A sedução dos jovens ao terror é o maior perigo em Cabo Delgado - Plataforma Media

A sedução dos jovens ao terror é o maior perigo em Cabo Delgado

O inferno na terra é o que o terrorismo islâmico tem semeado em Cabo Delgado, província rica em gás natural no norte de Moçambique, perante a apatia e a demora em intervir de uma série de organizações e países, da ONU à CPLP, de Portugal à África do Sul ou Estados Unidos. Os grupos terroristas, seja realmente o Daesh ou satélites locais como o Al Shabbaab, estão a usar a versão mais extremista do Islão, usam facas e catanas, cabelo rapado e barba grande, para impor a jihad, a guerra santa, como arma de destruição massiva a coberto de interesses que serão tudo menos simplesmente religiosos. Incendeiam e decapitam, tal como na Síria. Para espalharem o seu reinado naquelas terras precisam de recrutar jovens. É o que tem alimentado estas milícias, seja em Cabo Delgado, na Líbia, Síria ou Sudão.

Uma das últimas incursões dos jihadistas para recrutar, na aldeia de Xitati,  Cabo Delgado, resultou na decapitação de 52 jovens que se recusaram a colaborar com os terroristas. Mas quando a adesão da juventude é voluntária e pacífica é preciso entender como acontece a sedução e é aí que os radicais islâmicos estão muitos passos à frente, porque no Ocidente ainda não descodificámos esse processo.

E é no ataque a estas causas que o principal responsável só pode ser mesmo o governo de Moçambique liderado por Filipe Nyusi

Rodado na ilha de Moçambique, o documentário “Entre eu e Deus” , realizado por Yara Costa (estreou em Moçambique em 2018, passou no Doc Lisboa nesse ano e já foi transmitido pela RTP) ajuda-nos a compreender a radicalização voluntária através do olhar de uma jovem muçulmana, Karen, que não preenche qualquer estereotipo. É estudante universitária de Engenharia Civil, cresceu numa família muçulmana moderada, e foi por sua iniciativa que abraçou o Islão mais radical.

Numa entrevista à DW, a realizadora Yara Costa falou na altura dos ataques em Cabo Delgado e em como a radicalização acontece ali num terreno fértil, onde os jovens são vulneráveis por falta de alternativas. “Qual é o futuro dos jovens hoje em Mocímboa da Praia ou em Palma? Talvez criando alternativas para coisas que os desviem do dinheiro mais fácil, imediato, que se calhar pode ser obtido através desse tipo de ações mais violentas. Essas pessoas não são militares ou gente altamente treinada, que vem de fora. São pessoas dali, que sempre viveram ali e com carências materiais muito grandes. E então, se alguma coisa é feita no sentido de suprir essas carências, e de dar uma chance a esses jovens, talvez o crime não viesse a ser uma aposta para eles”.

E é no ataque a estas causas que o principal responsável só pode ser mesmo o governo de Moçambique liderado por Filipe Nyusi. Porque tem concedido às grandes multinacionais internacionais a concessão dos projetos de gás natural na região permitindo que as populações continuem a viver na maior pobreza.

*Jornalista do Plataforma

Este artigo está disponível em: English

Artigos relacionados
MoçambiquePolítica

Cabo Delgado: "UE tem prioridades mais importantes na segurança em África"

MoçambiquePolítica

Nyusi diz que o país enfrenta "uma versão de guerra" diferente em Cabo Delgado

MoçambiqueSociedade

Ajuda urgente para Moçambique: ONU pede 4,7 milhões para socorrer vítimas de conflitos

MoçambiquePolítica

Nyusi apela na ONU à cooperação internacional para enfrentar terroristas em Cabo Delgado

Assine nossa Newsletter