As 'photoshopadas' no Fotojornalismo - Plataforma Media

As ‘photoshopadas’ no Fotojornalismo

A história já é velha, mas merece não ficar esquecida. Infelizmente, é frequente ver, nos dias que correm, fotografias jornalísticas completamente adulteradas. Já nem falo em fotógrafos que tiram ou acrescentam elementos à composição da imagem. Isso é totalmente inadmissível. Refiro-me ao abuso de pós-produção em programas de edição.

Com a pandemia de Covid-19, tenho visto milhares de fotografias oriundas de todo o mundo. Há imagens fantásticas e outras menos boas, como é normal. E depois há as excessivamente editadas para acrescentar luzes que não existem. Para retirar luz que existe. Para criar mais impacto. Para dramatizar ainda mais o assunto. Enfim, uma panóplia de razões deve levar os fotojornalistas (?), alguns deles consagrados, a fazer tais tipos de edição.

Engraçado é ver que quando o fotojornalista é pouco ou nada conhecido mundialmente, a foto fica sempre “excessivamente editada”, “cheia de vinhetagem”, “demasiado contrastada” ou “estupidamente colorida”. Mas se à foto estiver ligado um nome famoso, é frequente ver adjetivos como “brutal” e “fantástica”, tipo “grande malha”. Dois pesos e duas medidas, portanto.

O fotojornalismo e a fotografia documental devem produzir documentos o mais reais possível. O que importa é o facto, a notícia. Se está sol, está sol, não está céu encoberto. Se a sombra está contrastada, é porque possivelmente a fotografia foi captada numa determinada hora do dia. Por favor, não se mude a realidade.

Com os fantásticos ficheiros .raw (ficheiro em bruto) que muitas das máquinas produzem hoje em dia, é tudo muito facilmente adulterado. Posso, com relativa facilidade, meter um céu que ficou branco ou cinzento, com um tom mais azulado. E por aí fora. São inúmeras as possibilidades para mexer num ficheiro de fotografia em bruto.

Fotojornalismo é factual. É o que é e não é nada que sirva apenas para um qualquer júri de um qualquer concurso ver uma imagem do outro mundo, quando na verdade, o que o fotojornalismo tem de fazer é mostrar imagens deste mundo

Nos últimos anos, o World Press Photo tem-se visto envolto em algumas polémicas relacionadas com as fotos vencedoras. Em 2013, por exemplo, muitos foram os que questionaram a foto vencedora da autoria de Paul Hansen. A imagem mostra um funeral de duas crianças na faixa de Gaza, em que as pessoas as carregam e andam por uma rua. O fotógrafo tinha condições péssimas para trabalhar, uma vez que estaria a andar para trás enquanto fotografava aquele momento. As sombras e as luzes ali mostradas a posteriori não se coadunam com a luz à hora a que a fotografia foi captada.

A cena é angustiante, um grande momento de fotojornalismo. Mas a forma como Paul Hansen decidiu editar a fotografia pode ser sempre questionável. A primeira vez que vi a foto pareceu-me logo uma pintura. A fotografia foi exageradamente ‘photoshopada’ para aumentar o impacto dramático da mesma. Em fotografia de moda, produção ou arte digital esse tipo de soluções são comuns e aceitáveis, mas no fotojornalismo não. É ridículo e constrangedor, a meu ver. Paul Hansen, aliás, acabou por se ver envolvido noutras polémicas depois disso.

Mas o problema não nasce, nem morre em Paul Hansen. Steve McCurry, um dos meus gurus da fotografia, também de viu envolvido em questões de alteração de composição das suas imagens com retirada de elementos, quiçá para deixar a fotografia mais bonita ou limpa, na busca da foto perfeita. Com uma vida inteira dedicada ao fotojornalismo e documentalismo, McCurry explicou, na altura, que há muito não fazia fotojornalismo, quando na verdade as suas fotografias eram constantemente publicadas em órgãos de comunicação social. Se não é fotojornalismo, não sei o que será. Ficou mal na fotografia o autor e, com isso, perdeu bastantes seguidores que adoravam o seu trabalho desde a famosa Sharbat Gula, a criança afegã.

Muitos são os que defendem que não é apenas no digital que se fazem ‘coisas’ às fotografias. Essas ‘coisas’ também são possíveis no analógico. Agora, simplesmente tornou-se tudo mais fácil.

Chamem-me puritano, ultrapassado, rezingão, o que quiserem. Mas não posso aceitar que se mude a realidade tal e qual a vimos através da lente, ao ponto em que essa realidade passe a ser vista como uma obra de arte. Uma coisa são pontos de vista, técnicas ou sensibilidades. Fotojornalismo não é arte, apesar de ser precisa arte e engenho para o fazer bem. Fotojornalismo é factual. É o que é e não é nada que sirva apenas para um qualquer júri de um qualquer concurso ver uma imagem do outro mundo, quando na verdade, o que o fotojornalismo tem de fazer é mostrar imagens deste mundo.

*Editor do canal português do Plataforma

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