As consultas que antecedem o debate das Linhas de Ação Governativa nada trazem de novo. Habitação pública, transportes e saúde continuam no topo das preocupações, seguindo-se o imobiliário e a proteção do emprego residente. Nestes dois últimos casos, com a falsa perceção de que o Executivo faz pela vida; por um lado, a campanha contra a corrupção e a economia arrefecem o imobiliário; por outro, é de facto difícil contratar no exterior.
Estes estudos, que deviam pressionar o Executivo, mais parecem desenhados para o contentar. Senão vejamos: Chui Sai On está mais do que convertido à habitação económica, embora essa paixão sirva cada vez menos gente; os transportes não são assim tão maus e até os táxis ganham juízo mínimo; o imobiliário desce pelas piores razões; e a proteção xenófoba da mão de obra é um contrassenso em terra de pleno emprego.
Talvez só mesmo na saúde a crítica tenha razão. Mas não tem acolhimento. Tardam as reformas necessárias e nem a vontade explícita do secretário da tutela permitiu resolver a capacidade do hospital público (São Januário), bloqueado por uma falsa austeridade que contudo não afeta as transferências para o privado Kiang Wu. Num quadro político mais sofisticado Alexis Tam teria argumentos para se impor, mas o tempo é de sarar feridas – e não de as reabrir.
Os outros temas eclipsam-se. As elites conhecem-nos bem, mas calam-nos no espaço público, onde as massas esquecem a educação, retrógrada e disfuncional; a diversificação económica é um mito; a integração regional e a plataforma – que agora seduzem tanta gente – estão a anos luz de impulsionar a sociedade de serviços qualificada que as poderia servir.
Sendo fraca a consciência política, é fácil governar quem pouco ou nada percebe de governação. A crítica que verdadeiramente conta não é a que vem de baixo, mas sim a que vem de cima. Mas essa, por muita razão que tenha – muitas vezes só nos resta Pequim – não é mais que a voz de um Palácio, que nem sequer tem a cor rosa local.
Paulo Rego