Silly Season - Capítulo 2 - Plataforma Media

Silly Season – Capítulo 2

Considerações sobre o quotidiano

Na mudança de turno. O velho acorda após uma noite mal dormida e vai ouvir notícias para o carro, o novo chega de carro depois duma noite bem curtida e vai ver o Tik Tok até adormecer; o rato esconde-se debaixo do chão, o pássaro levanta voo do cimo da árvore; o gato volta para casa do dono, o cão sai com o dono para fazer xixi; o grilo finalmente cala-se, o galo começa a fazer barulho; a Maria deixa de ser torturada pela melga, passa a ser massacrada pela mosca; saem da banca os jornais com notícias manjadas de há dois dias, chegam os jornais com as notícias fresquinhas de ontem; o pasteleiro está farto de bolos, o cliente vem desejoso de bolos; o marido acaba o turno da noite no trabalho e vai para casa, o amante finda o labor no quarto e pisga-se de casa antes que o marido chegue.

Quanto mais baixa é a estatura de uma criatura, maior é o comprimento do capot da sua viatura.

Quando polícia e juízes têm ganho escasso, a corrupção ganha espaço.

20€ por um fato de carnaval do chinês? Nem pensar, espero pelos saldos de quarta-feira.

Sumol Zero vs Coca Cola Zero é X no totobola.

Receando ser despedido por falta de trabalho Paulo Xavier enveredou por uma vida dupla: de dia é empregado da empresa de limpeza de graffitis, à noite é o artista PX que grafitta paredes.

Ao contrário do que muita gente julga, as motas em Inglaterra não têm o guiador à direita.

Outro dia entendi porque os adolescentes não veem televisão: fiz um zapping por duzentos e tal canais e acabei a ver o Preço Certo.

Para bom entendedor um emoji basta.

A cavalo dado não se olha à seringa.

Numa loja de bijuteria um cartaz afirma que “o acessório faz a diferença”. Talvez seja um pouco exagerado, de facto o acessório só faz a diferença se o essencial for uma merda.

Muitos nunca assistiram ao filme Clube dos Poetas Mortos mas muitos já foram protagonistas do filme Restaurante dos Clientes Esquecidos.

A verdade é suficiente. História real ouvida no café:

Cliente – dê-me um maço de tabaco York.
Dono – York não tenho.
Cliente – hummmm… e desses que tem aí qual é o melhor?
Dono – ó minha senhora não faço ideia (olha para todos, pega num maço ao calhas, e põe-no assertivamente no balcão enquanto lê o que lá está escrito): olhe, este provoca nove em cada dez cancros! Chega?

A única vez que o António Raminhos me fez rir foi quando o locutor da TSF anunciou “o espaço de humor com António Raminhos”.

Conforme o carácter de Rosa da Silva que nunca foi flor que se cheirasse, no seu funeral só se usaram flores de plástico.

A falta de imaginação dos portugueses para criar marcas nunca deixou de me surpreender. Se se lembram de chamar “O cacete” à padaria e “A grelha” à churrasqueira, porque é que uma funerária se pode chamar “António Ferreira Costa & Filhos Lda” mas nunca “O cadáver”?

Antes de sair de casa para se juntar aos seus pares da Sociedade de Observadores da Lua Cheia, Leónidas verifica a lista de itens para levar:

Telescópio – check; câmara fotográfica – check; lanterna – check; pistola com balas de prata – check.

Ciência: contra factos não há argumentos. 

Redes sociais: contra argumentos não há factos.

Devido ao reduzido espaço dentro da Apollo 11, em lugar de Armstrong os americanos ainda pensaram enviar Ned, o astronauta anão, mas alguém teve o bom senso de antever o caricato da situação assim que Ned pousasse o pé no solo lunar e dissesse “that’s one small step for man…” 

Considerações sobre a vida

Quem pouco ou nada pensa, tudo sente como ofensa.

Por vezes a tradição não é mais que um erro repetido. Repetir um erro é estúpido. Algumas tradições são estúpidas.

Viver obcecado em ser alguém é desperdiçar quem já se é.

Antigamente só os homens cantavam “blues”, às mulheres era-lhes permitido cantar “pinks”.

Na vida moderna uma das poucas reflexões que fazemos é ao espelho.

Consta que as pessoas vivem com a cabeça na Terra e quando morrem sobem aos céus. Na verdade vivem com a cabeça nos céus e quando morrem é que descem à terra.

Orgulho é o filho acordar ao meio dia depois de ter passado a noite a jogar Fortnight, e as suas primeiras palavras à saída do quarto serem “pai, hoje matei 14!”

Surpresa é quando descobres que Darth Killer, o teu parceiro preferido de jogos de guerra online é um puto australiano de 8 anos.

A maior força do universo não é o amor nem a gravidade, é a atracção entre o carro acabado de lavar e a cagadela de pombo.

A única adivinhação acertada que fiz a interpretar borras de café foi ter de pagá-lo.

Quem não encontra sossego é porque procura onde ele não está.

Pai: achas que estamos sós no universo ou haverá vida “lá fora”?

Filha: ambas as hipóteses são assustadoras…

Grandes pensamentos, grandes obras: 

“Penso, logo curo” – William Band-Aid, inventor do penso-rápido.

“Penso, logo absorvo” – Marie Evax, inventora do penso higiénico.

“Quanto mais cagam nas minhas obras, mais importância lhe dão” – Pablo Roca, artista criador de louças sanitárias.

“O automóvel eléctrico não tem que ser amigo do ambiente, basta parecer” – Elon Musk, empreendedor.

Um anão é considerado uma pessoa pequena mas mesmo assim deve ser maior que um aninho. 

Não tenho tido vida fácil. A única coisa positiva que me aconteceu no último ano foi um teste de covid.

A saúde é como o lusco fusco, um momento em que dia e noite parecem equilibrar-se embora saibamos que a noite vencerá.

Fazendo fé no judaísmo e cristianismo, a maçã é a espécie mais perigosa do mundo; um único indivíduo foi responsável pela perdição da humanidade.

Numa das realidades alternativas do multiverso, a Hungria e a Polónia proibiram a venda de tomate fora dos mercados tradicionais, gerando um conflito com a UE. Esta obriga a não o considerarem fruta nem legume enquanto os governos dos dois países decidiram que é um legume e a sua venda far-se-á apenas nos locais autorizados; alegam que “é preciso tê-los no sítio”.

Quando Deus juntava ingredientes para criar povos, pegou no cadinho onde já tinha criado o italiano, retirou-lhe uma porção de bazófia e outra de auto-confiança. Assim nasceu o português.

Um português mongolóide tem cara de mongol mas um mongol mongolóide não tem cara de português, nem sequer é um pleonasmo.

Acho graça a ser português já que ao contrário de outras nações eivadas de vã presunção de possuir algo nesta vida, nós sabemos que tudo é transitório e por isso não nos levamos a sério. Exemplo: o final da letra d’A Portuguesa onde se diz “contra os canhões marchar, marchar”. Ora uma nação que no seu hino exulta o suicídio colectivo como resposta à superioridade tecnológica do inimigo só pode ser uma nação com piada.

1- O “queque” vais comer?
– Olha, pode ser isso mesmo.

2- O queque, vais comer?
– Vou.”

Às vezes é preciso fazer uma pausa para mudar o sentido.

*Músico e embaixador do Plataforma

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