito aproveitou a ocasião para proceder a uma lipo-aspiração à barriga e uma plástica ao bico. Passou a calçar o 42 já que devido às pernitas pendentes e aos pezinhos ridículos com que Giuseppe o criara estava sempre a cair de bruços. Cortou a guedelha à Beatle que o dono julgava “jovem”, largou os trapos que este lhe vestia e começou a usar fatinhos Hugo Boss. Depois da bem sucedida desvinculação e do re-styling geral, Donaldito dedicou-se a uma carreira a solo actuando em espectáculos de stand-up comedy sentado. O BPP faliu, o Rendeiro fugiu, e o guito não voltou. Depauperado, Giuseppe retirou-se do mundo do espectáculo e passou a viver indigente, sendo visto regularmente nos semáforos da Praça de Espanha lutando por uma moeda com a família romena que aí tocava acordeão com um Nenuco a fazer de bebé embrulhado em xailes ao colo do irmão mais novo.

Por ser um peixinho no tanque dos tubarões do show biz, Donaldito desconhecia que a razão do sucesso do duo era o conflito palhaço rico – palhaço pobre e uma vez eliminado um dos elementos ele deixara de ter graça dado não haver ninguém à sua beira para enxovalhar, e o público não se dispor a ser gozado por um pato. É preciso dizer que os fatinhos Hugo Boss também não ajudaram num país de invejosos que detesta ver alguém subir na vida. Um dia foi ao programa Alta Definição e quando Daniel Oliveira lhe perguntou “o que dizem os teus olhos?” Donaldito embargou-se de emoção e respondeu “saudade, principalmente saudade de uma amizade que apesar dos altos e baixos, como todas as relações ‘né?, deixou… deixou marcas”. “E que marcas”, comentou a porta-voz da APAV nas manhãs da TVI; pelo menos um tufo de algodão sintético arrancado da nuca fora uma vez reportado na esquadra do Cacém. Numa reportagem especial transmitida pela CMTV na véspera de natal ficou gravado no coração das audiências o momento em que Donaldito conduzindo pelas ruas ao volante do seu Smart encontrou Giuseppe a remexer num contentor do lixo, convidou-o para entrar no carro e deram um forte abraço cheio de comoção. Correram as lágrimas, trocaram-se juras de amizade eterna, a Tânia Laranjo de shot em punho brindou com eles à reconciliação, e esta história acabou em bem…

…até a mesma CMTV que emitiu o especial de natal ter no ano novo exibido um “exclusivo CM” onde levantou a suspeita de haver indícios de um escândalo sexual relacionado com o duo, no tempo em que ainda estavam ligados. Durante horas comentadores em estúdio e por videoconferência discutiram se a utilização da mão que manipulava o pato com o objectivo de obter satisfação sexual se poderia considerar masturbação ou felácio, se houve ou não consentimento. Fernando Rocha usou a polémica no seu show de anedotassugerindo que o ser “alimentado” daquela forma talvez fosse a razão que animou o pato. Concluiu acrescentando que agora percebia a expressão “fazer um bico”.

*Músico e embaixador do PLATAFORMA

Related posts
Opinião

Utilidades

Opinião

Microcosmos

Opinião

Os Bobos de Ouro - 2ª parte

Opinião

Os Bobos de Ouro - 1ª parte

Assine nossa Newsletter