Fazer render as poupanças da Ásia na região

por Arsenio Reis

À medida que a Ásia se desenvolve, tem vindo a exportar as suas poupanças, através de um excedente comercial com os Estados Unidos, e a reimportá-las, sob a forma de investimento direto e investimento de carteira via Nova Iorque e Londres – um processo que criou tensões financeiras sérias, embora amplamente ignoradas.

No final de 2015, a posição combinada de ativos líquidos da China continental, Hong Kong e Taiwan, assim como do Japão, Coreia do Sul e Singapura, constituía 7,3 biliões de dólares – quase equivalente ao passivo do investimento internacional líquido dos Estados Unidos. Este desequilíbrio não deverá desaparecer tão cedo. Na verdade, os passivos líquidos dos Estados Unidos cresceram recentemente – para os 7,8 biliões de dólares no final de setembro de 2016 – devido em grande parte ao seu contínuo défice da balança de transações correntes e a efeitos cambiais mais fortes.

Então, por que é que os países asiáticos não investem as suas poupanças dentro da sua própria região? Uma razão óbvia é que os Estados Unidos dominam as finanças globais, particularmente no mercado de capitais e no mercado cambial, e tornaram-se também no investidor de capital de risco do mundo, investindo internacionalmente, especialmente na Ásia, em vez de simplesmente pedir e oferecer empréstimos.

Mas isso não significa que os países asiáticos estejam em melhor situação se investirem no Ocidente – devido ao carry trade que se implantou depois da crise financeira global de 2008. Para além disso, as baixas taxas de juro em economias desenvolvidas e um dólar norte-americano fraco levaram os mercados financeiros, conduzidos pelos eixos de Nova Iorque e Londres, a pedir dinheiro emprestado em moedas de baixas taxas de juro e a investir em moedas com taxas de juro altas.

Este jogo financeiro teve um impacto vasto. Embora a opinião convencional seja de que os desequilíbrios comerciais impulsionam as taxas de câmbio e os fluxos de capitais, a contabilidade financeira no Japão, por exemplo, narra uma história diferente.

De 2010 a 2015, o excedente externo acumulado representou apenas 44 por cento da variação líquida na posição de investimento do Japão. Os persistentes excedentes da balança corrente do Japão deveriam ter fortalecido as suas posições de ativos líquidos internacionais. Contudo, graças à apreciação das participações estrangeiras em ações japonesas, a posição de ativos líquidos internacionais do país deteriorou-se, de um auge de 3,8 biliões de dólares no final de 2012 para 2,8 biliões de dólares no final de 2015. Tal como apontam os economistas do Banco do Japão, as participações japonesas em ativos estrangeiros são menos lucrativas do que as participações estrangeiras em ativos japoneses.

O que o Japão deveria estar a fazer era investir mais na Ásia de alto crescimento. No final de 2015, apenas 10,1 por cento dos 574,8 biliões de ienes (4,8 biliões de dólares) em investimento externo bruto permaneceram na Ásia, com 70 por cento a ir para a América do Norte, Europa e Oceânia.

Esta preferência por investir fora da Ásia é partilhada pelos outros grandes detentores de poupanças da região, ainda que os retornos dentro da Ásia sejam geralmente mais altos do que noutros locais. Como resultado, a região tem sido refém da volatilidade dos fluxos de capitais, taxas de câmbio e taxas de juro.

O problema é que, duas décadas depois da crise financeira asiática, tem havido pouco progresso na institucionalização dos intermediários financeiros asiáticos que irão direcionar poupanças para projetos de alto rendimento dentro da região.

Agora que os bancos norte-americanos e europeus – conduzidos pelas restrições de capital e regulamentação, assim como as perspetivas de maiores taxas de juro dos Estados Unidos e um fortalecimento do dólar – estão a começar a afastar-se da Ásia, a pressão para remediar a situação é mais forte do que nunca. Porém, em vez de apoiar a capacidade das instituições financeiras asiáticas de assumir a intermediação das poupanças da região, os órgãos reguladores financeiros da Ásia estão focados em adotar os novos padrões globais de regulação financeira promovidos pelos seus homólogos norte-americanos e europeus – padrões que os políticos dos Estados Unidos e Europa estão a ameaçar desfazer.

A urgência de alterar esta abordagem é ampliada pelo credo da “América Primeiro” do Presidente norte-americano Donald Trump, que irá quase certamente traduzir-se em políticas protecionistas. Tais políticas irão conduzir ainda mais o investimento asiático para a armadilha do dólar, pois as poupanças asiáticas serão usadas para perseguir ativos especulativos denominados em dólares fora da região, em vez de atenderem às próprias necessidades da Ásia.

No longo prazo, a iniciativa Faixa e Rota da China (a Faixa Económica da Rota da Seda e a Rota da Seda Marítima do Século XXI), em conjunto com a internacionalização do renminbi, irão certamente ajudar a enfraquecer o controlo do dólar sobre a Ásia. Contudo, isso permanece uma perspetiva distante.

Entretanto, os bancos centrais das principais economias excedentárias asiáticas (em particular a China e o Japão) precisam de cooperar com outros importantes bancos centrais (especialmente o Banco Central Europeu e o Banco de Inglaterra) para alterar a forma como os excedentes das poupanças em regiões de alto crescimento são usados. O objetivo deverá ser assegurar que as poupanças em países com excedentes orçamentais – incluindo, por exemplo, a Alemanha, que possui um excedente da balança corrente maior do que o da China ou do Japão – são usadas prudentemente, para ajudar a sustentar o crescimento em toda a economia mundial.

O plano de Trump de colocar a América primeiro pode parecer simples, mas não reconhece que, se as economias emergentes fraquejarem, todos ficarão a perder. Com Trump aparentemente relutante em repensar a sua abordagem, cabe à Ásia e aos seus parceiros internacionais fazerem os preparativos para si mesmos e para toda a economia global. 

Andrew Sheng/Xiao Geng

* Andrew Sheng é investigador associado do Asia Global Institute da Universidade de Hong Kong e conselheiro em sustentabilidade financeira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Xiao Geng é presidente da Hong Kong Institution for International Finance e professor da Universidade de Hong Kong. 

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