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O mérito da trumpalhada

A tese espalha-se; ecoa em Paris, Berlim, Bruxelas… está gravada nas mentes africanas e latino-americanas: Pequim é bem melhor do que Washington. A mais recente trumpalhada, no Médio Oriente e na Europa, foi mais uma vez clarificadora. O levantamento dos estados federais a favor da redução do carbono arrasa Trump internamente, mas a sua imagem externa é ainda pior. O mundo precisa de alianças e de entendimentos; contra o terrorismo, a xenofobia, a poluição… a favor do comércio livre e do multiculturalismo. E é na Ásia que estão os parceiros. E são os mais decisivos: China e Índia, incontornáveis na nova governação global.

Neste contexto, renasce o velho debate ideológico: de um lado, a democracia indiana – embora oligárquica e bloqueada pelo sistema de castas – que Neru desenvolveu com base nas matemáticas e nas engenharias, para além da ponte natural da língua inglesa; do outro, a economia socialista de mercado, que Deng Xiaoping abriu com uma revolução industrial tardia que arrasou a concorrência com capacidade de produção incansável e mão de obra infindável – que destruiu o ambiente – e uma extraordinária ambição comercial, para além da oferta de direitos económicos – negando os direitos políticos e as liberdades individuais. 

O debate é estimulante para a ciência política e até para a consciência humana. Mas a trumpalhada prova sobretudo que a geoestratégia não é feita de deuses e demónios. O pensamento moderno não se cose com redes messiânicas, mas sim com bom senso e sentido ético. 

É natural, e legítimo, que a filosofia ocidental defenda a democracia como o “pior de todos os sistemas, tirando todos os outros”. Faz sentido e não há mal nesse debate. Como é normal que Pequim e Nova Deli sorriam face a pseudo-democracias  que nada têm de perfeitas, que urdem farçadas políticas e alimentam monstros financeiros, e que enganam mais o povo do que o servem.

É da história da relatividade. O debate é saudável, para derrubar muros e não erguê-los. Xi Jinping e Narendra Modi vão dar as mãos a Merkel e Macron. Está escrito nos discursos. E isso é bom para todos. Até para os americanos, que cedo perceberão que estão do lado errado da História. 

Paulo Rego

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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