Cinemateca Paixão: “Não vamos comprometer a qualidade, apesar do orçamento ser mais modesto” - Plataforma Media

Cinemateca Paixão: “Não vamos comprometer a qualidade, apesar do orçamento ser mais modesto”

A nova gestora da Cinemateca Paixão garante que a oferta será igual ainda que o orçamento da proposta submetida no concurso público para a gestão do espaço ser metade do apresentado pela CUT, gestora desde 2016.

Ao PLATAFORMA, Jenny Ip frisa que a Companhia de Produção de Entretenimento e Cultura In Limitada não se limitou a cumprir os mínimos exigidos pelo Instituto Cultural (IC), fala sobre os planos para os próximos três anos e promete manter todas as apostas dos últimos três – do cinema local ao cinema de fora, incluindo o lusófono. A gestora de operações da In Limitada diz compreender o interesse em saber-se detalhes sobre a empresa que desde setembro está à frente da Cinemateca, mas explica que só diz o que pode. A confidencialidade foi a justificação que repetiu para responder às perguntas mais polémicas. 

– Tiveram um arranque complicado com uma grande polémica em redor dos proprietários, relações e passado da empresa. Como encara a controvérsia?
Jenny Ip – Contribuiu desde logo o timing. Recebemos a notificação do Governo sobre o resultado do concurso e tivemos muito pouco tempo para nos prepararmos. Claro que entendemos que estivemos sobre um enorme escrutínio. Mesmo que gostássemos de divulgar mais informação, tínhamos de proteger os nossos clientes, com quem falámos e que pediram discrição. Atendendo à confidencialidade prevista nos contratos, não podíamos divulgar mais nada. A 1 de setembro, fizemos uma conferência de imprensa na qual demos mais detalhes.

– Pouco se ficou a saber. Porquê tanto secretismo?
J.I. – Não estamos a esconder nada. Queremos apenas que o enfoque seja na equipa. Sobre o proprietário da In Limitada, já é do conhecimento público que é Leong Chan Weng. 

– No site, a empresa apresenta-se como já tendo organizado vários eventos relacionados com cinema, mas não dá exemplos. 
– J.I. – Como expliquei, contactámos os clientes que pediram descrição, que temos de respeitar.

O passado e relações das empresas devem ser conhecidos quando exploram instituições públicas. É tudo demasiado genérico na informação que divulgam sobre a vossa.
J.I. – Somos uma equipa nova, que nasceu só depois de ganharmos este concurso. 

– Não responde à pergunta. Insistem na experiência em cinema, mas continuamos sem saber qual. 
J.I. – Entendo que se queira saber, mas temos de proteger os nossos clientes. O artigo jornalístico que foi publicado sobre o nosso escritório foi um dos motivos que nos deram para protegermos a sua identidade. Receiam passar pelo mesmo e dispensam essa atenção. Não temos problema em divulgar tudo sobre a nossa equipa, tudo. 

– É importante saber-se o motivo pelo qual a empresa não quer divulgar nada sobre o que fez, uma vez que estão à frente de uma instituição pública?
J.I. – Entendo, mas insisto que o que deve ser relevante nesta altura é quem é a equipa que está à frente da Cinemateca. Compreendo o interesse noutras questões, mas temos contratos que devem ser respeitados.

– Porque surgiu o interesse da In Limitada na Cinemateca? 
J.I. – Queremos contribuir para a indústria cinematográfica local. Partilhamos dos mesmos objetivos, e foi por isso que nos juntámos e concorremos.

– Outra polémica, levantada pelo artigo do Ponto Final que menciona, foi a eventual relação com a Associação de Cultura e Produções de Filmes e Televisão de Macau, presidida por Alvin Chau, e que organiza o Festival Internacional de Cinema. Há? 
J.I. – Temos muitos clientes e temos de respeitar a confidencialidade. Do que sei, não temos qualquer relação especial com eles. 

– Ganharam o concurso com uma proposta de pouco mais de 15 milhões de patacas para os próximos três anos, menos de metade do apresentado pela antiga gestora da Cinemateca. Asseguram igual qualidade. Como vão conseguir este equilíbrio?
J.I. – No programa de setembro, conseguimos cumprir o orçamento previsto sem sacrificar a qualidade. O feedback tem sido bastante positivo, assim como a venda de bilhetes, não obstante o contexto de pandemia. Já são provas de como não vamos comprometer a qualidade, apesar do orçamento ser mais modesto. Não antecipamos dificuldades.

– Os planos anunciados parecem limitar-se aos mínimos exigidos pelo IC. 
J.I. – Claro que cumprimos os requisitos exigidos, mas apresentamos ideias próprias e planos para os próximos três anos. Não nos vamos limitar a cumprir os mínimos. Temos outras ideias.

– Pode dar-me exemplos? Anunciaram um número total de 576 sessões e 212 filmes nos primeiros 12 meses, o que corresponde ao mínimo exigido no concurso, que na secção de “Prestação dos serviços de projeções públicas” referia que “o adjudicatário deve realizar mensalmente, um mínimo de 48 sessões”, ou seja, um total de 576 sessões por ano.
J.I. – O mínimo exigido pelo IC seriam cinco festivais e vamos organizar oito, cada um com seu tema. O IC também exige que organizemos uma atividade relacionada com cinema por mês. Temos planeado 17 para os primeiros 12. Vamos oferecer um espectro bastante diverso de eventos no próximo ano.

– Foi divulgado que iriam contratar 14 pessoas. Já fecharam a equipa?
J.I. – Sim. Foram todos recrutados localmente depois de anúncios públicos. A diretora e a consultora são os únicos elementos de fora. Os restantes 12 são locais, todos estudaram ou trabalharam em cinema, em Macau ou no estrangeiro. 

– Tung Mei Yi é a Diretora de Operações e June Wu, antiga chefe do Gabinete da Indústria do Festival Internacional de Cinema, ocupa o cargo de Consultora. Ambas estão fora. A ideia é que assim seja?
J.I. – Por agora estão impedidas de vir a Macau por causa da pandemia. Quando tudo se regularizar, virão mas não estarão sempre aqui. Um dos seus propósitos é explorar e angariar mais recursos para a Cinemateca. Uma das principais missões é divulgar o cinema local no resto do mundo e o papel delas também passa por contactar com a indústria de fora. 

– Que está previsto a pensar no cinema local?
J.I. – Sabemos que alguns realizadores têm trabalhos em curso. Estamos em contacto para depois definirmos como será a projeção e do que precisam. Também vamos organizar festivais de cinema local. A ideia é que o primeiro seja em dezembro. 

– E no que respeita ao programa em geral?
J.I. – Para setembro, organizamos a sessão “Uma carta de amor ao cinema: Produção cinematográfica nos grandes ecrãs”, com grandes clássicos. Em outubro, vamos ter uma sessão dedicada ao cinema em chinês, com curtas e longas de territórios vizinhos como Taiwan, Hong Kong, Macau e da China. Temos previsto outro festival sobre proteção ambiental. Queremos trazer documentários e filmes de referência. É um tema crucial.

– Vão manter a oferta de atividades paralelas às projeções? 
J.I. – Queremos trazer produtores e realizadores de foram para debates e palestras com a audiência local. Este mês temos uma. Convidámos o realizador Stanley Kwan, de Hong Kong, que estará online juntamente com os realizadores locais Tracy Choi e Oliver Fa. Vamos continuar a convidar realizadores e outros profissionais de cinema de fora e locais para workshops, palestras, seminários e outras atividades.

– Também referiram que uma das prioridades seriam as minorias. Pode ser mais específica?
J.I. – Queremos chegar a toda gente. Vemos a Cinemateca como um espaço para se passar cinema, mas não só. Queremos expandir a audiência e chegar a quem normalmente não tem contacto com este mundo. Queremos fazer bom uso deste sítio para servir a comunidade.

– Quem são essas minorias?
J.I. – Não residentes, LGBTQ, mais novos, entre outros. Também pretendemos dedicar-nos mais às escolas. Queremos chegar a toda gente e consideramos que as escolas são fundamentais. 

– Outra das apostas da gestão anterior foi o cinema em língua portuguesa, tendo em conta que Macau quer ser um ponto de relação entre a Lusofonia e a China. É para manter?
J.I. – É outro dos nossos planos. Pretendemos organizar um festival dedicado ao cinema lusófono já no próximo ano. 

– Há alguma limitação ao nível da programação?
J.I. – Discutimos todas as nossas ideias com o IC, que tem de as aprovar. Não sentimos qualquer tipo de limitação.

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