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O barulho do silêncio

Eleições à porta, a política está trancada a sete chaves. Há candidatos – e muitos… mas andam calados, sem ordem para existir; há reuniões, discursos e entrevistas, mas ninguém tem nada a dizer. A autocensura é assumida. A Comissão Eleitoral distorce o sentido da lei, impondo a eleição da rolha. Em todo o mundo, as restrições do período eleitoral existem em nome da  igualdade e do espaço público. Há um tempo próprio para comícios, cartazes, tempos de antena… mas não para a crítica, a projeção de ideias, sonhos e vontades. Cortar o pio aos políticos, em ano de eleições, é enterrar a liberdade que faz a diferença em Macau. Mais do que um erro, é contraproducente. O silêncio incomoda, faz barulho, dá que pensar….  

Um casal, dois amigos, pais e filhos… sentam-se no sofá, olham para a televisão, para o telemóvel, para dentro de si mesmos. Não há nada a dizer; não há espaço, direito nem vontade. Há quem mande e quem obedeça; há sobretudo tensão, implosão emocional iminente. Parece estar tudo bem, finge-se harmonia social e coesão familiar. Mas está tudo mal. A paz é podre e arde em lume brando; um dia pode explodir. É apenas uma imagem. 

Em vez de exaltar a liberdade, mostrar ao mundo essa vontade, Macau tece o medo e a contrição. Cala a política sem ganhar nada com isso. Andamos nós a dizer que aqui não há censura, que os livros se publicam, que os jornais não se calam.. e amordaçam os candidatos. A cidade comenta à boca pequena, consciente de que o tema é sensível. Ou seja, provoca-se aquilo que era suposto evitar. Não há harmonia; há panela de pressão.

A terra está à muito rendida à Mãe-Pátria – até no bom sentido. A Assembleia Legislativa é uma mera câmara de ressonância e os deputados eleitos, sendo em si uma minoria, são na maioria pró-sistema. Não faz sentido nem cumpre qualquer utilidade tapar a válvula de escape. Antes pelo contrário; traz dúvidas e inquietação. 

Em muitos sectores – na justiça isso é claro – há hoje uma mania de interpretação por parte de quem vê na lei o que não está lá escrito, sujeitando o primado da lei à ditadura da sua interpretação. A verdadeira questão é só uma: ou essa gente está enganada, e tem de ser travada; ou a nova ordem dá-lhes razão e poder. Aí temos um problema, que vai dar que falar. 

Paulo Rego

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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