Joselito fugiu a três guerras, mas nunca perdeu a vontade de recomeçar

Joselito fugiu a três guerras, mas nunca perdeu a vontade de recomeçar

O carpinteiro Joselito Uawiri sobreviveu a três guerras que Moçambique conheceu e “perdeu muito” nas fugas em busca de segurança, mas nunca deixou as suas ferramentas nem o sonho de recomeçar a vida num lugar onde a paz prevaleça.

Aos 62 anos, 27 dos quais vividos no interior de Mocímboa da Praia, onde tinha a sua pequena oficina, Joselito viveu sempre na base da carpintaria, até à chegada dos rebeldes que devastaram a sua vila, trazendo à memória os traumas que viveu durante a luta de libertação contra o regime colonial português e a guerra civil de 16 anos.

Quase sempre em fuga durante os conflitos, nunca deixou para trás a sua pasta de ferramentas, na esperança de recomeçar em qualquer lado que fosse, desde que houvesse paz.

Quando numa noite de julho de 2020 os insurgentes protagonizaram o forte ataque que abriu espaço para que dominassem Mocímboa da Praia, Joselito estava em casa com um dos seus nove filhos e, ao perceber a gravidade do ataque, tomou a decisão de fugir no quarto dia.

“O meu primeiro pensamento foram as minhas ferramentas. Comecei a colocar as minhas ferramentas [na pasta] e carreguei também duas camas, mais nada”, conta à Lusa o carpinteiro, a partir da sua nova oficina improvisada no meio do agitado bairro de Paquete, na capital provincial de Pemba.

Em Mocímboa da Praia, Joselito deixou mais de duas décadas de trabalho que lhe valeram a fama e o respeito dos seus vários clientes, incluindo as autoridades locais, que até já solicitaram uma cadeira para oferecer ao chefe de Estado, Filipe Nyusi, durante uma visita de trabalho que efetuou à vila há anos, conta o carpinteiro.

Hoje, na sua nova oficina em Pemba, é preciso reconquistar novos clientes, mas o processo não é fácil, tendo em conta que a vida agitada na capital provincial de Cabo Delgado é muito cara quando comparada com a quietude da vila sede de Mocímboa da Praia.

“Há pessoas de Palma [a cerca de 94 quilómetros de Mocímboa da Praia] que vinham à minha oficina para comprar trabalhos meus. Era fácil para mim lá. Mas aqui [em Pemba], a madeira está muito cara”, lamenta Joselito.

Apesar dos desafios, lutar pelo seu próprio sustento, seja em Mocímboa da Praia ou em Pemba, nunca esteve em questão.

“Não tenho outra coisa a fazer, este é o serviço que Deus me deu. Se eu ficar [de mãos cruzadas], o que é que eu vou comer?”, questiona o carpinteiro.

Embora sem saber ao certo como estão as coisas na sua casa em Mocímboa da Praia, a vontade de voltar para à vila continua intacta, alimentada pelo que escuta nos noticiários, com anúncios de avanços nas operações para travar a insurgência armada em Cabo Delgado.

“Eu saí de qualquer maneira. Quero voltar para pelo menos ver como as minhas coisas estão porque quando eu saí a minha casa não havia sido queimada”, acrescentou o deslocado.

Além de Joselito, a esperança no regresso às zonas de origem tem dominado, nas últimas semanas, o espírito de várias pessoas que tiveram de fugir da violência armada em Cabo Delgado, com resultados “positivos” nas operações da força conjunta de Moçambique e do Ruanda, que reconquistaram, em 08 de agosto, a estratégica vila portuária de Mocímboa da Praia, que estava nas mãos dos rebeldes há mais de um ano.

Durante este período de domínio dos rebeldes, mais de 62 mil pessoas, quase a totalidade da população, fugiram da vila de Mocímboa da Praia e o rasto de destruição é profundo, segundo dados avançados à Lusa, na terça-feira, pelo presidente da autarquia, Cheia Carlos Momba.

A vila costeira de Mocímboa da Praia, uma das principais do norte da província de Cabo Delgado, foi a região em que os grupos armados protagonizaram o seu primeiro ataque em outubro de 2017.

Mocímboa da Praia está situada a 70 quilómetros a sul da área de construção do projeto de exploração de gás natural conduzido por várias petrolíferas internacionais e liderado pela Total.

Os ataques armados por grupos insurgentes em distritos do norte de Cabo Delgado provocaram mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, segundo as autoridades moçambicanas.

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