Com cerca de 240 galerias – mais de 40 países – a feira que se globalizou a partir da pequena cidade suíça de Basel voltou a mostrar que Hong Kong é capaz de juntar no mesmo espaço nomes icónicos da arte moderna e contemporânea com artistas emergentes e propostas experimentais.
Em destaque estiveram nomes icónicos como Pablo Picasso – Chat et crabe sur la plage (1965) – ou Joan Mitchell, cuja pintura é referência maior do expressionismo abstrato. Mas também Gerhard Richter e Louise Bourgeois, exemplos menos óbvios trazidos por galerias internacionais que reforçam a dimensão histórica do evento.
A edição deste ano confirma também a vitalidade da produção contemporânea, por exemplo com Nicole Eisenman e as suas novas pinturas de registo introspectivo; ou Christine Sun Kim, cuja instalação digital explora relações entre som, linguagem e percepção. A presença de criadores como Suki Seokyeong Kang, ou Shahzia Sikander, sublinha ainda o peso crescente da Ásia e das diásporas no discurso artístico global, cruzam História, identidade e geopolítica.

A coexistência de nomes consagrados com novas formas de expressão é uma das forças da Art Basel, mas também prova das suas contradições. A lógica da feira, orientada para a venda, favorece artistas consolidados e obras com liquidez do mercado. Por isso, assinalam os críticos, o risco curatorial tende a ser limitado e a oferta ajusta-se a um público colecionador seletivo. Curiosamente… que raramente vai às feiras, muito menos é nelas que passa o cheque.
Arte de ser Hong Kong
Reduzir a Art Basel à sua dimensão comercial ignora o seu impacto mais amplo no contexto da afirmação de Hong Kong, que aposta na recuperação da sua relevância internacional política, financeira e cultural. A feira é um farol dessa resiliência; e as grandes galerias internacionais, aliadas à nova geração de artistas asiáticos, recentram a região vizinha no circuito global da arte.
Durante anos, Hong Kong foi sobretudo plataforma de entrada para o mercado asiático; agora procura também afirmar-se como espaço onde a produção asiática ganha protagonismo. Reposicionamento, esse, que não elimina a sua dimensão comercial; antes a reforça, introduzindo maior diversidade e densidade cultural.

A chamada “Art Week” torna essa dinâmica ainda mais visível. Museus, galerias e instituições transformam a cidade num ecossistema artístico alargado; a arte não se confina aos pavilhões da feira e integra o espaço urbano; e Hong Kong recupera a sua vocação histórica: ponto de encontro entre mercados, culturas e linguagens.
É uma feira comercial; quiçá demasiado, mas talvez essa tensão entre mercado e criação, valor artístico e financeiro, explique a sua contínua relevância. Num ecossistema artístico em transformação global, Hong Kong afirma-se como centro de transações; mas também como espaço onde a arte circula, confronta-se; e, por vezes, até surpreende. Mais que suficiente para justificar a importância da Art Basel.