
No “País tropical, abençoado por Deus” o Rio de Janeiro estava na primeira fila quando foi distribuída a beleza. É difícil rebater, mesmo para quem, como eu, ama Salvador da Bahia: o Rio é uma beleza (“mas que beleza”, voltando a Jorge Ben Jor). E depois, para além de belo, o Rio ainda tem aquele gingar feito de samba, cerveja gelada e praia. Aqueles sorrisos rasgados dos moleques, a música e os botecos. Enfim, em bom português daqui: o Rio é foda. Mas é no duplo sentido que essa palavra traz que as coisas começam a complicar-se.
A beleza quase nunca dura para sempre, mais ainda quando brincamos constantemente com o fogo. E é precisamente isso que parece que quem é eleito e quem elege têm feito continuamente, ainda que com responsabilidades muito diferentes.
A última sexta-feira (28) acordou com uma operação policial no Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador, da qual Wilson Witzel saiu já com o título suspenso por 180 dias. As suspeitas são da já inevitável doença que parece, no Brasil, ser tanto ou mais contagiosa que a Covid-19: corrupção. Alegados esquemas espalhados pelas secretarias todas, dinheiro na conta da mulher que levanta muitas suspeitas e Witzel é o sexto governador do estado do Rio de Janeiro a ser investigado por corrupção.
Nos últimos quatro anos cinco ex-governadores do Rio de Janeiro foram presos.
Witzel é um ex-magistrado, advogado, um cometa que apareceu ao colo dos Bolsonaro e ganhou a última eleição desfraldando as bandeiras do combate ao crime e, claro, à corrupção. O homem da “mira na cabecinha e… Fogo” viu o tiro sair-lhe pela culatra e, quando até se chegou a falar numa possível candidatura presidencial no futuro terá agora de lutar para se manter vivo em termos políticos.
Para além do suspenso governador, a investigação de corrupção em contratos públicos de saúde incidiu, entre outros, sob o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, André Ciciliano (do PT) e o famoso Pastor Everaldo. Se lhe disser que Everaldo é o líder nacional do Partido Social Cristão duvidará da minha classificação de famoso, mas quem não se lembra do batismo de Jair Bolsonaro no Rio Jordão? O Pastor Everaldo foi quem amparou o mergulho de costas. E também foi, juntamente com os Bolsonaro, um dos grandes responsáveis pela eleição de Witzel.
Se no Governo do Estado as coisas estão assim, na prefeitura, o equivalente à Câmara Municipal portuguesa, o cenário é igualmente desolador.
Uma reportagem da Globo revelou esta segunda-feira (31) os “Guardiões de Crivella”. Apesar do tom épico o caso tem muito mais de vergonhoso e insano que outra coisa. A prefeitura do Rio de Janeiro usa funcionários públicos para boicotar reportagens e impedir a população de se queixar de problemas na Saúde. Através de grupos reunidos no Whatsapp, os funcionários são distribuídos, em duplas, pelos hospitais municipais onde cumprem um rigoroso horário, marcam o ponto com selfies e fazem o que lhes mandam: impedem os jornalistas de reportar e os cidadãos de dar opinião ou denunciar o que quer que seja.
Ao todo, somando três grupos que a reportagem descobriu, estamos a falar de 350 (!) funcionários. O coordenador dos “guardiões” do prefeito é um pastor, amigo de Crivella, que ganha de salário mais de 10 mil reais (ou seja, 10 salários mínimos, o equivalente a mais de 1.500 euros). Num dos grupos há uma número identificado com o nome de Crivella e um dos funcionários, que falou sob anonimato, confirmou tratar-se do próprio prefeito. Contactada pela reportagem da Globo, a prefeitura do Rio não negou a criação dos grupos, mas disse que eles existem “para melhor informar a população”.
Já dizia Jobim: o Brasil não é para principiantes
Portanto, 350 funcionários, quase todos a ganharem na casa dos 3/4 mil reais, um deles a ganhar mais de 10 mil, todos pagos com dinheiro público para defender a prefeitura.
Marcelo Crivella é um bispo evangélico, sobrinho de Edir Macedo, o líder da Igreja do Reino Universal de Deus, que foi ministro da Pesca e Aquicultura de Dilma Roussef, em 2012, e agora é muito próximo dos Bolsonaro. Há um ano enviou fiscais à Bienal do Livro do Rio para recolherem um livro de banda-desenhada que tem super-heróis homens a beijarem-se. Apesar de recusar se tratar de censura, antes “diálogos” que ofenderiam o Estatuto da Criança e do Adolescente, o prefeito viu a ação ser travada pelo Supremo Tribunal Federal.
Os dois casos, da suspeita de corrupção de Witzel e do uso de dinheiro público para a criação dos “guardiões de Crivella”, são duas bombas que atingiram as duas maiores instâncias governativas do Rio estado e cidade. E convém recordar que é preciso lê-los à luz de uma pandemia que ceifou a vida a milhares de pessoas no Rio de Janeiro. Que as queixas de falta de leitos ou medicamentos se multiplicaram, que hospitais de campanha foram prometidos e ou não entregues ou concluídos tarde e a más horas. Que, dados do início de Julho, se o Rio de Janeiro fosse um país seria o segundo do Mundo no que diz respeito ao número de mortes por Covid-19 por milhão de habitantes. Que o estado de emergência declarado se revelou, suspeita a Justiça brasileira, um verdadeiro regabofe de meter ao bolso dinheiro que deveria ter ajudado a salvar vidas.
Nas redes sociais e na comunicação social em geral, nos últimos dias, por causa de Witzel, de Crivella agora, mas também das suspeitas que recaem sobre a família do presidente Jair Bolsonaro, que é do Rio, e ao mesmo tempo sobre a recente subida da taxa de aprovação dele, Bolsonaro, numa sondagem do Datafolha atingindo mesmo o melhor resultado do mandato, muito se tem escrito e dito sobre a falta de inteligência do povo, sobretudo os cariocas, na hora de votar. “O povo é burro” ou “o Rio não sabe, definitivamente, votar” são apenas duas das sentenças ditadas. E, realmente, numa leitura superficial e imediatista fica bastante fácil apontar o dedo a quem vota num Witzel e Crivella da vida ou olha para um presidente com a atuação de Bolsonaro. Mas depois chega Eliane Brum e escreve o texto que escreveu no dia 19 de Agosto no El País. Ela olha para onde nos esquecemos tantas vezes de olhar, para o mais básico. Na entrada, escreve: No país em que a maioria da população é reduzida à sobrevivência, quem são afinal os burros e mal-informados?
O que li nos caracteres que lhe seguem, a propósito da tal pesquisa do Datafolha em que 47% dos brasileiros consideram que Bolsonaro não tem culpa pelas 100 mil mortes por Covid-19, deixou-me uma sensação muito viva que o meu olhar sobre o Brasil ainda é muito europeu, incapaz de passar para palavras um raio-x tão certeiro ou chegar sequer a tal diagnóstico.
“Grande parte da população brasileira vive apenas o dia de hoje. Para a maioria, o mês seguinte já é longe demais. A ideia de futuro é considerada um privilégio dos mais ricos, e este é um dado muito importante, porque emancipação política só é possível com pessoas que têm acesso à ideia de futuro. Quando o futuro se torna um privilégio dos mais ricos, e não um direito assegurado a todos, a maioria é condenada ao presente. E o presente é movido por comer ou não comer, ter um lugar para dormir ou ser despejado, manter-se respirando.”
Não se trata de desculpabilizar, antes procurar entender, olhar mais fundo, enquadrar.
Já dizia Jobim: o Brasil não é para principiantes.
*Jornalista