Start ups - Plataforma Media

Start ups

Agora que a bazuca dos milhões atingiu o país, como qualquer português pensei em formas de dar o peito a essas balas, de me “coser a algum”. Não obstante sou um português postiço, possuo apenas a capa cultural, de carácter serei outra coisa porque o primeiro instinto foi criar investigação e produção, ou seja, real riqueza. Depois lembrei-me que implicaria investimento tecnológico, convencer burocratas, enfim uma maçada; primeiro que conseguisse comprar o Mercedes e a vivenda teria de trabalhar a sério, a vida é curta, o verão chegou, não estou para isso. O melhor é seguir a via da treta, apresentar propostas suportadas num caderno recheado de anglicismos e termos técnicos sacados da net, prometendo criar postos de trabalho à imensa mole de mão de obra pouco qualificada. Isto sim, fará brilhar os olhos dos políticos. Efectivamente queria era que me dessem dinheiro para montar um café, o que qualquer português modesto amealhador de cobres fazia antes da pandemia, mas como os governos estão cheios de senhores doutores advogados e tecnocratas, nenhum deve ir na conversa.

Já sei, start ups! O que é? Não sei, um projecto de empresa? Provavelmente funciona, afinal a maior parte da produção nacional em todas as áreas resume-se a “projectos”, basta atentar no diálogo mais comum em Portugal entre um inquisidor e alguém que alega fazer alguma coisa:

-Então que fazes?

-Eh pá tenho aí um projecto…

Nos 5% das vezes em que o projecto se concretiza nunca deixará de ser um projecto, ainda não se encontrou uma palavra para definir o estado seguinte. Projecto não é necessariamente a concretização de algo palpável. Num país onde poucos decifram o que ouvem ou sabem do que falam, nada como um “projecto” para mostrar ideias, empreendedorismo, “propostas de soluções face aos novos desafios, blá blá…”

Pensei em três projectos, o primeiro foi um nado-morto; talvez um “rent-a-baby”, aluguer de bebés para homens sacarem gajas no supermercado não fosse bem aceite. Os outros têm pernas para andar, vou transformá-los em start ups.

Teleporrada

(Dirigida a todos os targets)

Projecto adequado aos dias de hoje, prevejo uma procura superior à oferta.

Irá causar distúrbios? De facto, como qualquer capitalista, é-me indiferente, o que quero é fazer dinheiro à custa dos medos da populaça, o Estado que se amanhe com a factura social resultante dessa exploração.

“É vítima de violência doméstica, bullying, rixa de trânsito ou outros? Nunca teve vontade de chamar um matulão para vir dar uma sova por si? Agora já pode, ligando para a Teleporrada! A Teleporrada é um serviço de porrada ao domicílio, disponível através de telefone e app. Cada matulão que avia porrada é entregue em três etnias à escolha e inclui dois ingredientes entre chicote, pistola Glock, metralhadora AK 47, botas Doc Martens, soqueira, e extra músculo. Temos um Menu Júnior e fazemos entregas em escolas. Se vier buscar à loja paga um e leva dois matulões. Fazemos descontos especiais na modalidade gang, três ou mais matulões assumindo a pele de uma claque de futebol, simples arruaceiros de bairro ou o que quiser, a sua imaginação é o limite (Nota: devido a questões legais não aceitamos pedidos relacionados com ideologia nazi). Mulher vítima de grunho, nerd, xoninhas no trabalho, puto, qualquer um que se sinta ameaçado ou seja simplesmente preguiçoso para responder à violência: não ature mais desaforo, nós sovamos por si. Ligue para a Teleporrada e desfrute a deliciosa visão do seu agressor borrando-se nas calças”.

Teleporrada, pronta a levar.

Telebicha

(Dirigida ao target de classe A)

Esta também me parece prover necessidades actuais. Polémica, tanto podem pensar que estou a integrar no mercado de trabalho uma parte da comunidade LGBT como a marginalizá-la, o que encaixa qual cunha à medida na fractura que o tema provoca. De facto, como qualquer capitalista, é-me indiferente, o que quero é fazer dinheiro à custa das convicções da populaça, o Estado que se amanhe com a factura social resultante dessa exploração.

“É uma esposa dedicada e por isso merece tudo a que tem direito, amor, carinho, envolvimento, atenção, romance, momentos picantes, passeio de limousine, viagens a Nova York, férias no Dubai, mas quando chega a hora de ir às compras o seu marido balda-se olimpicamente? É um esposo dedicado, logo não merece vaguear por lojas com a esposa, respondendo a ‘qual o vestido mais giro, o vermelho ou o beije?’, depois de escolher um, ter de confirmar seis vezes porque a esposa lhe diz ‘achas? o outro ficava melhor com os sapatos pretos’, você pergunta ‘quais?’, a esposa diz ‘aqueles’, a resposta mais temível porque o pronome significa que deveria saber, em pânico você executa um scanner mental e entre as dezenas de sapatos que ela tem no armário você não faz puto ideia quais são os ‘aqueles’ e tem de mentir com um ‘ahhh sim, esses’? Temos a solução para o vosso problema. Telebicha. Enviamos uma bicha ao domicílio, dispomos de vários menus. O menu principal inclui acompanhar a esposa às compras, fornecer dicas sobre moda, elogiar-lhe o cabelo, dar-lhe piropos, sugerir o que lhe fica genuinamente bem ao contrário de algumas amigas invejosas, comer uma salada ou um gelado, tomar chá, uma taça de vinho branco ou um capuccino, falar mal das outras, e despedir-se dizendo ‘beijinho, beijinho’ enquanto faz boquinha para o ar. Ao esposo garantimos total descanso e segurança, as nossas bichas são todas certificadas, não fosse o diabo tecê-las. À esposa garantimos uma tarde divertida e bem passada na companhia de uma víbora mas verdadeira amiga que sabe melhor que ela o que é melhor para ela”.

Telebicha, a amiga que capricha.

*Músico e embaixador do Plataforma

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