Massa crítica - Plataforma Media

Massa crítica

Há poucos dias, na XXIII edição da Feira Internacional de Macau (MIF,  na sigla inglesa) um dos convidados comentava em privado a propósito de uma hipotética ligação aérea direta entre Macau e Lisboa:

– Macau não tem massa crítica!

De facto, todos sabemos da demografia e da geografia de Macau – cerca de 650 mil pessoas habitam em 31 Km2. Mas Macau transcende-se. Não se limita ao seu espaço territorial nem às pessoas que a habitam hoje. Não deve ser percebido apenas por aquelas características. As primeiras impressões podem ser ilusórias.

A questão da massa crítica remete-nos para uma noção de escala, que assegure a viabilidade de uma “empresa”, no sentido lato do termo.

Macau, per se, poderá não ter dimensão para sustentar certos projetos de forma isolada. Mas, se em vez de a olharmos com uma lupa ou microscópio, nos distanciarmos e a interpretarmos vendo-a, por exemplo, partir de uma foto de satélite, o caso tende a mudar de figura.

Embora o satélite não o mostre, Macau há muito passou a perna a Las Vegas, a antiga capital mundial do jogo nos Estados Unidos. Mas isto já não é notícia. É um dado adquirido, porventura não devidamente valorizado. Notícia será o facto de Macau ter sido em 2017 a segunda cidade turística que mais cresceu, com um contributo do turismo para o PIB na ordem dos 14,2%, de acordo com o relatório anual das cidades do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, na sigla em inglês) recentemente divulgado. Sublinho, somos uma referência mundial.

Já a maior ponte marítima do mundo é algo que uma fotografia de satélite decerto mostrará, assim como o aeroporto internacional de Macau, o aeroporto internacional de Hong Kong, o aeroporto internacional de Shenzhen e o aeroporto Internacional de Guangzhou, além do aeroporto de Zhuhai.

– Macau não tem massa crítica! 

Mas tem massa. Perdão, tem músculo financeiro. E tem acesso facilitado do ponto de vista logístico e infra estrutural a um mercado de 67 milhões de pessoas na região da Grande Baía que ocupa 56.000 Km2 e gera um PIB equivalente ao da Coreia do Sul.

– Macau não tem massa crítica!

Mas dizem os críticos, tem excelentes hotéis e restaurantes que servem ótima massa, essa fantástica invenção e enorme contributo culinário Chinês com 4 mil anos, além de outras iguarias, com ou sem estrelas Michelin. No conceito de bleisure (business + leisure), Macau tem uma posição impar que complementa muito bem a lógica comercial e cultural de interface turístico.

– Macau não tem massa crítica!

Mas é crítico para Macau posicionar o seu aeroporto internacional vis-a-vis os outros aeroportos da região através de uma estratégia sustentada que vá para além da mera conveniência que oferece à sua população e do vai-e-vem de jogadores da China continental. Na semana passada, a deputada Agnes Lam levantou precisamente a questão do papel do aeroporto no quadro geral da abertura da ponte Macau-Zhuhai-Hong Kong, interpelando o Governo de forma escrita.

Além do pilar central do Gaming & Entertainment, o papel de plataforma com os países de língua portuguesa assume grande importância estratégica pois permite a criação de um eixo de competitividade único, distintivo, durável e alinhado politicamente com os objetivos de longo prazo da China. Onde é que eu já ouvi isto?

Neste quadro, a existência de um voo direto entre Macau e Lisboa afigura-se como uma expressão óbvia desse desígnio de Macau. Essa ligação aérea permitirá que estas duas cidades cimentem o seu papel central nesta rede sino-lusófona. Lisboa com as suas excelentes ligações às capitais de todos os países africanos de língua portuguesa e ao Brasil, promessa adiada de grande potência, e que tem a China como seu principal parceiro comercial. Macau, por seu lado, com ligações aéreas às principais cidades Chinesas e como porta de entrada privilegiada para a região da Grande Baía, agora ainda mais com a abertura da nova ponte.

Somos pequenos? Pensemos em grande.

Responsáveis da Air Macau e da TAP, puxem pela cabeça, façam contas, sentem-se à mesa. Desenvolvam uma parceria e materializem este papel de Macau no contexto geopolítico e estratégico dos 9 países envolvidos.

Chegámos à fase crítica. Agora é meter a mão na massa! 

João Rato* 02.11.2018

*Gestor

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