Certas coisas custam a mudar

Certas coisas custam a mudar

Sou do tempo em que os miúdos passavam o dia na rua. Quando competíamos as equipas formavam-se ao redor de dois eternos clãs, Sporting (o meu) e Benfica. Esses clubes forneciam as referências, as suas figuras e trajectos eram modelos transportados para as nossas brincadeiras.

Quer fosse ao berlinde, aos matraquilhos ou no futebol, nunca houve árbitros, o jogo regulava-se a si próprio: um penalty duvidoso aqui compensava-se com outro duvidoso acolá, uma entrada mais dura às vezes degenerava numa saudável cena de pancadaria que poderia terminar o encontro ou continuá-lo no dia seguinte, sem ressentimentos. Tudo como deve ser, portanto… Depois cresci, deixei de jogar e usar os punhos para fazer valer argumentos, ao mesmo tempo que o Sporting deixou de ganhar. No final dos anos 70 vi o FCPorto tornar-se protagonista do desporto nacional pela mão de Pinto da Costa. Criou o seu espaço empunhando a bandeira do “norte”, fomentando uma guerra contra o “sul”. O Sporting tornou-se no elo mais fraco da rivalidade lisboeta tendo-se esta transferido para os confrontos entre o Benfica e o FCPorto. As equipas do FCPorto começaram por “dar pau” para depois se consolidarem qualitativamente, chegando a conquistar troféus internacionais. Tudo isto contribuiu para uma aura de infalibilidade a Pinto da Costa, sustentando-se em resultados desportivos e financeiros, dirigindo certeiros ataques para fora, enquanto filtrava com mão de ferro a informação interna disponível para o exterior. Em poucos anos tornou-se num líder incontestado no clube, sabendo explorar a rivalidade lisboeta, tirando partido da mútua erosão. 

Em 45 anos de gestão à frente do clube, o FCPorto teve 32 treinadores, o Sporting 63, praticamente o dobro, o Benfica 37. Desde a última vez que o Sporting foi campeão há 17 anos, já teve 24 treinadores, o que dá a bizarra média de um treinador a cada 8 meses e 2 semanas. Por outro lado, enquanto Pinto da Costa é presidente passaram 12 presidentes no Sporting, e 8 no Benfica. Se os presidentes fossem espécies animais ele seria um crocodilo, o sobrevivente de várias extinções em massa. Portanto o universo sportinguista entrou em declínio fruto de más escolhas, porém não sou ingénuo ao ponto de pensar ter sido esse o único motivo. É evidente que a estabilidade de um clube se ligue aos números referidos, no entanto também é de supor que eles reflictam a tentativa de reverter a situação a qualquer custo, assim como a maior influência tida pelos rivais noutras instâncias. A história é escrita pelos vencedores, as vitórias, sobretudo as internacionais branqueiam quase tudo, o tempo faz esquecer as circunstâncias. Nos museus as taças simbolizam o fim de um caminho vitorioso, o resto pouco interessa. À medida que as conquistas se acumulam validam o percurso, fortalecendo relações positivas com a memória colectiva. 

A haver batota certamente será discreta, afinal ladrão não é o que rouba mas aquele que é apanhado a roubar. Um pouco como um bancário subtrair um cêntimo a milhares de clientes em vez de desfalcar meia dúzia numa grande quantidade. Se for necessário efectuar um roubo às claras terá de se compensar com benesses aos outros de modo a manter-lhes telhados de vidro, alimentando a ilusão de que todos comem uma fatia, e o melhor é calarem o bico. Assim, o que tem “calhado” ao Sporting são oferendas geralmente inúteis para a persecução de grandes objectivos, satisfazendo somente interesses momentâneos. E talvez se explique aí a razão porque alguns dos favores recebidos gozam de grande visibilidade, ajudando a desviar o foco de outros discretos dados aos adversários. 

E não é que em 2004 o ladrão foi apanhado a roubar? No processo “Apito dourado” tomámos conhecimento de que Pinto da Costa, alegadamente durante 3 décadas, se envolveu em actos de corrupção desportiva, tal como o major Valentim Loureiro, presidente da Liga de Clubes e antigo dirigente do Boavista (do Porto), clube que de forma inesperada ganhara a Liga três anos antes. O major foi condenado, o presidente do conselho de arbitragem (com sede no Porto), Pinto de Sousa, condenado foi, o Boavista acabaria relegado para escalões inferiores; o FCPorto pagou uma multa e perdeu uns pontitos, Pinto da Costa um dia antes da detenção fugiu para Espanha. As escutas ainda disponíveis no youtube não serviram para o condenar, apesar de sabermos que praticou actos criminosos. E o presidente portista continua judicialmente incólume a presidir ao FCPorto…

É natural que um clube tire vantagem da instabilidade dos adversários. Existirão problemas no seio do dragão? Pressente uma ameaça do Sporting? Não sei. Mestre na arte de desviar atenções e conhecedor da essência explosiva do clube de Alvalade, Pinto da Costa lembrou-se de atirar um fósforo, sugerindo que o actual presidente dos leões beneficiou com o infame ataque à Academia de Alcochete. Factualmente é apenas um truísmo, contudo, baseando-nos no seu típico modus operandi, verificamos que insinua uma ligação do ataque a Frederico Varandas. A resposta deste surgiu violenta, na mouche, concluindo que “um bandido será sempre um bandido”. Aquilo que Varandas disse é o que toda a gente pensa independentemente de o “bandido” nunca ter sido condenado. Este assomo de coragem granjeou uma inusitada onda de apoio até de sectores rivais, ameaçando tornar-se num carismático refrão, virando o feitiço contra o feiticeiro. O presidente do FCPorto dispensaria vivamente a atenção, quiçá não esperaria essa verve do adversário. Quer faça Varandas pagar caro pelas afirmações, o que se afigura bem possível, ademais tem a legalidade do seu lado, quer opte pela indiferença, o mal está feito, deu um tiro no pé; responderam-lhe à letra e a partir de agora torna-se difícil controlar a dinâmica, fracturas poderão minar o pedestal onde se encontra, arriscando-se a tombar dele. Acredito nisso? Não no seu tempo de vida, porventura nem do meu: é que certas coisas custam a mudar em Portugal.

*Músico e embaixador do Plataforma

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