Alberto Carvalho Neto, presidente da Associação de Jovens Empresários Portugal-China, elogia as 19 medidas anunciadas pelo primeiro-ministro Li Keqiang em Macau, com destaque para o foco nas pequenas e médias empresas e na criação de startups. Contudo, sustenta, é preciso que o fundo do Fórum Macau se adapte a essa nova realidade. Quanto a Macau, há ainda muito caminho a percorrer para a sua afirmação numa plataforma que pode agregar a língua espanhola e a América Latina.
– Um grupo de jovens empresários ligados ao agroalimentar, às novas tecnologias e à captação de investimentos chegou cá em 2009; em 2012 formaram a AJEPC e, este ano, vão já no II Congresso… Estão definitivamente seduzidos pela plataforma em Macau?
Alberto Carvalho Neto – Entre 2009 a 2012, a preocupação foi sobretudo reduzir custos. Primeiro entre empresários portugueses, mais tarde com moçambicanos e angolanos, trabalhámos em conjunto para reduzir custos. Depois cada um seguiu a sua lógica, mas aprendemos em Macau a constituir associações para ultrapassar barreiras e chegar a outras esferas.
– O que vos dá o associativismo?
A.C.N. – Desde logo outro nível de acesso na China. Por outro lado, negociamos aviões, hotéis e logística com muito menos custos, o que nos permite aumentar o número de ações: 12 em 2012, 60 este ano, entre missões inversas, comunicação e feiras. Em 2012, a Feira Internacional de Macau (MIF) custou-nos uma barbaridade; hoje já não. Como pequenos e médios empresários; temos ideias e muito para dar, mas não a força monetária que gostaríamos. Daí também a importância do associativismo e do trabalho em conjunto.
– Qual é a real importância da MIF?
A.C.N. – O que nos preocupa é o business matching e a realização do negócio. As feiras são importantes para criar identidade, mas o que importa é estar presente e criar relações.
– Macau tem a fama de subsidiar muita coisa. Acontece convosco?
A.C.N. – Há aí grandes mitos e gostaria de aprender mais sobre esse sistema para que as coisas corram melhor. Para ter uma ideia, começámos a organizar a MIF no ano passado, mas as circunstâncias foram mudando e o pavilhão dos produtos portugueses foi alterado umas 40 vezes… Assim é difícil.
– Queriam mais espaço?
A.C.N. – Não é bem isso, até porque preferimos apostar na mobilização e no business matching. Não é na feira que se faz negócio, mas aí é preciso criar uma dinâmica de grupo e juntar eventos culturais que atraiam atenções ao nosso pavilhão.
– Fizeram negócios na MIF?
A.C.N. – O saldo é positivo, porque há trabalho de casa; não só em Portugal como em Macau e na China. Assinámos aqui uma série de protocolos porque os trabalhámos durante todo ano.
– Algum protocolo especialmente importante?
A.C.N. – Destaco o reforço do protocolo com Macau Import Export Association para apoio logístico à organização de eventos e missões empresariais. Sem isso estamos muito limitados e fazer negócios na China sem parceiros locais é muito difícil.
– Como lê o foco posto pelo primeiro-ministro chinês nas pequenas e médias empresas?
A.C.N. – Tem muito impacto e atrai um player enormíssimo: o Brasil não precisa de Macau para fazer negócios com a China, mas os seus pequenos e médios empresários precisam; como nós, os angolanos, ou os moçambicanos. Até porque temos conceitos e ambições diferentes: uns vendem tecnologia, outros compram-na; uns procuram investimento, outros vendem recursos… Mas quanto mais juntos estivermos mais fortes somos. Daí ter nascido no ano passado a Federação Sino-PLPE, que junta a esta plataforma a língua espanhola.
– Li Keqiang quer também uma fábrica de startups…
A.C.N. – A China pensa muito à frente; por isso temos também defendido planos no mínimo trienais e no fim do ano queremos um encontro entre team leaders para reagendar calendários e discutir projetos concretos. A China já percebeu que as startups mobilizam o tecido empresarial e põem as pessoas a pensar. Em cada 100 vingam duas ou três, mas muitos evoluem em termos de cadeia de valor.
– Macau pode criar essa lógica?
A.C.N. – É preciso trabalhar como deve ser. Arranjem um espaço de networking e juntem a malta a trocar ideias. Há muito espaço vazio no Macau Business Center que dava perfeitamente para isso.
– Pela primeira vez este ano trouxeram associações da América Latina e do Bloco Mercosul, espantados com esta realidade que desconheciam. O que é que essa junção promove?
A.C.N. – Há maturidades diferentes, mas na fusão de conceitos cria-se valor. Discutimos projetos que vão da venda de açúcar à produção de soja; passando por investimentos e plataformas de trading; tentámos soluções para os angolanos importarem frangos no Brasil, exportando mármore para Cabo Verde, que pode libertar os dólares que não há em Angola… Quem nos ouça pensa que estamos loucos ou a brincar aos negócios. Ma estamos a fazer por nós! Para trabalharmos com a China temos de entender o que somos, quebrar barreiras e criar uma união de interesses que não existe em língua portuguesa.
– A CPLP falhou?
A.C.N. – Nunca se afirmou como tal; não temos um bloco económico. Vejam Timor Leste: tem um potencial fantástico, mas só potencial; Moçambique tem um potencial enorme, mas esbarram todos no sistema – se não mudam de atitude morre todo aquele potencial; Portugal tem imenso potencial nas novas tecnologias, mas não as trabalha com os irmãos lusófonos – existe até alguma arrogância perante os outros. Temos de ser humildes, criar parcerias e ganhar valor.
– Há um projeto de produção de soja em Moçambique mencionado aqui como exemplo dessas parcerias alargadas. Como é que ele nasce?
A.C.N. – A China consome 60% da soja a nível mundial; não tarda chegará aos 80%. Os Estados Unidos controlam 75% da produção mundial, negociada em dólares, e a China tem empresas paradas porque a soja em semente sai-lhes mais cara do que a extração em termos de óleo. Os Estados Unidos ganham com isso na balança comercial e beliscam as reservas chinesas em dólares. Por isso temos proposto à China juntar o know-how brasileiro e o português, com o apoio de empresários de Macau, para tornar Moçambique um player forte na soja. Não com investimentos de biliões, mas sim aos bocadinhos.
– Como é que a China reage à agregação da língua espanhola?
A.C.N. – Muito bem. E esta era a única forma de Portugal estar à frente desse caminho, que Madrid faria sem a língua portuguesa. Espanha é uma marca muito mais forte do que nós e tem uma fortíssima presença em Guangdong. Enquanto o consulado português não abrir lá os projetos continuam a fugir-nos e os chineses, mesmo que invistam em Portugal, entram por ali e fogem-nos para Espanha e para França.
– A língua espanhola dá outra escala à plataforma?
A.C.N. – Dá mais negócios e aprendemos com eles. No Chile, por exemplo, há isenções para negócios com a China; o Peru está a fazer o mesmo. É preciso empresários que saiam da zona de conforto e procurem essas oportunidades, mas também é importante que o Fórum Macau apoie os empresários de língua portuguesa que se queiram reorganizar. Temos pedido que diminuam o valor mínimo dos projetos que aceitam, porque cinco milhões de euros é muito para as nossas pequenas e médias empresas. Temos explicado isso em Pequim e há uma grande mobilização nesse sentido também por parte dos jovens empresários de Macau, que já fazem parte desta união. Macau acrescenta imenso valor se conseguirmos trabalhar em conjunto, até porque aqui entendem a língua e a cultura de negócios chinesa. Ainda hoje estava a negociar uma exportação para a China mas não entendia o que o meu interlocutor pretendia. A sorte é que tive ajuda de um amigo macaense que percebeu o que estava em causa e as coisas correram bem.
Quem nos ouça pensa que estamos loucos ou a brincar aos negócios. Ma estamos a fazer por nós! Para trabalharmos com a China temos de entender o que somos, quebrar barreiras e criar uma união de interesses que não existe em língua portuguesa.
Paulo Rego
