A China e a imprevisibilidade de Trump

por Arsenio Reis

As eleições presidenciais norte-americanas têm lugar a 8 de Novembro. Com o nome da China a aparecer frequentemente nos debates que opuseram os dois atuais candidatos, resta saber se algo mudará, no que toca à política externa dos Estados Unidos em relação ao gigante asiático. Os analistas dizem ao PLATAFORMA MACAU que, independentemente de quem vença, não deverá haver mudanças, mas também afirmam que Donald Trump é mais imprevisível do que Hilary Clinton.

Com a China a aparecer com frequência nos discursos e debates dos candidatos às presidenciais norte-americanas, especialmente pela voz do republicano Donald Trump, resta saber que mudanças haverá nas relações entre as duas potências mundiais. Os especialistas contactados pelo PLATAFORMA MACAU especulam que não deverá haver muitas, ainda que admitam que o candidato republicano seja imprevisível.

Parte do programa de Donald Trump, conforme se pode ler na sua página oficial, incide na oposição à China. O candidato ergue a bandeira da reconstrução da economia americana defendendo o comércio livre, alegando que irá adotar algumas medidas contra o país asiático, nomeadamente “instruir o secretário do Tesouro a que designe a China de manipuladora da moeda”, além de “instruir o representante do Comércio dos EUA a trazer à colação casos de comércio contra a China, tanto neste país [EUA] como na Organização Mundial de Comércio [OMC]”. Em terceiro lugar, o candidato Republicano defende o “uso de todos os poderes presidenciais para resolver disputas comerciais se a China não terminar as suas atividades ilegais, como por exemplo o furto dos segredos americanos de comércio”, adotando, por exemplo, a aplicação de tarifas aduaneiras.

Ao longo dos vários debates que opuseram os dois candidatos, Donald Trump acusou a China de roubar empregos aos norte-americanos, de depreciar a sua moeda e de levar adiante ataques cibernéticos com o patrocínio do Estado. Hilary Clinton foi mais comedida na campanha, mas ao longo da sua vida política tem-se mostrado frequentemente contra a China, sobretudo em assuntos ligados aos direitos humanos.

Para o especialista em Relações Internacionais, Vincent Yang, é difícil dizer o que irá acontecer. “O que quer que digam durante as eleições, antes de vencerem, pode ser muito diferente do que realmente vão fazer”, afirma.

Ainda assim, aponta diferenças cruciais entre os dois candidatos: “Hilary é mais previsível, a sua política em relação à China é mais madura; não acredito que, se for eleita, haja mudanças dramáticas. Pelo contrário, Trump, que nunca trabalhou para a administração norte-americana, é mais imprevisível – fala de grandes mudanças em política externa.”

Seja como for, com os cidadãos americanos particularmente preocupados com “assuntos quentes” como o comércio livre e as taxas de câmbio da moeda chinesa, os candidatos não podem fugir a estes pontos. “Terão de propor ajustes nas políticas e o que irá acontecer depende de muitos outros aspetos, não é apenas da boa vontade deles; tem a ver com os interesses das grandes corporações norte-americanas, o mercado de trabalho, a economia americana, a política chinesa em relação aos EUA, até mesmo as relações entre a Rússia e os EUA”, diz. Num exercício de especulação, o docente da Universidade de São José afirma acreditar que a candidata democrata irá vencer, mesmo depois do escândalo dos e-mails. Recorde-se que o FBI recentemente anunciou que iria reabrir a investigação sobre o uso de um servidor particular por Hillary durante sua gestão como secretária de Estado americana, de 2009 a 2013.

Por seu turno, o especialista em Ciência Política e Relações Internacionais, Jianwei Wang, acredita que “não haverá mudanças dramáticas devido a mudanças individuais”, dado o relacionamento “de mútuo interesse” entre os dois países. Ainda assim, os candidatos têm diferentes opiniões em relação à China. “Se Hilary for eleita, acredito que haja mais continuidade na política norte-americana em relação à China — foi secretária de Estado na administração de Obama e alinhou em grande parte da sua política, nomeadamente na estratégia de reequilíbrio na Ásia-Pacífico”, afirma o docente da Universidade de Macau. Por outro lado, há mais “incertezas” se Donald Trump vencer. “Precisará de mais tempo para desenhar a sua própria política em relação à China — já disse muitas coisas, acredito que seja duro na política económica, quer que a China seja designada de manipuladora de moeda, e não se sabe a sua posição em relação à estratégia de reequilíbrio na Ásia-Pacífica, nunca falou disso”, afirma, acrescentando: “Porém, acredito que, não sendo Trump experiente em política externa, dependerá mais dos seus conselheiros para este efeito — só que ainda não sabemos quem serão.”

Quanto ao presumível vencedor, Jianwei Wang acredita que, ainda que as eleições sejam apenas a 8 de Novembro, e que Hilary Clinton se esteja agora a debater com o escândalo dos e-mails, a candidata democrata seja a vencedora.

O impacto para Macau

No que toca a Macau em particular, onde estão concentrados grandes interesses norte-americanos na indústria do jogo, Vincent Yang afirma que depende do evoluir da relação entre os EUA e a China. “Se a relação entre os dois países piorar, Macau vai sofrer, mas, se correr como tem corrido até agora ou melhorar, então Macau pode até receber mais benefícios”, diz, dando alguns exemplos do impacto que pode haver para o território e para os interesses aqui instalados: “A política de baixos impostos; ou a possibilidade de o Governo Central impedir jogadores chineses de entrarem em casinos americanos.”

Por seu turno, Jianwei Wang acredita que para Macau não haverá grandes mudanças. “Só se Trump levar adiante as suas promessas, é que deverá afetar as relações económicas entre a China e os EUA e, por arrasto, de alguma maneira, Macau”, diz, acrescentando: “Há aqui muitos norte-americanos envolvidos na indústria do jogo, e que têm ligações partidárias.

As operadoras americanas representadas em Macau já manifestaram o seu apoio. O presidente e CEO da MGM, que em Macau é representada pela subsidiária MGM China, apelou ao voto em Hillary Clinton, apesar de ser um membro do partido republicano.

“Ao longo da minha vida sempre apoiei o Partido Republicano e foram poucas as vezes que votei noutro partido e raramente esse voto aconteceu numas eleições presidenciais. No entanto, acho que este ano a escolha é muito fácil. Vou colocar o meu país à frente do partido e vou votar na Hillary Clinton”, escreveu, num artigo publicado no jornal USA Today.

Por seu turno, o presidente e CEO da Las Vegas Sands, Sheldon Adelson, membro do Partido Republicano, apoia Donald Trump, tendo inclusivamente prometido um donativo para a  campanha de 100 milhões de dólares norte-americanos. O magnata do jogo realça a experiência do candidato ao nível empresarial.

Nesta eleição em particular, ainda que Steve Wynn seja normalmente um apoiante do partido democrata, o CEO da Wynn Resorts mantém-se neutral, por estar “à espera que algum adulto apareça na campanha”.

Luciana Leitão

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