A explosão em Beirute foi acidente ou foi bomba? - Plataforma Media

A explosão em Beirute foi acidente ou foi bomba?

Alguém consegue explicar as explosões no porto de Beirute? Pelo que leio nos sites dos jornais e pelo que vejo nas televisões, há mais de 48 horas, concluo que não, não há uma explicação clara capaz de nos fazer compreender o que provocou a morte de, pelo menos, 150 pessoas, que feriu mais de cinco mil indivíduos e que destruiu as casas dos, agora, 300 mil desalojados da capital do Líbano.

Há uma quase unanimidade em explicar a dimensão e brutalidade das explosões de 4 de agosto passado com a existência de 2750 toneladas de nitrato de amónio, depositados em armazéns sem cuidados de segurança essenciais e que, sob a ação de uma fonte de calor, se teriam transformado numa bomba potentíssima, capaz de provocar um abalo sísmico de 3,5 na escala de Richter.

Vou, embora hesitante, aceitar sem crítica esta versão oficial para a tragédia, mas ela provoca uma pergunta para a qual não encontro, em lado algum, uma resposta satisfatória: qual foi, afinal, a fonte de calor que provocou a ignição do nitrato de amónio?

Foi alvitrada a hipótese de a temperatura ambiente ter, por si só, sido suficientemente alta para ter deflagrado uma chama fortuita, que acabaria por chegar ao nitrato de amónio. Não quero descartar essa hipótese, claro, mas parece-me muito difícil isso acontecer.

Poderemos também admitir um acidente qualquer: uma chama ligada ou esquecida algures, uma máquina de soldar, por exemplo, a queimar algo que, por sua vez, incendiava o armazém onde estava o nitrato de amónio… Mas até agora nada aponta para uma conjetura desse tipo e fontes de ignição dessas parecem-me demasiado fracas para provocarem explosões daquela dimensão, mesmo numa sequência de “azares” improváveis.

Não sendo por motivos ambientais ou por acidente, resta a hipótese de a chama que provocou a tragédia de Beirute ter sido intencionalmente provocada. É possível?

Um jornalista norte-americano é perentório: “Israel bombardeou Beirute” titula ele nesta peça em inglês onde cita alegadas fontes dos serviços secretos de Israel para sustentar a notícia.

Richard Silverstein não esconde o seu alinhamento político em favor de uma solução no Médio Oriente que compatibilize a existência dos estados de Israel e da Palestina, mas é um habitual crítico das posições de Telavive. Também é um jornalista com longo e extenso currículo na cobertura e no estudo académico destes assuntos, a quem grandes jornais norte-americanos como o New York Times ou o Los Angeles Times deram credibilidade suficiente para aceitar publicar matérias escritas por ele.

Feitas as devidas ressalvas, qual é, então, a tese deste homem? Basicamente seria a de que um ataque preparado pelos serviços secretos de Israel a um depósito de armas do Hezbollah, armazenadas num local do porto de Beirute, perto da zona onde estava o nitrato de potássio, provocou uma explosão que, involuntariamente, acabou por atingir o armazém onde se encontrava o produto químico.

O Líbano (onde o Hezbollah é membro da coligação governamental) é uma zona cronicamente atacada por israelitas, pelo que esta alegação não é desprovida de sentido.

Acontece que, como explicação para a tragédia de Beirute, se tiver de me inclinar entre a hipótese do acidente ou do calor de um lado com, do outro lado, a hipótese de uma missão de “comandos” que correu mal, tenho a tendência para admitir, dado o historial da região, como sendo mais provável ter acontecido o suposto ataque israelita… mas não tenho certeza alguma, desconfio sempre de teorias da conspiração e acho que só nos resta ter esperança de que nos próximos dias acabaremos por saber mais e melhor.

Face a estas perplexidades todas, qual é, então, o meu ponto? É este: qualquer grande acontecimento com impacto mundial é sujeito a inúmeras tentativas de manipulação de informação e, por isso, depois das notícias de primeiro relato que correm mundo em milissegundos, úteis mas fatalmente limitadas e condicionadas, teremos sempre de esperar por uma segunda vaga jornalística, elaborada com mais tempo, mais contactos, mais contraditório, mais detalhe, mais perguntas, mais documentação e mais análise para encontrarmos peças que, verdadeiramente, nos aproximem da verdade que tanto desejamos alcançar.

Conclusão: o jornalismo “fast food” é necessário mas é insuficiente.

*Jornalista – Portugal

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