ARTFEM - Mostrar ao mundo a “Natura” das artistas femininas

ARTFEM em Macau: Mostrar ao mundo a “Natura” das artistas femininas

Cerâmica de saltos altos, fotografias, quadros e instalações com uma mensagem. Como anteriormente, a exposição “Mulheres Artistas – 2.ª Bienal Internacional de Macau” procura mostrar a visão única do mundo criada no feminino. Durante os anos 80 um grupo de artistas femininas nos EUA lançaram a pergunta: “As mulheres só fazem parte dos museus se estiverem nuas?”. Juntamente com esta questão ficou também o alerta de que apenas 5 por cento dos artistas em exposição na secção de Arte Moderna do Museu de Arte Metropolitana eram mulheres, quando 85 por cento das obras com figuras nuas representavam a figura feminina. Quase 40 anos depois, as artistas femininas estão a ser reconhecidas como nunca antes. Porém ainda existem poucos eventos como este que se foquem nestas criadoras.  

“As mulheres têm tido tantos sucessos como os homens em muitas áreas como a ciência, a arte, o mundo académico, a legislação e os direitos humanos”. Todavia, Carlos Marreiros, curador da “Mulheres Artistas – 2ª Bienal Internacional de Macau”, admite que “os museus têm poucas obras de mulheres artistas” e “não estão a representar verdadeiramente os sucessos das mulheres nesta área”. 

“Foi por isso que decidimos criar esta bienal, para oferecer um espaço de exposição ao avanço das mulheres na arte”, diz.

Quase 100 artistas explorando a sua “natura”

A “Mulheres Artistas – 2ª Bienal Internacional de Macau”, organizada pelo Albergue SCM e com o apoio de várias organizações como a Fundação Macau, é o único evento desta dimensão de arte feminina no mundo. Agora na segunda edição, terá lugar entre os dias 30 de setembro e 13 de dezembro, com a participação de cinco curadores: Carlos Marreiros, Alice Kok, James Chu, Angela Li Zhenxiang e Leonor Veiga. Esta edição da bienal convidou várias artistas de renome como Xiang Jing de Pequim e Un Chi Iam de Macau, e tem em exibição 142 obras de 98 artistas de todo o mundo, repartidas por quatro espaços em Macau. 

 Mais uma vez o evento definiu um tema principal. Carlos Carreiros explica que o tema desta edição, “Natura”, é uma palavra com origem latina, significando natureza. Alice Kok acrescentou que a tradução do nome para chinês é também um termo utilizado na filosofia Taoista, representando “a forma natural das coisas”. Além da natureza, esta palavra representa o verdadeiro e natural estado do mundo. Com o desenvolvimento do consumismo e a crescente destruição do ecossistema natural, todos devemos reconsiderar formas de manter a genuinidade e voltar à nossa “natura”. Grande parte das criações dos artistas que participam no evento estão ligadas a este tema. Natura ou Natureza, não diz apenas respeito ao ambiente, é uma mentalidade, uma filosofia, e descreve também “a existência”. 

A pandemia não apaga a paixão pela arte

Carlos Marreiros admite que os preparativos da bienal foram afetados pela pandemia. A exposição, que originalmente estava agendada para março, acabou por ser adiada para o último trimestre deste ano, e muitas das artistas participantes não poderão estar presentes em Macau devido ao período de isolamento obrigatório. 

Angela Li Zhenxiang, uma das curadoras encarregues da escolha dos artistas da China continental, confirma que durante o ano anterior não houve quaisquer imprevistos, mas dois meses antes do início da exposição os trabalhos tiveram de ser adiados devido à pandemia. 

Problemas de comunicação, viagens e transporte vieram posteriormente complicar ainda mais a situação e criar um estado de incerteza. 

“Pensávamos que não ia ser possível organizar a exposição. Agora, mais uma vez devido à pandemia, algumas artistas não poderão estar presentes. Mesmo assim, tendo em consideração todas as preocupações e medos relacionados com a pandemia, as artistas mantiveram uma atitude calma, como se a respetiva natureza as tivesse preparado para isso”, adianta.

Mas, finalmente com todos os esforços conjuntos da equipa de curadores, conseguiu-se organizar a exposição.

Leonor Veiga, também encarregue da escolha das artistas internacionais, esclarece que devido ao contexto que se vive, o plano de organizar performances e exposições de obras em espaços públicos foi cancelado, e algumas artistas tiveram de diminuir a dimensão dos respetivos projetos para que pudessem ser relocalizados para locais fechados. “O mais importante é que elas não desistiram. Acreditam na bienal e quiseram participar. Por isso conseguimos encontrar uma solução”, acentua.

Xiang Jing, artista do continente e uma das madrinhas da ArtFem

Demonstração do poder feminino

Outro ponto a salientar nesta exibição é a idade das artistas participantes. Têm entre os 26 e os 80 anos, sendo por isso um evento transgeracional. 

Leonor Veiga acredita que as oportunidades para as mulheres no mundo académico estão a aumentar. No passado apenas os homens tinham a porta aberta, mas agora também as mulheres têm direito a crescer nessa direção. 

Já Angela Li Zhenxiang salienta que no passado os valores tradicionais chineses dominavam a vida das mulheres, e a quantidade reduzida de informação fazia com que grande parte das artistas femininas, tradicionalmente mais tímidas e reservadas, não fossem reconhecidas, com a exceção de um pequeno grupo. 

“Agora já não é assim, a globalização abriu mais oportunidades para jovens mulheres artistas. A emancipação das artistas do ocidente serviu como exemplo para as jovens artistas na China, e por isso neste momento contamos com várias grandes artistas no país”, assinala.

Mas Alice Kok, que trabalha com James Chu na seleção de artistas de Hong Kong e Macau, afirma que esta última é uma cidade muito pequena e com muitas limitações, e por isso muitas artistas acabam por sair da cidade para continuar os estudos e expandirem os respetivos horizontes. 

“Isso é algo muito importante, porque se ficarem apenas em Macau vão ter um horizonte demasiado pequeno. É preciso desenvolverem uma visão internacional”, desafia.

Sendo assim, a bienal procura assumir esse papel. Para os curadores, Vários curadores esta exposição é uma plataforma de contacto com o mundo internacional, algo que poderá não só enriquecer a participação de Macau na cultura a nível global, como também apresentar ao resto do mundo artistas chineses. 

Perspetivando o futuro desenvolvimento do evento, Carlos Marreiros diz esperar que após as cinco primeiras edições alguns artistas internacionais tomem a iniciativa de participar na exposição. 

“Espero também que o Governo de Macau dê valor a esta exposição”, acrescenta Carlos Marreiros, que foi Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura antes da transferência do exercício da soberania de Macau de Portugal para a China, em 1999 e esteve encarregue de diferentes festivais internacionais de arte e música. 

“Não existem muitos eventos bienais no mundo da arte que se foquem em artistas femininas, mas existem grandes artistas na China. Com a entrada no século XXI, os problemas de género e de direitos das mulheres também ganharam importância em Macau”, conclui. 

Regiões dos artistas participantes:

República Popular da China (13)
Portugal (16)
Macau (31)
Hong Kong (7)
Coreia do Sul (2)
Japão (1)
Indonésia (3)
França (3)
Espanha (1)
Itália (3)
Holanda (1)
Reino Unido (1) 
Alemanha (3)
Suécia (1)
Bélgica (1)
Brasil (3)
Estados Unidos (2)
Canadá (1)
Índia (2) 
Timor-Leste (1)
Irão (1) 
Austrália (1) 

“2020 ARTFEM Mulheres Artistas – 2ª Bienal Internacional de Macau”

Albergue SCM
Datas: 30/9 – 13/12
Horário: ‬De terça-feira a domingo – 12:00 – 20:00 / Segunda-feira – 13:00 – 20:00
‬Local de exposição: ‬Galeria A2 do Albergue SCM

Antigo Estábulo Municipal de Gado Bovino
Datas: 2/10 – 5/11
Horário: ى‭De terça-feira a domingo – 10:00 -19:00
Local de exposição: Antigo Estábulo Municipal de Gado Bovino

Galeria Lisboa
Datas: 5/10 – 13/12
Horário: De terça-feira a sábado – 11:00 – 19:00
‬Local de exposição: Galeria Lisboa

‬Fundação Oriente
Datas: 9/10 – 13/12
Horário: De terça-feira a domingo – 10:00 – 19:00
Local de exposição: Fundação Oriente

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