“Diversificação económica requer mais recursos humanos qualificados do exterior” - Plataforma Media

“Diversificação económica requer mais recursos humanos qualificados do exterior”

Morris Liu salienta que a crise do coronavírus acentua a necessidade de Macau diversificar a economia, mas tal só será viável  com capital humano mais qualificado, defende o professor na Universidade de Macau. 

Especialista em padrões de contabilidade empresarial, Morris Liu olha com interesse para o desenvolvimento de novos serviços financeiros em Macau, com destaque para a locação financeira e, dentro de alguns anos, de uma bolsa denominada em renminbi. Para dar esses passos, importantes rumo à diversificação moderada da economia, é necessário trazer para a cidade mais quadros do exterior altamente qualificados e formação interna de recursos humanos, argumenta o Professor na Faculdade de Gestão de Empresas da Universidade de Macau (UM). A ligação com os Países de Língua Portuguesa é estratégica. 

– Podemos já ter uma estimativa razoável sobre o impacto que a atual crise terá nas economias da China e Macau?

Morris Liu – O impacto nas economias da China Continental e Macau será significativo no curto-prazo. O coronavírus teve origem na China continental e atingiu diretamente o sentimento. Embora Macau tenha lidado com a crise até agora muito bem, graças à liderança do Governo, prevejo que Macau provavelmente registe uma quebra acentuada do Produto Interno Bruto (PIB), provavelmente ainda mais grave do que na China continental e Hong Kong, na primeira metade de 2020. Isto deve-se naturalmente ao facto de Macau depender fortemente do desempenho económico da China continental, além de que a indústria do jogo e turismo não poderá sobreviver efetivamente sem a presença física dos visitantes.  Espera-se que esta crise possa funcionar como uma lição para a China Continental e Macau. No longo-prazo, espera-se que a China Continental possa melhorar a gestão de risco e que Macau possa diversificar a sua economia.  

– O Governo de Macau lançou um pacote de ajuda e incentivos. O que mais poderia ser feito para apoiar as PME e os cidadãos?

M. L. – As medidas de alívio são mais para o curto-prazo, que são importantes no momento. Temos ótimas estratégias, com a Grande Baía (GBA) e “Um Centro, Uma Plataforma, Uma Base “, que também são exequíveis. Mas como implementar bem essas estratégias? Que papel Macau  – Pequenas e Médias Empresas (PME) e cidadãos – pode realisticamente desempenhar nessas estratégias? O Governo de Macau pode pensar em ajudar os cidadãos e PME a estarem mais preparados para essas estratégias.

– A economia de Macau depende fortemente de turistas chineses do continente. Como lidar com esse fator chave?

M. L. – É uma realidade de hoje em dia e continuará a sê-lo nos próximos anos. 

Macau tem sido um destino atraente para turistas internacionais há muito tempo e pode fazer mais nesse aspeto.   

Para apostar noutras área que não o turismo, Macau pode pensar em desenvolver a plataforma económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Para conseguir isso, as intuições de ensino superior locais, como a Universidade de Macau, podem desempenhar um grande papel na formação de talentos em áreas como gestão de negócios, enquanto a Área da Grande Baía de Guangdong-Hong Kong-Macau (GBA) pode fornecer recursos que Macau não tem de momento, tendo a vizinha ilha de Hengqin, uma boa resposta para terrenos e instalações de última geração.

– Ao nível da diversificação, nos últimos meses ganhou força o projeto de criação de novos serviços financeiros. Como encara essa ideia de ser lançado um centro financeiro aqui?  

M. L. – Macau não tem feito muito a este nível, havendo um grande potencial de desenvolvimento destes serviços. Temos os bons exemplos de Hong Kong, Xangai e Shenzhen. Macau precisa de encontrar nichos, como por exemplo na ligação entre a China Continental e os Países de Língua Portuguesa, no âmbito de serviços financeiros não tradicionais. Normalmente, para trazer duas partes para um negocio usamos informação contabilística, baseada em padrões elevados. Por normal, nos países anglo-saxónicos, nos Estados Unidos e Reino Unido, há uma qualidade muito alta de padrões contabilísticos, o que não é o caso na China e em muitos PLP. 

Os serviços de locação financeira, que podem ser importantes, uma vez que neste tipo de transações financeiras temos duas partes, que têm conhecimento da indústria, do outro lado. Podem confiar no conhecimento da outra parte relativamente ao setor em que operam, além dos padrões contabilísticos. Estes serviços podem ser uma saída para Macau.

– E quanto ao plano de criar uma bolsa (mercado de capitais) denominada em renminbi em Macau? 

M. L. – Penso que tem um bom potencial em Macau. Ainda recentemente os EUA reconheceram que a China não é uma manipulador de moeda. O renminbi vai ser ainda mais popular a nível mundial. Macau tem as suas vantagens, em comparação com outras cidades na China continental, em virtude da política “Um País Dois Sistemas”. Concordo com o Chefe do Executivo. Macau ainda não está verdadeiramente preparada para esse passo, levará cinco ou dez anos, uma vez que não temos a infraestrutura necessária.

– O que Macau precisa? 

M. L. – Capital humano, enquadramento legal, quadros  altamente especializados em cumprimento e conformidade com as leis (compliance) e conhecimento dos mercados.

– Que tipo de empresas estariam interessadas em estar listadas numa bolsa em Macau? 

M. L. – Diferentes tipos de empresas. Temos empresas do jogo altamente desenvolvidas. Poderiam estar interessadas. Outra possibilidade são firmas que já estão listadas noutras bolsas, estando já com sólidos mecanismos de governação e contabilísticos.  Na Grande Baía temos muitas empresas de dimensão, ao mesmo tempo que a bolsa de Hong Kong não tem quotas suficientes para o número de empresas interessadas, pelo que Macau poderia ser uma boa opção.  Para empresas chinesas que operam nos PLP, estar numa bolsa em Macau poderia ser interessante, tendo em conta as leis e a cultura semelhantes.  

– Falava há pouco da questão de capital humano. Macau terá os recursos humanos para concretizar o desiderato de uma diversificação económica moderada? 

– M. L.  De momento diria que não estou certo que tenhamos. Tendo em conta o papel dominante da indústria do jogo, não temos outros setores muito desenvolvidos. Para o termos sucesso ao nível a diversificação económica, precisamos de recursos humanos qualificados de fora, da Grande Baía e de outros países. Não temos profissionais qualificados em número suficiente no setor financeiro. Precisamos também de mais mão-de-obra qualificada no ensino.

– O sistema de educação local também terá de fazer ajustes para responder a esse objetivo de diversificação… 

M. L.  Sim. O Governo já reconheceu essa necessidade de reforma e desenvolvimento do sistema educativo. O Governo tem apostado no ensino bilingue (chinês-português). Quanto ao futuro temos de ter a mente aberta e ser realistas. Temos a Iniciativa Faixa e Rota e o plano da Grande Baía. Macau tem vantagens especiais, tendo em conta a história das relações com Portugal, por isso foi criada a plataforma sino-lusófona. Simultaneamente, o interesse da população local pela língua portuguesa aumentou mas diria que ainda não é suficiente.  

– No verão passado, esteve na Universidade de Coimbra para uma missão apoiada pela Direção dos Serviços do Ensino Superior (DSES). O que retirou dessas experiência?

M. L. –Foi algo de muito enriquecedor. Nesse período conheci especialistas em contabilidade e pensei em levar a cabo ações de cooperação com esses professores. Para que Macau possa fortalecer o papel de plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa, é importante que haja um conhecimento mútuo entre as diferentes partes. Além da aprendizagem da língua, no mundo dos negócios, a línguagem é a contabilidade. Diferentes partes do mundo usam linguagens contabilísticas e padrões próprias. Planeio realizar projetos de investigação em conjunto com professores na Universidade de Coimbra, no âmbito dos estudos comparativos entre a China e Portugal.  

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