Dois terços da população de Timor-Leste têm menos de 25 anos e a voz dos jovens será, nas eleições presidenciais de segunda-feira, 20 de março, como nas legislativas de julho, um dos fatores determinantes. Especialmente porque nos votos deste ano participam pela primeira vez eleitores nascidos depois do fim da ocupação indonésia, que terminou em 1999. Uma fatia eleitoral cujo comportamento é ainda difícil de medir, mas que já terá grande impacto.
Para estes jovens, as lutas da guerrilha e da resistência estão cada vez mais longe. São uma população jovem cada vez mais dinâmica e urbana – particularmente na capital onde o número de habitantes cresce a grande velocidade – moldada pelos movimentos de estudantes e trabalhadores timorenses para o estrangeiro, que acrescentam novas dimensões à vida social e económica do país.
Apesar das dificuldades que muitos ainda sentem, Timor-Leste vive um intenso ritmo de crescimento com a capacidade financeira de muitos a crescer: rapidamente se passou da proliferação de motas para a de carros privados, com o parque habitacional a ser cada vez maior e de maior qualidade. O uso do telemóvel explodiu e os debates fazem-se no Facebook, com as instituições e as campanhas políticas a terem que se valer também desta ferramenta, o principal veículo de comunicação no país. Os timorenses viajam cada vez mais, tanto dentro do país como para fora, há milhares a estudar no estrangeiro e muitos já com salários relevantes na administração pública ou com projetos privados significativos.
Mudanças importantes num país onde, paralelamente, ainda se debatem pensões de veteranos, o reconhecimento que se deve dar a quem lutou pela libertação do país e onde vários dos líderes históricos continuam em posições de comando e liderança nacional. E onde as necessidades básicas continuam por ser satisfeitas para uma grande fatia da população.
Talvez por isso uma das linhas do debate da campanha eleitoral em curso – a que se apresentam oito candidatos (alguns independentes e outros apoiados por forças políticas) – seja a questão da transição geracional. Um debate que dura quase há tantos anos quantos os que distam da restauração da independência – 15 anos em 20 de maio – e que não terá, pelo menos para já, fim. Vários partidos e candidatos chamam a si a voz da juventude – Antonio da Conceição (apoiado pelo PD), António Maher Lopes (apoiado pelo PST) ou José Neves (independente) – ainda que nos comícios dos mais veteranos, como Francisco Guterres (Lu-Olo) haja sempre bastantes jovens, entre os militantes dos dois maiores partidos que o apoiam, a sua Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente (Fretilin) e o Congresso Nacional para a Reconstrução de Timor-Leste (CNRT) de Xanana Gusmão.
Este é um debate que não é necessariamente de agora mas que acaba por se tornar mais intenso por dois fatores importantes: a idade cada vez maior dos mais velhos – Xanana Gusmão já tem 70 anos, por exemplo – e a ideia, dos mais jovens, de que tem que se mudar de modelo, de forma de fazer as coisas. Por inevitabilidade os jovens vão entrando em posições de maior poder e influência e mesmo a dita geração meio perdida – a mais influenciada pela Indonésia – vai conseguindo alguns lugares de relevo, ainda que ‘apertados’ por uma onda de jovens com mais formação, mais mundo e mais exigências.
Mas se a transição geracional está em debate, o assunto que mais marca todo o processo eleitoral deste ano é o choque não dos jovens mas dos mais velhos, dos nomes mais sonantes da luta pela libertação de Timor-Leste. De um lado Xanana Gusmão e a Fretilin de Mari Alkatiri e do candidato presidencial Lu-Olo – unidos depois de desavenças profundas nos primeiros anos da independência. Do outro, os mais jovens Partido Democrático (PD) e Partido de Libertação do Povo (PLP), este último com um nome de peso que, de certa maneira, contribuiu para unir os outros dois (pelo menos contra si): o atual Presidente Taur Matan Ruak que, depois de 20 de maio, quando tomar posse o novo chefe de Estado, deverá começar a campanha para as legislativas.
Ainda que, formalmente, não se perceba ainda quem vão ser as figuras de topo no PLP, alguns dos seus militantes sugerem que o partido estará a apoiar o candidato do PD, Antonio da Conceição. Um apoio que não é de todo consensual. Mas que acaba por criar, ou pelo menos sugerir, uma grande frente de batalha: de um lado CNRT e Fretilin (os dois maiores partidos), do outro as forças mais recentes (PD e PLP), com cada um dos lados a somar o apoio de partidos minoritários.
Lu-Olo mostra-se convicto que o apoio dos dois maiores partidos é claramente suficiente para vencer e para que, ao contrário do que aconteceu quando se apresentou em 2007 e 2012 desta vez vença logo à primeira volta, mesmo com o apoio além do PD dado a Conceição (atual ministro da Educação). Se isso não acontecer e a olhar para o leque de candidatos, a vitória de Lu-Olo pode mesmo estar em risco numa segunda volta. Não há qualquer indicação, pelo menos até ao momento, de que qualquer dos restantes candidatos apoiaria Lu-Olo pelo que se torna difícil de perceber onde iria buscar os votos adicionais necessários para ultrapassar a barreira dos 50 por cento que garante a eleição.
Dúvidas que só se começam a esclarecer depois de 20 de março. O escrutínio provisório dos resultados deverá estar concluído entre 23 e 25 de março. Estão registadas para votar 747,252 pessoas residentes em Timor-Leste, 853 residentes na Austrália e 479 residentes em Portugal, segundo informou o Secretariado Técnico da Administração Eleitoral (STAE). As eleições presidenciais deverão ter 941 mesas de voto em 693 centros de votação, o que obrigará à contração de mais de 10 mil funcionários para acompanhamento eleitoral.
Números cruciais para o voto presidencial mas que acabam por ser indicadores do que esperar em julho nas legislativas. Voto a que se apresentam mais de 30 partidos – atualmente só quatro têm assento parlamentar – e onde chegar ao Parlamento Nacional vai ser mais difícil do que nunca. É que o Parlamento Nacional aprovou aumentar num ponto percentual, para 4 por cento dos votos válidos (excluídos os votos em branco), a barreira para atribuição de mandato. A mais recente sondagem – realizada pela Asia Foundation – colocava acima dessa barreira apenas três forças políticas: Fretilin, CNRT e PLP. A concretizar-se essa previsão, implica que saiam do parlamento dois dos três partidos atualmente ali representados.
Em termos práticos – e a manter-se as taxas de participação de há cinco anos – serão necessários mais sete mil votos, elevando a barreira de eleição para mais de 21,800. Um número praticamente intransponível para a quase totalidade das forças políticas timorenses.
António Sampaio-Exclusivo Lusa/Plataforma