Início » Quando o futuro é apenas o presente

Quando o futuro é apenas o presente

Ricardo Oliveira DuarteRicardo Oliveira Duarte*

No “País tropical, abençoado por Deus” o Rio de Janeiro estava na primeira fila quando foi distribuída a beleza. É difícil rebater, mesmo para quem, como eu, ama Salvador da Bahia: o Rio é uma beleza (“mas que beleza”, voltando a Jorge Ben Jor). E depois, para além de belo, o Rio ainda tem aquele gingar feito de samba, cerveja gelada e praia. Aqueles sorrisos rasgados dos moleques, a música e os botecos. Enfim, em bom português daqui: o Rio é foda. Mas é no duplo sentido que essa palavra traz que as coisas começam a complicar-se.

A beleza quase nunca dura para sempre, mais ainda quando brincamos constantemente com o fogo. E é precisamente isso que parece que quem é eleito e quem elege têm feito continuamente, ainda que com responsabilidades muito diferentes.

A última sexta-feira (28) acordou com uma operação policial no Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador, da qual Wilson Witzel saiu já com o título suspenso por 180 dias. As suspeitas são da já inevitável doença que parece, no Brasil, ser tanto ou mais contagiosa que a Covid-19: corrupção. Alegados esquemas espalhados pelas secretarias todas, dinheiro na conta da mulher que levanta muitas suspeitas e Witzel é o sexto governador do estado do Rio de Janeiro a ser investigado por corrupção.

Nos últimos quatro anos cinco ex-governadores do Rio de Janeiro foram presos.

Witzel é um ex-magistrado, advogado, um cometa que apareceu ao colo dos Bolsonaro e ganhou a última eleição desfraldando as bandeiras do combate ao crime e, claro, à corrupção. O homem da “mira na cabecinha e… Fogo” viu o tiro sair-lhe pela culatra e, quando até se chegou a falar numa possível candidatura presidencial no futuro terá agora de lutar para se manter vivo em termos políticos.

Para além do suspenso governador, a investigação de corrupção em contratos públicos de saúde incidiu, entre outros, sob o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, André Ciciliano (do PT) e o famoso Pastor Everaldo. Se lhe disser que Everaldo é o líder nacional do Partido Social Cristão duvidará da minha classificação de famoso, mas quem não se lembra do batismo de Jair Bolsonaro no Rio Jordão? O Pastor Everaldo foi quem amparou o mergulho de costas. E também foi, juntamente com os Bolsonaro, um dos grandes responsáveis pela eleição de Witzel.

Se no Governo do Estado as coisas estão assim, na prefeitura, o equivalente à Câmara Municipal portuguesa, o cenário é igualmente desolador.

Uma reportagem da Globo revelou esta segunda-feira (31) os “Guardiões de Crivella”. Apesar do tom épico o caso tem muito mais de vergonhoso e insano que outra coisa. A prefeitura do Rio de Janeiro usa funcionários públicos para boicotar reportagens e impedir a população de se queixar de problemas na Saúde. Através de grupos reunidos no Whatsapp, os funcionários são distribuídos, em duplas, pelos hospitais municipais onde cumprem um rigoroso horário, marcam o ponto com selfies e fazem o que lhes mandam: impedem os jornalistas de reportar e os cidadãos de dar opinião ou denunciar o que quer que seja.

Ao todo, somando três grupos que a reportagem descobriu, estamos a falar de 350 (!) funcionários. O coordenador dos “guardiões” do prefeito é um pastor, amigo de Crivella, que ganha de salário mais de 10 mil reais (ou seja, 10 salários mínimos, o equivalente a mais de 1.500 euros). Num dos grupos há uma número identificado com o nome de Crivella e um dos funcionários, que falou sob anonimato, confirmou tratar-se do próprio prefeito. Contactada pela reportagem da Globo, a prefeitura do Rio não negou a criação dos grupos, mas disse que eles existem “para melhor informar a população”.

Já dizia Jobim: o Brasil não é para principiantes

Portanto, 350 funcionários, quase todos a ganharem na casa dos 3/4 mil reais, um deles a ganhar mais de 10 mil, todos pagos com dinheiro público para defender a prefeitura.

Marcelo Crivella é um bispo evangélico, sobrinho de Edir Macedo, o líder da Igreja do Reino Universal de Deus, que foi ministro da Pesca e Aquicultura de Dilma Roussef, em 2012, e agora é muito próximo dos Bolsonaro. Há um ano enviou fiscais à Bienal do Livro do Rio para recolherem um livro de banda-desenhada que tem super-heróis homens a beijarem-se. Apesar de recusar se tratar de censura, antes “diálogos” que ofenderiam o Estatuto da Criança e do Adolescente, o prefeito viu a ação ser travada pelo Supremo Tribunal Federal.

Os dois casos, da suspeita de corrupção de Witzel e do uso de dinheiro público para a criação dos “guardiões de Crivella”, são duas bombas que atingiram as duas maiores instâncias governativas do Rio estado e cidade. E convém recordar que é preciso lê-los à luz de uma pandemia que ceifou a vida a milhares de pessoas no Rio de Janeiro. Que as queixas de falta de leitos ou medicamentos se multiplicaram, que hospitais de campanha foram prometidos e ou não entregues ou concluídos tarde e a más horas. Que, dados do início de Julho, se o Rio de Janeiro fosse um país seria o segundo do Mundo no que diz respeito ao número de mortes por Covid-19 por milhão de habitantes. Que o estado de emergência declarado se revelou, suspeita a Justiça brasileira, um verdadeiro regabofe de meter ao bolso dinheiro que deveria ter ajudado a salvar vidas.

Nas redes sociais e na comunicação social em geral, nos últimos dias, por causa de Witzel, de Crivella agora, mas também das suspeitas que recaem sobre a família do presidente Jair Bolsonaro, que é do Rio, e ao mesmo tempo sobre a recente subida da taxa de aprovação dele, Bolsonaro, numa sondagem do Datafolha atingindo mesmo o melhor resultado do mandato, muito se tem escrito e dito sobre a falta de inteligência do povo, sobretudo os cariocas, na hora de votar. “O povo é burro” ou “o Rio não sabe, definitivamente, votar” são apenas duas das sentenças ditadas. E, realmente, numa leitura superficial e imediatista fica bastante fácil apontar o dedo a quem vota num Witzel e Crivella da vida ou olha para um presidente com a atuação de Bolsonaro. Mas depois chega Eliane Brum e escreve o texto que escreveu no dia 19 de Agosto no El País. Ela olha para onde nos esquecemos tantas vezes de olhar, para o mais básico. Na entrada, escreve: No país em que a maioria da população é reduzida à sobrevivência, quem são afinal os burros e mal-informados?

O que li nos caracteres que lhe seguem, a propósito da tal pesquisa do Datafolha em que 47% dos brasileiros consideram que Bolsonaro não tem culpa pelas 100 mil mortes por Covid-19, deixou-me uma sensação muito viva que o meu olhar sobre o Brasil ainda é muito europeu, incapaz de passar para palavras um raio-x tão certeiro ou chegar sequer a tal diagnóstico.

“Grande parte da população brasileira vive apenas o dia de hoje. Para a maioria, o mês seguinte já é longe demais. A ideia de futuro é considerada um privilégio dos mais ricos, e este é um dado muito importante, porque emancipação política só é possível com pessoas que têm acesso à ideia de futuro. Quando o futuro se torna um privilégio dos mais ricos, e não um direito assegurado a todos, a maioria é condenada ao presente. E o presente é movido por comer ou não comer, ter um lugar para dormir ou ser despejado, manter-se respirando.”

Não se trata de desculpabilizar, antes procurar entender, olhar mais fundo, enquadrar.

Já dizia Jobim: o Brasil não é para principiantes.

*Jornalista

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website