Índios em cativeiro

por Arsenio Reis

Recentemente, a notícia da detenção de 141 indígenas norte-americanos no estado do Dakota do Norte atraiu a atenção da comunidade internacional. Embora os índios sejam os povos nativos dos Estados Unidos, eles recebem um tratamento muito inferior a outras minorias étnicas no país. Liberdade, igualdade e direitos humanos são para eles um conto de fadas. Durante os últimos séculos, os índios têm-se assemelhado a animais “em cativeiro” na posse dos Estados Unidos, podendo apenas preservar uma parte da sua tradição cultural dentro das “reservas indígenas” afastadas do resto da sociedade.

No início deste ano, a empresa Energy Transfer Partners investiu 3,7 mil milhões de dólares com a intenção de construir um oleoduto de mais de 1800 quilómetros no Dakota do Norte. Este oleoduto, que atravessará quatro estados nos Estados Unidos, tem a capacidade de transportar 570.000 barris de petróleo por dia e destina-se ao transporte do óleo e gás de xisto do Dakota do Norte.

Uma vez que o oleoduto atravessa as terras de mais de 200 tribos indígenas, das quais a mais conhecida é a tribo Sioux de Standing Rock, as tribos consideram que este oleoduto constitui uma transgressão à sua reserva indígena, existindo ainda o perigo de contaminação ambiental, e por isso têm demonstrado cada vez mais a sua oposição.

Uma das secções atravessadas pelo oleoduto pertence ao Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos, e depois da aprovação do projeto por parte do exército, a tribo de Standing Rock levou o caso a tribunal. Embora o juiz tenha o rejeitado em setembro o pedido para que fosse impedida a construção, o caso continuou a fermentar, sendo eventualmente necessária a intervenção de três agências federais, e tendo o exército afirmado que irá reavaliar a aprovação do projeto de construção.

Entretanto, na secção privada pertencente à Energy Transfer Partners, o projeto continuou (a empresa tenciona tê-lo concluído no final deste ano), a oposição dos indígenas transformou-se em protesto, e em outubro foram instaladas tendas no local de construção para impedir a sua execução.

No dia 25 de outubro, o impedimento da construção levou a um agravamento do confronto, e várias centenas de agentes policiais altamente armados foram enviados ao local, cercando os indígenas e fazendo o seu protesto parecer fraco e impotente. No dia 27, alguns protestantes pegaram fogo a pneus e as chamas alastraram-se para dois veículos e alguns materiais de construção, causando o descontentamento de alguns protestantes pacíficos. Por esse motivo, a polícia iniciou imediatamente uma ação de evacuação que durou seis horas, durante a qual foi usado gás pimenta.

De acordo com Donnell Hushka, porta-voz do departamento policial de Morton County, foram detidas ao todo 141 pessoas, e, excetuando um caso de uma perna ferida, não foram registados quaisquer feridos.

Cecily Fong, porta-voz do Departamento de Serviços de Emergência do Dakota do Norte, afirmou que os detidos incluíram uma mulher que usou uma arma de calibre 38 para disparar três vezes sobre um polícia, não tendo porém atingido o alvo ou existido retaliação.

Durante todo o processo de evacuação, a maioria dos índios manteve um comportamento pacífico, racional e controlado. Numa secção sul do local de construção (pertencente ao governo federal), existiu uma ocupação ainda maior em termos de dimensão e duração, que alegadamente reuniu diversas centenas de protestantes, incluindo indígenas de diferentes partes da América do Norte, ambientalistas e até algumas estrelas de cinema, todos vindos para prestar apoio à causa. Contudo, durante o período de evacuação não se juntaram ao movimento, prestando apenas apoio sem violência. O porta-voz Cody Hall salientou que na secção do oleoduto do governo federal será erguida uma nova tenda e o protesto irá continuar.

Impressiona-me ainda o facto de Amy Goddman, uma jornalista que efetuava a cobertura de uma das ações de protesto, ter recebido acusações pela sua atividade, e da realizadora de documentários Deia Schlosberg, que filmava um grupo de radicais que fecharam uma das válvulas do oleoduto, enfrentar agora três acusações que poderão resultar em 45 anos de prisão.

Os Estados Unidos orgulham-se de ser o país da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa, porém, quando se trata dos seus “animais em cativeiro”, toda a liberdade se extingue. 

DAVID Chan 

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