O recente dia 30 de maio foi o quinto dia do quinto mês do calendário lunar chinês, dia que é marcado pelo Festival dos Barcos-Dragão, um feriado em Macau e na China continental. Tendo ocorrido perto do fim de semana e proporcionado um pequeno período de três dias de folga, o festival trouxe a Macau mais turistas do que o habitual.
O Governo de Macau organizou mais uma vez uma competição internacional de barcos-dragão no Lago Nam Van, convidando várias equipas de outras regiões. O som dos tambores dos barcos-dragão encheu a zona do Lago Nam Van, e as suas águas foram ocupadas pelos atletas destemidos, remando vigorosamente em direção à reta final, juntando-se ainda o som dos aplausos e ovações dos inúmeros espetadores a torcer pelos atletas. Para além disso, na cidade é costume ter os vários tipos de zongzi como petisco tradicional no Festival dos Barcos-Dragão. Neste festival com 2,500 anos de história e uma profunda importância cultural, é tradição assistir às corridas dos barcos-dragão enquanto se come um saboroso zongzi.
Embora Macau possua uma comunidade mista de origem chinesa e estrangeira, são muitos os residentes de etnia chinesa oriundos de todas as zonas do país. A maioria provém de Guangdong, outros provêm de Fujian e Zhejiang, e os seus costumes não são completamente idênticos. Contudo, comum a todos está a celebração do poeta patriótico Qu Yuan durante este festival. Outros temas ligados ao festival incluem a celebração do verão, a mudança do clima e a guerra, estando o festival também associado à prevenção de acidentes, à prevenção de doenças, à proteção contra pragas e à purificação.
Lembro-me que na minha infância, para além de assistir às corridas de barcos e comer zongzi, era comum entre os rapazes pendurar ao peito sacos coloridos em forma de zongzi com ervas perfumadas, e à porta de casa era costume pendurar um ramo de açoro. A tradição de beber vinho de realgar, contudo, não era ainda algo em que nós crianças pudéssemos participar.
Embora ficássemos de fora no que diz respeito ao vinho, tínhamos o prazer de poder ouvir as histórias das três famílias do Reino Chu. Segundo reza história, Qu Yuan era ministro da esquerda do rei Huai (cargo oficial da altura), e devido à persuasão de outros membros da corte foi várias vezes despromovido ou expulso. Um dia, enquanto Qu Yuan passeava junto a um rio, um pescador perguntou-lhe o porquê de tal situação. Qu Yuan respondeu: “Todo o mundo é sujo e apenas eu sou limpo; todos os homens se encontram embriagados e apenas eu estou sóbrio”. O poeta acrescentou ainda: “Como posso eu deixar que a minha pureza seja coberta pela lama deste mundo sujo?” Depois de escrever “Huai Sha” (Abraçar a Areia), Qu Yuan, carregando consigo uma pedra pesada, cometeu suicídio atirando-se ao Rio Miluo. Qu Yuan era um excelente poeta, e o poema “Li Sao” (Encontrando a Tristeza), que escreveu em alturas de angústia e introspeção, foi extremamente admirado pelas gerações posteriores.
Na atual sociedade em constante mudança, embora se continue a celebrar o Festival dos Barcos-Dragão, o espírito e tradições do festival, como o patriotismo, a prevenção de acidentes, a prevenção de pragas e a purificação, são infelizmente esquecidos.
Petisco chinês feito com arroz glutinoso e embrulhado em folhas de bambu.
DAVID Chan